São Paulo merece mais

São Paulo merece mais

José Renato Nalini*

09 de julho de 2021 | 05h00

As grandes cidades do mundo estão adotando posturas pioneiras, criativas e audaciosas, para mostrar que a humanidade tem de melhorar depois da pandemia. Em Paris, a notável prefeita Anne Hidalgo idealizou e implementou o projeto “cidade de 15 minutos”, com o intuito de oferecer possibilidade de deslocamento em um quarto de hora. Também, isso é mais fácil porque Paris possui uma fabulosa rede metroviária, que permite acesso a todos os pontos da cidade e de seus arredores em brevíssimo lapso temporal.

José Renato Nalini. FOTO: HELVIO ROMERO/ESTADÃO

Em Barcelona, a prefeita Ada Colau desenvolve o plano de banimento do automóvel individual do centro. As “ramblas” serão multiplicadas na simpática Barcelona, muito mais acolhedora do que Madrid.

Não é só isso o que se faz nas maiores cidades do planeta. Pensa-se e atua-se para tornar o ambiente urbano o mais prazeroso e digno possível para todas as pessoas, principalmente as menos favorecidas.

Com isso, promove-se a campanha “despejo zero”, para não arremessar à rua famílias que não conseguiram pagar seus alugueres, algo que ocorre em Barcelona, Joanesburgo, Nova Iorque e Berlim.

Lisboa pretende converter em moradia social todas as edificações que serviam ao turismo. A prefeitura pagará metade do aluguel e firmará contratos quinquenais renováveis, para estimular os locadores.

Enquanto isso, nossa São Paulo é apontada como a “cidade das lonas”. Proliferam as toscas barracas de lona que abrigam os moradores de rua, que se espalham por todos os logradouros.

O número dos desprovidos de moradia digna cresceu de forma assustadora com a pandemia e São Paulo poderia dar o exemplo se destinasse todos os prédios ociosos para a residência dos que não têm casa.

É algo que dá trabalho? É óbvio que uma empreitada como essa requer uma logística excepcional. Mas o município é a entidade federativa que tem obrigação de assegurar ao munícipe, tudo aquilo que o ordenamento prometeu entregar e preservar, pois garantido na Constituição cidadã.

Sabe-se que o brasileiro não é afeiçoado à filantropia ou ao mecenato. Porém, houve belíssimos exemplos nas fases mais críticas da peste. Pensar no capital desperdiçado de cerca de 300 mil imóveis desocupados é também fazer um apelo à criatividade e à responsabilidade do poder público local. Afirma-se que, se apenas um quarto dos imóveis fechados fossem reservados a exercer a sua função social, obrigação prevista no texto fundante, o problema da moradia paulistana estaria resolvido.

Mostra-se também oportuno conclamar o empresariado, a Universidade, a Academia e todas as demais formas associativas do terceiro setor, para que, juntos, encontrem alternativas à vistosa indignidade de seres humanos habitando as ruas e imóveis fechados como estoque de capital para especulação imobiliária.

São Paulo também tem condições de se converter na capital das startups, para acolher milhares de jovens millenials, os nativos digitais que têm formidável desenvoltura no manuseio das bugigangas eletrônicas. Eles devem ser incentivados a criar aplicativos e softwares, games e hipóteses ainda não utilizadas de funcionalidades resultantes de um instigante hibridismo das novas tecnologias. Existem infinitas potencialidades para resolver problemas aparentemente insolúveis, independentemente de sua dimensão.

Uma cidade incubadora de novas ideias seria resposta factível e promissora ao desalento geral de uma juventude que, se pudesse, deixaria o Brasil. Sua pátria não cuidou de ofertar uma educação de qualidade, apta a propiciar sobrevivência decente e prazerosa.

Algo até muito mais simples deveria estar no horizonte das autoridades municipais. Pouco antes de morrer, o jovem prefeito Bruno Covas prometera plantar uma árvore em memória de cada pessoa ceifada pela covid19. