‘Se eu atirar primeiro, eles vão atirar em mim e vai morrer todo mundo’

‘Se eu atirar primeiro, eles vão atirar em mim e vai morrer todo mundo’

Pamela Vieira, de 38 anos, agente da Polícia Rodoviária Federal há 16, relata em entrevista ao Estadão sua rotina nas estradas e nas ruas dos grandes centros urbanos; conheça detalhes de sua carreira, como ela faz sucesso no Instagram e suas propostas para humanização no dia a dia do trabalho e um País menos agressivo

Jayanne Rodrigues

18 de março de 2022 | 06h00

“No Rio de Janeiro eu tive o real conhecimento do que era bonde. Umas crianças de sete, oito anos com a arma na mão. Eles estavam indo meter assalto”, quem diz isso é Pamela Vieira, 38, agente da Polícia Rodoviária Federal. Ela está detalhando uma situação que vivenciou em 2016, enquanto passava pela Avenida Brasil, em frente ao Morro do Chaves, durante as operações pós Jogos Olímpicos no Rio. “Eram mais de 20 moleques. A gente estava retornando com as viaturas, tinham quatro policiais. Só quem tinha o porte para fuzil naquele momento era eu. Eu apontei para eles [jovens], e eles apontaram para mim. Se eu atirar primeiro, eles vão atirar em mim e vai morrer todo mundo”. Pamela fez esse depoimento em janeiro deste ano no podcast Zero 61. Agora, os recortes do episódio viralizaram nas redes sociais.

“Se um deles atirar, vou ter que ficar aqui com o dedo pronto e meter rajada. E ainda ter risco de bala perdida”. Durante a fala, ela não escondeu a perplexidade do que presenciou. “Você pensa nisso tudo em fração de segundos”. O desfecho da história também foi narrado por ela. “Acabou que eles não atiraram na gente e não atiramos neles”. No trecho, a agente estava respondendo um ouvinte que havia feito a seguinte pergunta: “O Rio vive uma situação de guerra?”. Pamela finalizou comentando que o problema no território carioca é estrutural. “Como vou combater 20 moleques fortemente armados? A gente tem ali a milícia, o traficante. E a gente tem também a questão da corrupção enraizada”, afirmou. 

Hoje, com 16 anos de carreira na PRF, ela compartilha o cotidiano da profissão com os mais de 100 mil seguidores que a acompanham em sua conta oficial no Instagram. A reportagem do Estadão fez uma entrevista exclusiva com a agente para conhecer a história pessoal da brasiliense por trás da farda policial.

O ano era 2005. Do pedido de demissão ao ofício de policial nas estradas de Brasília. Essa mudança repentina aconteceu na vida de Pamela, 38, quando ela decidiu largar o cargo de secretária e apostar em um concurso público para ingressar na Polícia Rodoviária Federal. Após três meses dedicados aos estudos, o resultado saiu: Pamela estava entre os 2 mil aprovados na categoria. 

Mas a ligação com o meio policial surgiu bem antes do concurso. Esse detalhe envolve o contexto familiar: o avô paterno foi armeiro da Polícia Federal. Com isso, os pais moravam na Academia Nacional de Polícia, localizada no Lago Norte de Brasília. Logo a mãe decidiu trazê-la ao mundo direto para a ANP. Nasceu e se criou nesse meio. Na adolescência, a paixão era compartilhar com as amigas as funções de uma escoteira. Pamela ainda não sabia, mas ali já tinha sido nutrido algo que só iria apontar anos depois. 

“Uma das primeiras lembranças que eu tenho da infância é na formatura da minha tia, que é Policial Federal, com a mãozinha no peito cantando o hino nacional”, relembra.

