‘Se ele fosse preso poderia ‘detonar’ Michel Temer’, diz delator

‘Se ele fosse preso poderia ‘detonar’ Michel Temer’, diz delator

Diretor jurídico da J&F afirmou ter ouvido de Lucio Funaro, o operador de propinas de Cunha, que prisão poderia comprometer o presidente e o 'PMDB da Câmara'

Ricardo Brandt, Fábio Serapião e Julia Affonso

21 de junho de 2017 | 14h08

O diretor jurídico da J&F Francisco de Assis e Silva afirmou, em depoimento à Polícia Federal que ouviu do operador de propinas do PMDB Lucio Bolonha Funaro que “se ele fosse preso ele poderia ‘detonar’ Michel Temer e outros políticos”.

“Já ouviu da boca do prório Lúcio que se ele fosse preso ele poderia ‘detonar’ Michel Temer e outros políticos”, registra o termo de depoimento de Silva, ouvido pela PF no dia 13, em Brasília.

O delator relatava nesse ponto do depoimento como foram as duas entregas de propinas para um emissário do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), quando esse já se encontrava preso pela Operação Lava Jato, em Curitiba. Não está claro se ele fala de Cunha ou de Funaro.

“Foram realizados dois pagamentos, após a prisão de Eduardo Cunha, nos valores de R$ 2,8 milhões e R$ 2,2 milhões, respectivamente, por Florisvaldo a mando de Joesley para Altair, na cidade de São Paulo.”

Eduardo Cunha e Michel Temer. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O delator disse que “tomou conhecimento em momento posterior, à partir da preparação dos anexos da colaboração de Joesley, que a combinação de uma eventual colaboração de Eduardo Cunha e Lucio Bolonha Funaro poderia implicar o chamado grupo ‘PMDB da Câmara'”. “Integrado pelo próprio Eduardo Cunha, Henrique Eduardo Alves, Moreira Franco, Eliseu Padilha. Geddel Vieira Lima e o presidente Michel Temer.”

O delator disse que falar com Geddel sobre as investigações contra Funaro, na PF. Disse que teve cinco encontros com ele em Brasília. “Todos esses  contatos que manteve com Geddel eram imediatamente comunicados à Joesley”, afirmou o delator.

“Geddel Viera Lima era pessoa que fazia a interface entre Joesleu e o Palácio (do Planalto)”, disse o executivo da J&F. “Segundo Joesley falar com Geddel era o mesmo que falar com Michel Temer.”

‘Passarinho’. O delator contou ainda sobre os pagamentos a Funaro, após sua prisão, feitos inicialmente para seu irmão, Dante, e posteriormente para a irmã Roberta – que chegou a ser monitorada recebendo R$ 400 mil na sede da J&F e foi presa na Operação Patmos, no dia 18 de maio.

O delator diz que Geddel acompanhava os pagamentos feitos para Funaro na cadeia – ele está detido na Papuda, em Brasília. Em depoimento à PF, o operador de propinas confessou ter arrecadado recursos para o PMDB.

“Se recorda de ter encontrado Geddel, pelo menos cinco vezes, em Brasília/DF, a pedido de Joesley, para se atualziar de assuntos referentes às operações ‘Greenfield’ e ‘Sépsis’, e Geddel sempre lhe perguntava como estaria o ‘passarinho’ e se o ‘passariho estava sendo bem cuidado’, numa alução à Lucio Funaro.”

Silva disse que confirmava “que sim”.

Funaro e Cunha estão em tratativas com a força-tarefa da Lava Jato para buscar um acordo de colaboração premiada. Ouvido nesse inquérito, o ex-presidente da Câmara não falou sobre ilícitos. O operador de propinas, no entanto, falou sobre acertos em seu depoimento.

Preso desde julho de 2016, alvo da Operação Sépsis, Funaro disse que Temer intermediou pagamento de R$ 20 milhões à campanha do ex-deputado federal Gabriel Chalita (PMDB-SP) e à campanha presidencial de 2014. O dinheiro seria oriundo de operações do FI-FGTS para as empresas LLX, na gestão de Fábio Cleto, delator, à frente dos Fundos de Governo e Loterias do banco. Ele também disse confirmar delações da Odebrecht que implicam Temer em acerto de propinas oriundas de contratos da Petrobrás.