Saúde mental: como nossa rotina e sociedade contribuem para transtornos que levam ao suicídio

Saúde mental: como nossa rotina e sociedade contribuem para transtornos que levam ao suicídio

Marina Rosito*

16 de setembro de 2020 | 08h00

Marina Rosito. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Terceira maior causa de mortes entre jovens de 15 a 19 anos segundo dados da OMS, o suicídio ainda é considerado um assunto de difícil acesso e discussão. Tal relutância para conversar sobre o tema se torna fatal, já que especialistas consideram que cerca de 90% dos casos poderiam ser evitados com acompanhamento psicológico e apoio de familiares e amigos. Mais do que nunca, precisamos deixar de lado o medo de falar sobre saúde emocional e suicídio. É necessário discutir abertamente e  sem preconceitos, para que os cuidados possam, enfim, ser priorizados.

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O suicídio é, muitas vezes, fruto de doenças tratáveis e sua tendência é agravada, principalmente, devido ao estilo de vida predominante em nossa sociedade. O suicídio pode parecer ser o último recurso para pessoas que estão angustiadas com certas  questões como dificuldades sociais, familiares, bullying ou problemas legais. Com a alta cobrança por resultados no trabalho, incertezas econômicas, comparação de parâmetros de vida em redes sociais e uma baixa procura por acompanhamentos médicos para doenças da mente, aumentam-se os níveis de estresse e o desenvolvimento de transtornos de humor. Esses fatores combinados ao alto consumo de drogas depressoras como o álcool, culminam em cerca de 800 mil pessoas que se suicidam anualmente.

Para estabelecer paralelos entre o número de suicídios e transtornos mentais, uma revisão de casos conduzida pela OMS em 2018 revelou que, dos quase 16 mil casos analisados, cerca de 97% das vítimas apresentavam transtornos mentais como esquizofrenia, transtornos de humor e personalidade, transtornos de ajustamento (ansiedade/depressão causadas por mudanças ou traumas) ou distúrbios psicóticos. Destes, 35,8% eram dependentes químicos, fator que agrava ainda mais as tendências suicidas.

Mesmo no pouco mais de 3% dos casos em que as pessoas não se encaixavam em transtornos mentais, ainda não há certeza absoluta de que eram pessoas livres de tais condições – o que se entende, é que não houve tempo para um diagnóstico adequado.

Embora os dados possam assustar, é importante frisarmos que este é apenas um recorte entre as mais de 800 mil mortes anuais decorrentes de suicídio, e que milhões de pessoas convivem diariamente com algum sofrimento sem optarem pelo suicídio do dia para a noite. Na maior parte dos casos, o suicídio é fruto de um longo processo e a pessoa que tem algum tipo de ideação apresenta diversos sinais antes de tomar a decisão final.

Os principais sinais são: diminuição do autocuidado, isolamento do convívio social, abuso de drogas, automutilação e alterações bruscas de humor. Também é possível perceber outras atitudes, como o abandono de atividades que antes geravam prazer e a busca por resolver pendências antigas, como dar adeus a um amigo não mais tão próximo ou uma última conversa com familiares distantes.

Os transtornos como ansiedade, depressão, crises de pânico, esquizofrenia, etc, já são tratáveis há anos através do acompanhamento de saúde e/ou psicoterápico, mas muitas vezes acabam esbarrando no preconceito reforçado pelos próprios pacientes, familiares, amigos e até mesmo por alguns profissionais de saúde desatualizados. Falar de saúde mental ou demonstrar alguma fraqueza não são situações que precisam ser evitadas.

Mais do que uma escolha desesperada, o suicídio trata-se de um grave problema de saúde pública, o que dificulta o debate sobre o tema e torna o acesso por tratamentos psicológicos algo para poucos, de luxo. Para que haja uma verdadeira e efetiva prevenção, é necessário reestruturar o sistema de saúde e tornar a saúde mental algo acessível para todos, independente de raça, cor, condição social, financeira e grau de instrução.

Sem que haja maior clareza de discussão sobre tal assunto, as ações e estratégias para prevenção do suicídio se tornam menos eficazes e as iniciativas de ONGs, outras instituições e o trabalho das equipes de saúde (hospitais e centros de referência e apoio para saúde mental, equipes de atenção primária) parecem não ser o suficiente para suprir as necessidades da população. Contra esse tipo de abordagem, a OMS reconhece o suicídio como uma prioridade de saúde pública, divulgando relatórios sobre a causa no mundo desde 2014, buscando conscientizar sobre a importância do debate e tornar a prevenção um elemento importante na agenda global de saúde.

Neste cenário, é importante compreender que mesmo com todo avanço tecnológico e tentativas de organizações de saúde mundiais, existem ainda muitas ideias erradas sobre a temática. É por isso que é tão necessário falarmos cada vez mais sobre o suicídio e a saúde mental, porque os muros que nos afastam da realidade são altos. O suicídio é um processo contínuo de comportamentos e sofrimentos do indivíduo e é nosso papel intervir durante este processo, seja ajudando a identificar suas dificuldades e sofrimentos, proporcionando espaços de fala e compreensão, ou apoiando e oferecendo acesso à informação de forma que todos os tabus que rondam este assunto se rompam.

*Marina Rosito é enfermeira de família sênior, da Cuidas

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