‘Se alguém me ajudou, eu paguei’, diz lobista do PMDB

João Henriques, preso na Operação 'Ninguém durma' - desdobramento da Lava Jato - declarou à Polícia Federal que 'não vai entregar um amigo a quem ajudou'

Redação

25 de setembro de 2015 | 19h11

pmdb

Por Julia Affonso, Mateus Coutinho e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

Em depoimento à Polícia Federal nesta sexta-feira, 25, o empresário João Augusto Henriques, apontado como lobista do PMDB no esquema de propinas na Petrobrás – segundo a força-tarefa do Ministério Público Federal na Operação Lava Jato -, afirmou que fez pagamentos a ‘amigos que o ajudaram’. Entre eles, estariam ‘pessoas com cargos’.

João Henriques foi preso temporariamente na segunda-feira, 21, no 19º desdobramento da missão Lava Jato. A custódia foi convertida em preventiva nesta sexta-feira, 25, pelo juiz federal Sérgio Moro. A força-tarefa da Procuradoria da República suspeita que a Trend Empreendimentos, controlada por João Henriques e que tinha o empresário Miloud Daouadji como sócio até 2008, foi usada para intermediação de propina. Os investigadores identificaram mais de R$ 20 milhões recebidos pela empresa Trend, tendo como remetentes companhias que possuíam obras com a Petrobrás.

“Se alguém me ajudou, eu paguei. Se alguém me deu alguma informação, eu paguei. …. Agora, eu não vou entregar um amigo que eu dei alguma ajuda”, afirmou João Henriques.

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No dia 10 de agosto, João Henriques, o ex-diretor de Internacional da Petrobrás Jorge Luiz Zelada e outras quatro pessoas viraram réus em ação penal da Justiça Federal, por propina de US$ 31 milhões em contrato da estatal, em 2008, para afretamento de navio-sonda. Deste total, US$ 10,8 milhões foram pagos ao PMDB, afirmou o delator do caso, o lobista Hamylton Padilha – que atuou em nome da empresa contratada.

À PF, indagado sobre empresas offshores, João Henriques negou os fatos, inicialmente. Confrontado, porém, com os documentos que lhe foram mostrados pelos interrogadores passou a admitir alguns fatos. O lobista disse que constituiu a offshore First Oil Ventures Ltd e a usou para receber pagamentos relacionados a contratos da Petrobrás.

João Henriques afirmou que os valores pagos a seus amigos ‘nunca estiveram relacionados com atos que infringissem as regras da Petrobrás’ ou que ‘lhe dessem vantagem que não era devida para obtenção de contratos’. Segundo ele, os pagamentos sempre foram feitos no exterior. “Acredita que utilizou a First Oil Ventures Ltd para alguns pagamentos.” Ele revelou ainda a existência de duas outras empresas offshores que teria constituído, ambas com contas no exterior, a Acona e a Sting Dale.

O lobista foi questionado pela PF sobre quem seriam os amigos que ajudou e se eles são agentes públicos ou políticos. João Henriques respondeu. “Desculpa, eu não vou dizer”, afirmou. “Têm pessoas que têm cargo.”

Para o juiz federal Sérgio Moro, que conduz as ações da Lava Jato, há indícios de que João Henriques seria um dos intermediadores de pagamentos de propinas milionárias em grandes contratos da Petrobrás. “Nessas atividades, remuneraria seus “amigos”, como ele mesmo admitiu, havendo indícios de que estes são ocupantes de cargos públicos. Caberia também a ele efetuar repasses a partidos políticos”, disse o juiz em decisão que converteu a prisão temporária do lobista em regime preventivo.

O PMDB afirma que jamais autorizou qualquer pessoa a arrecadar valores ilícitos em nome do partido.

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