Saúde individual e coletiva, um por todos e todos por um paradoxo

Marise Berg*

23 Outubro 2018 | 05h30

Precisamos falar sobre o pão nosso de cada dia. Por que? Porquê das 10 doenças que mais matam no mundo atualmente, 7 são decorrentes de maus hábitos, especialmente a nutrição inadequada. É um paradoxo: quanto mais informação e disponibilidade de alimentos, mais adoecemos e morremos, configurando as doenças crônicas não transmissíveis em uma epidemia mundial que atinge a todas as classes sociais.

Homo sapiens, do latim, significa homem sábio, dotado de autoconsciência, racionalidade e sapiência. Qualidades mentais que diferenciam os humanos e nos dão vantagem competitiva sobre todas as outras espécies animais. Somos onívoros pela nossa natureza biológica, dotados de uma ampla capacidade de nos nutrirmos com diferentes tipos de alimentos de origem vegetal ou animal em diversos ambientes e, ainda por cima, dominamos o fogo, a agricultura e a mágica habilidade de cozinhar.O grande paradoxo é termos o mais amplo conhecimento e oferta de alimentos da história, mas não tirarmos vantagem disso. Ao contrário, praticamos uma dieta que nos faz adoecer.

Enquanto os animais não humanos, em seu habitat natural, sabem exatamente o que comer, nós, os sapiens, ignoramos todo o legado cognitivo e cedemos às tentações da indústria alimentícia, dia após dia, em nome do desejo, da praticidade e da conveniência, substituindo os alimentos in natura por produtos alimentícios ultraprocessados, excessivamente doces ou salgados e gordurosos, refinados e destituídos de vitalidade e nutrientes básicos como as fibras.

Além disso, toda a cadeia alimentar precisa ser revista. Cada indivíduo precisa fazer a sua parte cuidando de si mesmo, e agindo ética e solidariamente na comunidade. A atuação da população deve estar alinhada com as políticas sociais, de saúde, agricultura, comércio, indústria, em um sistema multidisciplinar e colaborativo entre sociedade civil, governo, setor privado e organizações não governamentais (ONGs) com o objetivo de construir um futuro saudável a partir de um presente consciente, orientado por uma ampla visão de interconexão e não apenas pela satisfação de necessidades financeiras imediatas.

Essa alimentação pós-moderna, baseada em monoculturas que geram alimentos processados, preconiza agilidade, mobilidade,padronização do sabor e refeições individuais a preços baixos, “sufoca” os pequenos produtores e degrada o meio ambiente, além de estar intimamente relacionada à crescente epidemia de obesidade consequente do desequilíbrio na oferta de nutrientes e da ingestão excessiva de calorias. Para nos convencer dos benefícios dessa dieta, o controverso marketing da indústria alimentícia, por meio de jogos de palavras, comunicação visual ambígua e posicionamento dos itens nas gôndolas dos supermercados, faz seus produtos alimentícios parecerem o que não são.

Anualmente são investidos centenas de bilhões de dólares em publicidade no Brasil, com destaque para o setor de alimentação e bebidas (liderado pelo segmento de cervejas, carnes, aves e derivados), representando 10% do total de investimentos, à frente dos setores automotivo, financeiro e farmacêutico, tendência que vem se repetindo a cada ano, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Diante da nossa ausência e sob nossos olhares distraídos e iludidos pela mídia, a indústria se apropriou da tarefa – nem sempre de forma responsável e honrada – de alimentar nossas famílias. Qual o resultado da falta de consciência e da transferência de responsabilidade? Adoecimento globalizado.

