São Paulo tem muito que avançar na gestão das águas

São Paulo tem muito que avançar na gestão das águas

Carlos Bocuhy*

19 de março de 2020 | 07h00

Carlos Bocuhy. FOTO: DIVULGAÇÃO

Neste 22 de março, comemora-se mais um Dia Mundial da Água, criado pela ONU para ampliar a consciência pública sobre o tema. O Brasil ainda está longe de uma gestão eficiente nessa área, seja em relação ao saneamento ou a drenagem urbana.

Os últimos dados sobre o saneamento básico no Brasil apontam que o país não avançou no cumprimento das metas de água tratada e do tratamento de esgoto. Cerca de 17% da população brasileira não têm acesso ao abastecimento de água e 47% não dispõem da cobertura de coleta de esgoto, conforme levantamento do Trata Brasil.

Na Grande SP, em municípios como Osasco, Carapicuíba, Guarulhos e Itaquaquecetuba, o quadro ainda é extremamente grave. No ranking do Trata Brasil, essas cidades ficaram entre aquelas com notas mais baixas do país.

Recentemente verificou-se, por meio de dados divulgados pelo Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para o Consumo Humano (Sisagua), do Ministério da Saúde, que a contaminação por agrotóxicos é elevada nos reservatórios de abastecimento público. Um em cada quatro municípios do Brasil tem problemas de contaminação com diferentes agrotóxicos, alguns proibidos no exterior e que causam prejuízo à saúde da população.

Entre os locais com contaminação múltipla estão a capital de São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Manaus, Curitiba, Porto Alegre, Campo Grande, Cuiabá, Florianópolis e Palmas. O Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam) encaminhou em fevereiro um pedido à Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente de São Paulo para que uma reunião de urgência seja marcada com o objetivo de discutir a qualidade da água em São Paulo. A reunião ainda não foi agendada.

A situação de SP é exemplo do menosprezo das autoridades em relação à gestão de nosso bem mais precioso. Basta um olhar retrospectivo e percebe-se vários desvios históricos que distanciaram o Estado de São Paulo dos requisitos de sustentabilidade hídrica.

A capital paulista virou metrópole, as várzeas foram ocupadas, os rios retificados, os córregos canalizados e o solo impermeabilizado por asfalto e concreto, deixando poucas áreas verdes.

Como havia necessidade de energia para impulsionar o desenvolvimento, as águas foram desviadas para a vertente oceânica visando alimentar a usina Henry Borden. Assim, os “rios voadores” trazem as massas de umidade serra acima e chove no planalto — e os homens mandam a preciosa água doce de volta, serra abaixo. Essas águas têm, via rios Tiete e Paraná, um curso natural de 3.000 km até a Bacia do Plata.

Se isso foi importante no passado, hoje é anacronismo. Energia vem por fio; água não. Para abastecer a cidade, foi construído o sistema Cantareira, que traz água do norte,
revertida da Bacia Hidrográfica dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. Outros projetos em curso irão importar água de locais distantes, sacrificando a sobrevivência dessas regiões.

A poluição tomou conta dos rios de São Paulo. Para gerar energia na usina Henry Borden, pouco importava a qualidade da água. A reversão dos rios para o oceano também passou a drenar as inundações do período de chuvas, funcionando como um ralo para a cidade.

A opção de jogar água doce no oceano para gerar energia é injusta, pois São Paulo drena água de outras regiões. Além disso, a reversão de rios poluídos contamina a represa Billings, o maior reservatório de água de São Paulo. É preciso construir um sistema de drenagem seguro para a população e que não destrua o maior reservatório de água da metrópole.

A precariedade de água é crescente. O desequilíbrio climático afeta a regularidade das chuvas e tende a complicar este quadro. É preciso revitalizar os mananciais ocupados de forma predatória. Rios de planície são navegáveis e uma dádiva natural para regiões urbanas em múltiplos aspectos, seja como paisagem, transporte ou lazer. Mas precisam ser despoluídos.

Uma São Paulo sustentável tem que gerenciar bem suas águas. Não pode jogá-las no mar e tem que despoluí-las para atender suas necessidades sem sacrificar Campinas, Vale do Paraíba e Rio de Janeiro, entre outras.

Há muito a fazer. É urgente uma política pública corretiva para os caminhos e a qualidade da água. Quem tem a competência legal para planejar e executar essas transformações? Há uma multiplicidade de atores importantes, inclusive o Comitê de Bacia Hidrográfica do Alto Tietê. Há falta de iniciativa diante de fatos tão evidentes, que devem pautar a agenda do governo estadual.

Este é um tema que exige transparência, debates públicos e decisões democráticas. São Paulo não pode esperar mais.

*Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam)

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