Saúde mental no retorno às aulas presenciais

Saúde mental no retorno às aulas presenciais

Gustavo Estanislau*

22 de julho de 2021 | 12h10

FOTO: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Em alguns dias, o segundo semestre letivo começa. Escolas em todo o Brasil reabrirão suas portas com a proposta de ensino presencial em uma escala cada vez maior. Porém, após os 18 meses de isolamento ao qual crianças e adolescentes foram submetidos, este retorno tem se mostrado um tanto desafiador para famílias e escolas. No que tange à saúde mental, alguns pontos merecem atenção.

Seres humanos dispõem de um sistema de alerta que permite a identificação e a adaptação frente a situações potencialmente complicadas. Este sistema que atua em eventos tão corriqueiros como interações sociais ou a realização de um teste, se autorregula na medida em que a pessoa se depara repetidamente com essas situações no cotidiano, fazendo com que ela se habitue.

O isolamento estendido fez com que os jovens se afastassem por um longo período de experiências que eram intrínsecas ao seu dia a dia e às quais já estavam familiarizadas. Em consequência disso, houve um aumento dos relatos associados a estados de alerta exacerbados, acompanhados de algum nível de sofrimento. Angústia e evitação frente a estímulos novos como ligar a câmera em atividades online, queixas sobre medos que já haviam sido superados, comportamento infantilizado, preocupações excessivas referentes à contaminação por COVID e resistência em retornar à escola podem ser reflexos de um estado mais intenso de ansiedade.

Outro aspecto a ser considerado no retorno às aulas é a desmotivação. A desconexão prolongada de amigos e professores, assim como de atividades que eram significativas para o jovem, reduziram oportunidades de se sentir prazer. Por sua vez, tal fenômeno tende a afetar o funcionamento do circuito de recompensa cerebral, que passa a gerar menor motivação para contatos sociais, suscitar a sensação antecipada de que coisas não serão interessantes ou prazerosas (reduzindo o engajamento) e a minimizar o reforço positivo frente a estímulos prazerosos (gerando comportamentos que tendem à desistência).

A ausência de recursos básicos de moradia, alimentação e saúde, a indisponibilidade de acesso à internet, lacunas pedagógicas, situações de abuso físico ou sexual e perdas de pessoas queridas ou de condição financeira podem ser tanto uma fonte quanto potencializadores da desmotivação, que pode vir a originar um episódio depressivo.

A demanda por um novo conjunto de rotinas também acarreta entraves relevantes à volta às aulas. Durante a pandemia, o cérebro de crianças e adolescentes desenvolveu – a duras penas – um padrão provisório de funcionamentos diários, e o retorno às aulas presenciais exigirá mais um reajuste que possivelmente dispenderá energia e paciência. Para além das rotinas ligadas ao sono ou à alimentação, vale ressaltar que algumas crianças passaram a se a habituar a conviver mais com os cuidadores e a se exporem a menos frustrações, assim como muitos adolescentes foram levados a assumir tarefas dentro de casa das quais podem enfrentar dificuldades de se desvencilhar ou que passaram a utilizar jogos eletrônicos e mídias sociais de forma tão excessiva que a readaptação à vivência escolar pode ser prejudicada.

Crianças e adolescentes são indivíduos “em construção” do ponto de vista de habilidades de enfrentamento, e neste cenário extremamente complexo um fator determinante para o acolhimento nas escolas é a saúde mental do professor. Educadores que são respeitados e que têm condições satisfatórias de trabalho estarão mais propensos a executar sua árdua tarefa de forma mais atenta e afetiva, proporcionando experiências, encorajamento e validação, oferecendo modelos de resolução de problemas e auxiliando seus alunos a interpretarem o mar de desafios que estamos encarando, em um esforço contínuo para criar um ambiente rico o suficiente para gerar importantes aprendizados.

*Gustavo Estanislau é psiquiatra da infância e da adolescência (UFRGS). Coautor do livro Saúde mental na escola: o que os educadores devem saber, editora Artmed. Pesquisador e membro associado do Instituto Ame Sua Mente. Doutorando em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

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