Saúde mental em tempos de coronavírus

Saúde mental em tempos de coronavírus

Higor Caldato*

22 de março de 2020 | 12h00

Higor Caldato. FOTO: DIVULGAÇÃO

“Tá parecendo roteiro de filme, doutor!”, escutei isso de uma paciente essa semana ao arregalar os olhos enquanto passava álcool em gel em suas mãos. Realmente, filmes surpreendem o público. Também são capazes de ativar emoções como o medo e a ansiedade, dependendo da história a ser contada. Surpresa. Improviso. Incerteza. Todos esses termos são facilmente empregados ao se mencionar sobre o novo coronavírus. Difícil mesmo é manter o equilíbrio emocional diante desse desafio mundial, que não é uma ficção.

Resiliência talvez seja uma das características a serem desenvolvidas neste momento. Claro que as preocupações são inúmeras! As contas estão chegando e o momento financeiro não é favorável. Você não está acostumado a ficar confinado, tem a sensação de impotência. Você está ansioso! Todo esse contexto é muito desconfortável… Mas, resiliência. É como uma visita chata que se hospeda em sua casa, você sabe que depois de um tempo ela irá embora. Então você tolera.

Comparar a instalação da covid-19 a uma visita domiciliar pode parecer prepotente e otimista demais. A ideia não é essa. Os riscos são significativos principalmente para os grupos vulneráveis. Porém, emocionalmente, é importante não perder a esperança e o ânimo. Sem eles, o desespero chega. A imunidade baixa. A doença se instala mais facilmente.

Todos estão com os “nervos à flor da pele”. A informação sobre o assunto é importante, mas o excesso dela pode te tensionar ainda mais. Dificuldade para relaxar e para desligar a mente podem te impedir de pegar no sono. A preocupação descontrolada vai te congelar e impedir que realize suas atividades. Olha aí! O novo coronavírus afetando indiretamente a sua mente, mesmo que você não tenha sido contaminado.

Entendeu que a saúde mental também precisa ser priorizada? Diante das surpresas desagradáveis que todos estamos submetidos, pontos de apoio como a boa prática alimentar, hidratação vigorosa, religiosidade/espiritualidade, meditação, exercício físico, busca por atividades prazerosas podem ajudar a manter a mente em dia.

Empatia e solidariedade podem ajudar a liberar neurotransmissores que geram bem-estar. Fazer a sua parte como cidadão também.

É tempo de ser prudente. Cautela nas decisões. A sua rotina mudou sem que você tivesse se programado para isso.

Somos diferentes atores, neste mesmo filme, ainda sem um desfecho definido.

*Higor Caldato, psiquiatra da UFRJ

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