‘Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come no país da corrupção’, diz Deltan da Lava Jato após Supremo anular condenações de Lula

‘Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come no país da corrupção’, diz Deltan da Lava Jato após Supremo anular condenações de Lula

Ex-coordenador da força-tarefa do Ministério Público Federal no Paraná, procurador Deltan Dallagnol sustenta que apego a argumentos sobre competência territorial 'gira a roda de um sistema irracional que favorece a impunidade e desfavorece a Justiça'

Redação

15 de abril de 2021 | 21h35

O procurador Deltan Dallagnol, ex-coordenador da Lava Jato em Curitiba, criticou na noite desta quinta, 15, a decisão do Supremo Tribunal Federal que derrubou as condenações impostas pela operação ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), tornando o petista elegível. Para o ex-líder da força-tarefa, o entendimento da Corte expõe ‘uma face de um sistema de justiça criminal disfuncional’.

Por 8 a 3, STF reconheceu a ausência de competência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgar Lula nas ações da Lava Jato, anulando todos os atos das quatro ações penais contra o petista. A decisão validou liminar do relator da operação, Edson Fachin, que considerou que as acusações levantadas contra o ex-presidente não diziam respeito diretamente ao esquema bilionário de corrupção na Petrobrás investigado pela operação.

“A decisão do STF de hoje expõe uma face de um sistema de justiça criminal disfuncional: se o caso do ex-presidente Lula tivesse tramitado em Brasília, teria sido anulado também. Ou seja, o desenho do sistema brasileiro o torna um jogo de perde-perde para a sociedade”, afirmou Deltan.

O procurador da República e chefe da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol. Foto: Gabriela Biló / Estadão

Segundo o procurador, como o STJ reconheceu que a competência para julgar Lula era de Curitiba, se o processo contra o petista tivesse tramitado no Distrito Federal desde o começo, ele também seria anulado e, então, recuperado pelo Supremo. “Se isso ocorresse, em seguida, o caso tramitaria em Curitiba e seria novamente questionado nas instâncias superiores. Sabemos o que sucederia: chegando ao STF, este remeteria o caso de novo para Brasília, anulando mais uma vez a condenação. Resumo: se correr o bicho pega; se ficar o bicho come”, disse.

O ex-coordenador da Lava Jato disse que a decisão favorece a prescrição dos crimes do petista e sua ‘impunidade’. “Isso mostra que o sistema de justiça é extremamente irracional, para a frustração de quem busca justiça no país da corrupção”, afirmou.

Ainda está em aberto se as quatro ações penais que miram Lula (do triplex do Guarujá, do sítio de Atibaia e duas sobre o Instituto Lula) vão ser encaminhadas para a Justiça Federal do DF ou de São Paulo, onde serão retomadas e ganharão uma “nova vida”. O julgamento será retomado na próxima quinta-feira, quando o plenário vai analisar um outro ponto delicado: se a suspeição do ex-juiz federal Sérgio Moro vai ser arquivada ou não.

LEIA A MANIFESTAÇÃO DE DELTAN DALLAGNOL:

A decisão do STF de hoje expõe uma face de um sistema de justiça criminal disfuncional: se o caso do ex-presidente Lula tivesse tramitado em Brasília, teria sido anulado também. Ou seja, o desenho do sistema brasileiro o torna um jogo de perde-perde para a sociedade. Explico: No caso Lula, o STJ entendeu que a Justiça Federal em Curitiba deveria julgar o caso. Ou seja, se o caso tivesse tramitado em Brasília, o STJ teria anulado o caso em habeas corpus, em decisão contra a qual não caberia recurso (concessão de HC é irrecorrível).

Se isso ocorresse, em seguida, o caso tramitaria em Curitiba e seria novamente questionado nas instâncias superiores. Sabemos o que sucederia: chegando ao STF, este remeteria o caso de novo para Brasília, anulando mais uma vez a condenação.

Resumo: se correr o bicho pega; se ficar o bicho come. Não havia como desenvolver um processo que não fosse anulado, o que favorece a prescrição e a impunidade. Isso mostra que o sistema de justiça é extremamente irracional, para a frustração de quem busca justiça no país da corrupção.

Um complicador: em casos complexos, como os de corrupção e lavagem de dinheiro, os fatos são praticados usualmente em diferentes lugares. Isso permite construir argumentos que justificam a competência de diferentes locais ou mesmo diferentes ramos de justiça.

A razoabilidade de argumentos contrários sobre a “competência” (local do caso), somado ao fato de que temos três (e não duas) instâncias revisoras, sem possibilidade de recorrer contra a decisão favorável à defesa em HC, aumenta exponencialmente anulações com base na competência.

Isso mesmo. Nosso raciocínio envolveu a anulação por conta da discordância de dois tribunais. Um terceiro, o Tribunal de Apelação, poderia inserir um terceiro ciclo de anulação do processo nessa história. Veja-se que hoje houve quem cogitou que a competência é de SP e não BSB.

Essas anulações, por sua vez, aumentam exponencialmente as chances de prescrição, ou seja, de completa impunidade. O campo da disputa processual é desnivelado em favor daqueles acusados de cometer crimes, especialmente complexos.

A irracionalidade desse sistema, que privilegia a insegurança jurídica, é ampliada pelo fato de que o que assegura a justiça do julgamento não é na verdade o lugar territorial em que ele acontece, mas o embasamento da decisão nos fatos, nas provas e na lei.
Assim, o apego a argumentos técnicos sobre competência territorial, que sempre podem ser formulados em diferentes direções, gira a roda de um sistema irracional que favorece a impunidade e desfavorece a justiça.

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