São Paulo quer mais ativismo ambiental

São Paulo quer mais ativismo ambiental

José Renato Nalini*

04 de junho de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Apurou-se que a Mata Atlântica também foi alvo de destruição no ano de 2020, e não só a Amazônia. Perdeu quase 20000 campos de futebol de floresta nativa. A restauração precisa ser a urgente prioridade dos paulistas. De todos os paulistas.

Sabe-se que o remanescente da luxuriante floresta que existia à época do descobrimento, está em poder de particulares. Nem sempre eles têm consciência de sua responsabilidade ecológica. Áreas que foram preservadas por mentes privilegiadas, com a morte de seus titulares, passam para sucessores menos comprometidos com a causa ambiental.

Existem algumas iniciativas escoteiras, mas é preciso que essa cultura do replantio contamine outros, em escala compatível com as necessidades de nosso Estado.

Outros países têm experiências bem-sucedidas num processo conhecido como “bottom up”, que consiste na expansão das possibilidades de promoção de um ambiente equilibrado nas cidades.

A mudança climática nas zonas urbanas acelera o processo da poluição ambiental. Esta é uma das causas mais evidentes das mortes prematuras que ocorrem em todo o planeta. A poluição do ar nas grandes cidades está sempre acima dos níveis recomendados.

São Paulo é emblemática nesse sentido, pois foi uma cidade que destruiu seu verde, enterrou seus cursos d’água, poluiu os três grandes rios que inspiraram os jesuítas quando da fundação do colégio em 1554 e se transformou num espaço favorável ao trânsito automobilístico e nocivo para o ser humano.

Impõe-se encarar com seriedade a política de restauração do séc os sistemas, providência eficaz para reverter os processos de degradação ambiental resultantes de uma urbanização desenfreada.

As florestas urbanas devem ser utilizadas para mitigar as mudanças no clima, tanto em escala micro quanto em escala regional. O artigo “Um novo ecossistema: florestas urbanas construídas pelo estado e pelos ativistas”, assinado por Érica Moniz Ferreira da Silva e uma equipe de estudiosos, figura na revista Estudos Avançados 97 da USP.

Observam os autores que em São Paulo, a temperatura varia em até 10 °C entre as regiões mais quentes, sem áreas verdes, até as regiões mais frias, sobre influência de parques e remanescentes de cobertura verde.

O conforto que uma árvore exerce sobre uma pessoa se potencializa quando se pode contar com um conjunto de espécies frondosas. As árvores também contribuem com a interceptação da poluição do ar. É postulado científico afirmar que as árvores e seus serviços ecossistêmicos se destacam como peça chave para mitigar os problemas ambientais urbanos.

Todas as vezes que nos é dado voltar a São Paulo de avião e permanecer à espera da autorização de pouso, observa se a falta de verde em algumas regiões, notadamente na zona leste. Existe, é verdade, o Parque do Carmo. Mas é muito pouco para o adensamento que ali se registra. Quem vê do alto, a Zona Leste é uma imensa mancha cinza.

Não é preciso reafirmar que nas regiões muito adensadas e com pouco verde, a população vive sob condições menos favoráveis, sujeita a, por exemplo, temperaturas diurnas superiores a 35 °C.

Simultaneamente à multiplicação de viveiros de mudas e à formação de jardineiros, profissão que a robótica não fará desaparecer, é importante intensificar a educação ecológica da população. Ainda é comum ouvir-se de algumas pessoas, até escolarizadas, que as árvores dão trabalho ao morador, obrigado a recolher suas folhas. Ou que servem para que infratores nelas se escondam; ou, também, que estraguem os passeios com suas raízes, quando deixam o solo e arrebentem a cobertura de cimento.

A ignorância, portanto, é uma grande inimiga da natureza. Assim como a ganância dos especuladores imobiliários que nem sempre respeitam a ecologia.

Quando a pandemia estava com sua primeira onda em plena ascensão, atribuiu se ao prefeito Bruno Covas a intenção de plantar uma árvore para recordar a memória cada brasileiro ceifado pela COVID-19.

A homenagem mais significativa para cultivo da personalidade do jovem prefeito, é o cumprimento de sua vontade. Aproxima-se, celeremente, o número de meio milhão de mortos. São Paulo agradeceria ganhar mais meio milhão de árvores.

Empresas interessadas na implementação do conceito ESG podem encontrar nesse projeto uma fórmula factível e pouco dispendiosa de contribuir para com a sustentabilidade, tão vulnerável em nossa megalópole.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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