A obesidade e as Doenças Crônicas Não Transmissíveis (hipertensão, diabetes, cardiopatias, câncer, doenças respiratórias crônicas, doenças cerebrovasculares, doenças renais crônicas e depressão) limitam a qualidade de vida, a produtividade, a funcionalidade e a longevidade, causando muito sofrimento aos indivíduos e às suas famílias. Ameaçam diretamente o desenvolvimento econômico global, além de comprometerem a sustentabilidade dos sistemas de saúde em longo prazo. Doenças relacionadas com excesso ou má nutrição superam atualmente a incidência de desnutrição e doenças transmissíveis. Os números são amargos: o sobrepeso já atinge 50% da população adulta brasileira e a obesidade, 12% – uma epidemia que eleva os custos sobre os sistemas de saúde. No Brasil, 17% do custo total de internações hospitalares, entre 1998 e 2009, decorreu de complicações do excesso de peso.

As Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), cujo denominador comum é justamente o fato de serem passíveis de prevenção apenas com a conquista de bons hábitos alimentares, estão associadas às causas mais comuns de mortes prematuras registradas atualmente. Uma pandemia que atinge países de
baixa, média e alta renda. Causam 74% do total global de mortes evitáveis e precoces – mais de 36 milhões de homens e mulheres em idade produtiva por ano. Vou repetir para reforçar o tamanho da angústia: sofrimento e mortes precoces e evitáveis.

Estimativas da Harvard School of Public Health sugerem que entre 2011 e 2030, as perdas globais decorrentes de DCNT são estimadas em até 47 trilhões de dólares, o que equivaleria a 5% do Produto Global Bruto.

Outro prejuízo à saúde é a contaminação por xenobióticos (substâncias químicas estranhas ao organismo) e resíduos defertilizantes e defensivos químicos cujo consumo em curto e médio prazos pode acarretar sintomas leves como dor de cabeça, alergia e coceiras. Os sintomas da exposição crônica aos agroquímicos podem se manifestar em longo prazo: problemas hepáticos (cirrose), infertilidade, impotência, abortos, malformações, distúrbios do sistema nervoso (hiperatividade, Alzheimer), desregulação hormonal, efeitos sobre o sistema imunológico e câncer.

A presença de resíduos de agrotóxicos não ocorre apenas em alimentos in natura, mas também em muitos produtos alimentícios processados pela indústria, como biscoitos, salgadinhos, pães, e outros que têm como ingredientes o trigo, o milho e a soja. Ainda podem estar presentes nas carnes e nos leites de animais que se alimentam de ração com traços de agrotóxicos. Estes contaminam diretamente os tecidos dos animais que, quando consumidos por humanos, os contaminam – processo chamado de bioacumulação. O risco vai depender da quantidade de xenobióticos acumulada e das características do organismo de cada pessoa, ressaltando-se que crianças e idosos são mais suscetíveis.

O processo de formação de doenças é gradativo e previsível. Não se acorda um dia com hipertensão ou obesidade. Leva-se tempo, às vezes anos, para acumular substâncias nocivas dentro do organismo de forma que esse acúmulo se agrave, circule e se instale em um órgão vulnerável culminando em uma doença. O nosso organismo emite muitos sinais.

Ser inteligente é usar os sentidos, a intuição e o conhecimento para adequar o seu estilo de vida ao que é saudável para a sua individualidade, ao que lhe cai bem. São muitas as opções. Não é necessário viver sob privação de prazer para ser saudável. É preciso ser criativo e se utilizar de inteligência nutricional para desenvolver maneiras sustentáveis, embora não óbvias, de se obter satisfação alimentar no dia a dia.

*Marise Berg é nutricionista, autora do Livro Céu da Boca (Um guia de nutrição para o corpo e a consciência) pós-graduada em alimentos funcionais e nutrigenômica, com especialização em avaliação metabólica e Ayurveda pela Escola Yoga Brahma Vidyalaya com extensão em Rasayana (rejuvenescimento) e Nutrição Ayurvedica pela KeralaAyurvedicChikitsalayam e InternationalAcademyofAyurveda – Pume e VishwanathPanchakarma Centre – Rishikesh – Índia. Recebeu iniciação budista dos Cinco Treinamentos da Consciência pelo Monge ThichNhatHanh, em 2009.

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