 

A TRAJETÓRIA NA PRF

Inicialmente, a agente trabalhou por mais de um ano na área administrativa da PRF. Na época, conciliava o expediente com a graduação de Letras na Universidade de Brasília (UnB). Quando concluiu o curso, partiu para o trabalho nas estradas, foi ali que sentiu a adrenalina atravessar o corpo. “Eu me apaixonei”, conta. Na memória de Pamela, algumas histórias foram cruciais para fortalecer o gosto pela profissão.

Era mais um dia de serviço. Ela e um colega de trabalho foram atender uma ocorrência feita por um homem que havia tido o carro roubado. Eles conseguiram fazer o resgate do veículo, era um Chevette antigo, encontrado com a placa adulterada. Para Pamela, a surpresa foi a reação do homem quando ligou para dar a notícia. “Ele ficou tão emocionado… Ali percebi que poderia melhorar a vida de alguém com pequenas atitudes”, relata. 

Pamela relatou que se entusiasmou pela carreira policial quando começou a trabalhar nas estradas. Foto: Arquivo pessoal

Em outra situação, quando estava fazendo ronda nas estradas da BR-040, uma caminhonete ultrapassou a guarnição pelo acostamento. De imediato, Pamela imaginou se tratar de alguma fuga. A perseguição começou. Só que minutos depois surgiu um homem na janela do carro gritando: “minha bebê está morrendo”. Preparada de forma técnica para esse tipo de atendimento, Pamela fez massagens cardíacas e desobstrução das vias aéreas da criança. “Nós chegamos no hospital e eu comecei a chorar muito. A gente conseguiu salvar a neném e isso não tem preço”. Mas nem só de histórias emocionantes vive a policial. A carreira também trouxe episódios traumáticos. 

Um dos medos que a assombra geralmente cerca aquilo que ela mais ama: as estradas. “O mais complicado para a gente é lidar com acidentes”, desabafa. Pamela narrou algumas ocorrências que marcaram a trajetória dela na PRF. Alguns casos com crianças e idosos como vítimas fatais. Na maioria deles, a imprudência do motorista foi a causa do acidente. 

Neste ponto, encarar a partida brutal de uma pessoa – mesmo que seja desconhecida – ainda é um desafio para ela. “A morte mostra o caráter mais selvagem do ser humano”. Lidar com a dor do outro foi algo que Pamela descobriu a partir das relações humanas que construiu na profissão. “Tem policial que acaba ficando um pouco mais frio nessas situações, eu não fico. Eu solto a emoção na hora mesmo. Porque não são apenas estatísticas”.  

POR UM OFÍCIO MAIS HUMANIZADO

Não se envolver com a história de vida das pessoas é uma maneira utilizada pela categoria para não ser afetado emocionalmente por não conseguir – e não ser função – solucionar os problemas enfrentados pelos sujeitos. Mas essa estratégia não é utilizada por Pamela, já que a marca dela no meio policial é a sensibilidade como lida com os casos que acompanha. “Se tiver que chorar, eu choro. Já chorei com as famílias várias vezes, abraço, digo que sinto muito…”

Durante um mês, a policial ficou imersiva na história de um menino em situação de vulnerabilidade. Com 11 anos, ele já tinha mais de 18 passagens registradas nas delegacias. O garoto cometia furtos, roubos e usava drogas ilícitas de maneira frequente. Ela percebia que os soldados não se davam conta da realidade em que o menino estava inserido. “Os policiais, com raiva das coisas que ele fazia, não tinham capacidade. E aí, eu abracei ele”. O menino foi vítima de abusos sexuais, a mãe era ex-usuária de crack, um irmão havia sido assassinado e outro estava preso. 

“O Estado só ofereceu violência para ele. Eu pensava: ele não vai ter nada de diferente, porque a violência é o que ele já teve a vida toda”. Pamela tentou judicialmente obter uma decisão extraordinária para a internação compulsória do menino. Enquanto o processo caminhava, o garoto foi assassinado a pauladas e pedradas. “Esse dia, eu desabei”. Pamela acompanhou o enterro da criança. “Eu abracei a mãe, não julguei pela as escolhas que ela fez. Só abracei porque era uma mãe que estava perdendo mais um filho”. 

