São Paulo não merece

São Paulo não merece

José Renato Nalini*

25 de janeiro de 2021 | 10h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

A natureza privilegiou este espaço de terra e nele atuou durante período indefinido de tempo. No século XVI da era cristã, o planalto que depois seria de Piratininga era aprazível. Três grandes rios, límpidos e piscosos, garantiam clima favorabilíssimo, alimentação e transporte. Tietê, Pinheiros e Tamanduateí serpenteavam pelas várzeas luxuriantes. Vegetação dos trópicos, já mesclada com a nativa do clima temperado, tornava o planalto um verdadeiro refúgio edênico.

Vencida a muralha verde da Serra do Mar, os sábios jesuítas souberam escolher o local para edificar um colégio, exatamente na festa de São Paulo, o apóstolo dos gentios.

O que aconteceu em seguida, nesses 467 anos que se celebram em plena pandemia?

Os rios foram assassinados. Com a pretensão de superar o Criador, o homem quis disciplinar os rios. Retificou-os. Converteu-os em canais de conduto para fezes, objetos descartados pela ignorância e pelo egoísmo, substâncias químicas e demais venenos. São rios mortos.

As centenas de córregos que alimentavam os grandes cursos foram soterrados. A “civilização” rendeu-se ao automóvel, o poluidor meio de transporte que intensifica o individualismo e que transformou o tráfego paulistano em tormento dantesco.

O patrimônio histórico é continuamente vandalizado, quando não cede espaço para o adensamento demográfico surreal. A capital paulista produz volume excessivo de dejetos, a evidenciar a falta de consciência econômica e ecológica, além de acarretar dispêndio milionário para um sistema de coleta e armazenamento de resíduos sólidos. Proliferam os lixões, embora as ruas permaneçam continuamente imundas.

Moradores de rua ocupam espaços públicos, a exibir um espetáculo de indignidade. Não é digno residir em vias destinadas ao uso comum do povo. A moradia é direito fundamental inserto na Constituição Cidadã.

A insensatez predomina e já não choca ninguém, nesta conurbação que se justificaria numa nação desprovida de dimensão territorial. O ser humano se acostuma com o infausto, com o desagradável, com o desconforto. Já não se lastima “o penoso deslocamento diário dos que moram longe do trabalho ou da escola; os engarrafamentos no interior de garagens de escritórios de última geração; a presença diária de trabalhadores e estudantes atendendo a compromissos em todos os quadrantes da metrópole; a multiplicação de lugares de paisagem homogênea, criados pela conjutação dos mesmos equipamentos comerciais distribuídos em rede; os usos alternativos dos antigos galpões industriais; a rotinização do uso do helicóptero; a proliferação das iluminadas cabinas de segurança que bloqueiam passagens e controlam o acesso a espaços residenciais insulados em relação às ruas que os cercam; a verticalidade súbita de ruas e bairros antes esparramados no chão; as rodovias que pelo aumento abusivo do fluxo de veículos ganham ares de avenidas e as avenidas que pelas mesmas razões são equipadas para assumir o papel de rodovias; os estacionamentos improvisados em lotes urbanos que esperam seus novos destinos; os gigantescos emaranhados de alças viárias e túneis onde um pedestre não encontra nenhum amparo físico; enfim, tudo remete a novas formas de ocupar e de se deslocar na dimensão social, espacial e temporal do território metropolitano” (São Paulo Metrópole, Regina Maria Prosperi Meyer, Marta Dora Grostein e Ciro Biderman).

A precariedade foi escancarada pela Covid19. Como pedir distanciamento social a grupos que ocupam espaço exíguo e insalubre, que precisam de permanente socorro para atender às suas necessidades vitais?

Vastas parcelas paulistanas são cor de cinza. Sem verde, sem espaçamento entre construções rústicas, numa gritante contradição com alguns edifícios que poderiam estar em Nova Iorque e que, na verdade, embora construídos numa única cidade, ostentam o espetáculo de uma distância de anos-luz entre os ocupantes de cada modelo.

A máquina operacional paulistana funciona, tanto que a capital é um procurado centro de excelência de serviços. A máquina social está em permanente pane. Não tem havido competência para enfrentar os conflitos sociais, nem para oferecer um amanhã promissor a um crescente número de crianças e jovens condenados à mediocridade. Alvos fáceis de recrutamento pela sempre resilientes e bem organizadas facções que se sustentam da ilicitude.

Somente um poeta de alma infantil e mente celestial, como Paulo Bomfim, conseguiria cultuar São Paulo, neste 2021, com poema impregnado de alento e de otimismo.

À espera de uma revolução humanitária em nossa cidade, resta conclamar os paulistanos de nascença ou de adoção, para que não percam a capacidade de se indignar e que atuem, cada qual no seu espaço e dentro de suas atribuições, para devolver à cidade um pouco daquilo que a ganância foi subtraindo ao longo de 467 anos. São Paulo merece amor. Não merece mais desamor.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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