Saúde: como alcançar a população excluída do sistema digital

Saúde: como alcançar a população excluída do sistema digital

Patrícia Campos*

17 de junho de 2021 | 04h00

Patrícia Campos. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

A importância da tecnologia da informação e comunicação na saúde está atualmente em destaque por conta da pandemia. Consultas virtuais entre pacientes e médicos por meio de aplicativos de videochamada se tornaram comuns. Conforme os programas de vacinas são implementados, websites, e-mails e mensagens de texto são usados para informar às pessoas sobre a possibilidade de efetuar o agendamento online de sua vacinação. As comunicações digitais e as consultas virtuais podem funcionar bem para quem tem smartphone, um plano de dados e uma conexão com a Internet. Mas nem todos têm acesso ou capacidade de aproveitar integralmente as ferramentas digitais. Então, como os serviços de saúde podem garantir que todos tenham acesso a informação e aos cuidados com a saúde?

A Divisão Digital

Atualmente, no Brasil, temos 234 milhões de celulares inteligentes, o que significa mais de um smartphone por habitante em uso, de acordo com dados da Anatel. Porém, o Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicilios Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2019, mostra que 12,6 milhões de domicílios ainda não tinham internet, o que representa 39,8 milhões pessoas digitalmente excluídas no país. Os motivos apontados foram falta de interesse (32,9%), alto custo do serviço de acesso (26,2%) e o fato de nenhum morador na residência saber usar a internet (25,7%). Em 6,8% dos domicílios, os moradores citaram a indisponibilidade de rede na área e 5% alegaram o alto custo do equipamento eletrônico para conexão.

A Internet e a exclusão digital não são questões novas. Quanto mais velho um indivíduo, maior a probabilidade de ser excluído digitalmente – mas há evidentemente outros fatores envolvidos. Na edição de 2019 do Índice Digital do Consumidor, foi previsto que até 2030, 4,5 milhões de pessoas (8% da população) permanecerão digitalmente desligadas e as pessoas com deficiência têm 35% menos probabilidade de ter habilidades digitais essenciais para a vida.

Essa exclusão digital se tornou ainda mais relevante durante a pandemia, com as gerações mais velhas e outros setores minoritários da população obrigados a navegar em sistemas online complexos para obter acesso a auxílios financeiros, consultas, testes e vacinas. Há uma preocupação crescente de que essa divisão digital aumente ainda mais, porque a pandemia sobrecarregou os serviços de saúde e a transformação digital foi inevitável para atender os demais pacientes com outras enfermidades que não a COVID-19.

Garantia de acesso para todos

Então, o que os serviços de saúde podem fazer para garantir que as informações sejam acessíveis a todos os pacientes?

No Brasil, há no momento um Projeto de Lei (PL) 3.814/2020, que obriga o Sistema Único de Saúde (SUS) a criar uma plataforma digital para unificar informações de pacientes atendidos pelas redes de saúde pública e privada. Nessa plataforma digital unificada de saúde poderão ser registrados prontuários médicos; resultados e laudos de exames complementares e de apoio diagnóstico; procedimentos ambulatoriais e hospitalares; prescrições médicas e outros dados demográficos e de saúde. O acesso a esse banco de dados só poderá ser feito pelo paciente ou por profissionais de saúde diretamente envolvidos em seu atendimento, por meio de autorização do próprio paciente ou de seu representante legal.

Para o sistema de saúde este projeto pode significar uma prestação de serviços mais eficaz, melhores resultados e custos reduzidos. Entretanto, as pessoas que mais poderiam se beneficiar com estes serviços digitais são as menos propensas a estar online.

Embora haja forte comprometimento e interesse em melhorar a inclusão digital, o impulso para reduzir o número de excluídos digitalmente ainda precisa ter em mente a frase “onde for apropriado” . Isso ocorre porque, embora haja benefícios em ser digital, estar online também pode ter uma desvantagem. Golpes, crimes cibernéticos, bullying online e notícias falsas são apenas alguns dos perigos que as pessoas vulneráveis podem achar particularmente difíceis de lidar. Não estar conectado digitalmente pode ser uma escolha de vida sensata e positiva e, embora a transformação digital na área de saúde melhore o atendimento ao paciente e reduza os custos; os serviços e sistemas de saúde devem continuar a apoiar aqueles que por escolha ou necessidade, dependem dos serviços de saúde offline.

Não deixe o papel de lado (ainda)

O suporte a fluxos de trabalho digitais e offline são importantes. Por exemplo, há profissionais de saúde de regiões com baixa conexão com à internet que não podem usar sistemas online para seus registros. Quando esses locais precisam compartilhar informações com hospitais ou clínicas para dar seguimento ao tratamento do paciente, ser apenas “digital” pode causar uma desconexão nos processos, gerando atrasos e ciclos adicionais. A consideração proativa de soluções que suportam ambos os fluxos de trabalho podem ajudar a enfrentar esses desafios antes que eles tenham um efeito negativo sobre os pacientes.

O desenvolvimento de canais de registro e de comunicações híbridos e analógicos com o paciente pode ajudar a eliminar a exclusão digital. O uso de comunicações impressas com o paciente pode complementar as opções de e-mail, aplicativo online, mensagens de texto e até telefone para garantir que cada paciente tenha acesso às informações.

Ao pensar em infraestrutura de TI, as organizações de saúde devem utilizar uma infraestrutura de impressão de última geração como uma plataforma de serviço baseada em nuvem que se conecta a outros sistemas online para ajudar a garantir uma comunicação eficaz para todos os pacientes, incluindo a impressão em papel. Os dispositivos de impressão são particularmente benéficos em hospitais e clínicas que atendem a populações com baixo acesso à Internet, para garantir que eles sejam capazes de acessar informações em um formato possível para eles.

Olhando além da pandemia, o futuro de nossas vida e de nosso trabalho não voltarão a ser como era antes. Com a nuvem agora usada rotineiramente para aplicativos e armazenamento, as informações e consultas de saúde estão mais acessíveis do que nunca e a demanda por essa facilidade de acesso continuará para aqueles que a acharem apropriada. Até que isso seja universal, os serviços de saúde precisam manter o sistema de forma hibrida: analógico e digital.

*Patrícia Campos é diretora de Vendas e Serviços Corporativos da Lexmark Brasil

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