Após a morte do menino, a policial deu um novo passo na forma que enxergava a carreira e o mundo. “Minha visão mudou muito”. Declaradamente do movimento de direita – que possui bordões inflamados contra a prática dos Direitos Humanos – ela passou a questionar alguns argumentos. “Eu sou de direita. Só que essa sensibilidade é algo que eu não percebo na direita”, diz. 

“Essa coisa de falar: ‘bandido é bandido’. Não é só isso. Depois eu vou fazer o quê? Eu vou matar, vou apedrejar?”, contesta. Sobre as alternativas para neutralizar tanta violência nas ruas, ela propõe que uma nova rota deve ser pensada a partir das estruturas institucionais. “Tem que ter algo para absorver esse tipo de situação. E o Estado não tem. Isso é muito precário. É uma uma dificuldade com a justiça. A criança fica aí solta podendo ser assassinada. São situações desse tipo a gente tem vários viés do mundo”. 

A SEGURANÇA PÚBLICA

A partir do cotidiano que vivenciou nas ruas, Pamela defende que a questão social influencia no aumento da violência no Brasil. Além disso, reforça que a população precisa compreender o que compõe a segurança pública quando estamos falando do assunto. “Nós temos o crime organizado que utiliza, principalmente crianças que sofrem para cooptar para o crime”. Como consequência, ela avalia que é criado um imaginário em jovens que vivem em situação de vulnerabilidade. “O ser humano vai criando na cabeça um ídolo que tem poder. É aí que você tem como ícone em diversas comunidades de poder: traficante, miliciano”, resume. 

“A criança não tem acesso à educação e a perspectiva de vida dela é essa”. Sobre o reconhecimento da Polícia Rodoviária Federal, Pamela considera que ainda existem muitas lacunas para a categoria alcançar uma valorização justa. “São poucos policiais para um País enorme para a gente cuidar”. 

A classe policial vivencia uma fase tomada pelas redes sociais. Mas para ela, ainda é preciso remover a “imagem de agressivo” que os policiais possuem. A respeito das abordagens violentas noticiadas diariamente, ela argumenta se tratar de diversas ocorrências por dia e que “às vezes uma pode dar errado” e o “policial precisa ser visto como gente. Pode acontecer de em algum momento se exceder”. 

O OUTRO LADO ATRAVÉS DAS TELAS

Com mais de 100 mil seguidores no Instagram, Pamela compartilha o cotidiano do trabalho, além de dar dicas para concurseiros interessados em ingressar na PRF. Só que a decisão de migrar da vida privada para a pública nas redes aconteceu em 2016, após receber diversos pedidos de mulheres e mães de policiais que tinham curiosidade de conhecer o lado pessoal da agente. “Eu dava entrevista na televisão. Mas nunca pensei que as pessoas ficassem assistindo uma entrevista e depois fossem procurar o entrevistado em rede social”. 

Mãe solo e apaixonada por exercícios físicos, ela foca em conteúdos que geram identificação do público. Fotografias antigas, legendas com relatos que rememoram a época que antecedeu a aprovação no concurso da PRF, vídeos treinando, poses com a farda da PRF, depoimentos de depressão pós-parto, momentos com a família e cliques em festas e cercada por amigos. Esses são alguns dos momentos compartilhados pela policial na conta oficial. 

Trabalhando 24h e folgando 72h, e com a crescente interação do público, ela quer atrelar a carreira na PRF com o curso que pretende lançar voltado a concurseiros. Sobre o futuro da categoria, Pamela deixa um recado: “Policial tem espírito missânico. Nós somos seres humanos dotados de sentimentos. Tem dias que alguém vai ser mais agressivo, tem dias que alguém vai ser mais receptivo. Então quero ser vista como qualquer outro ser humano”. 

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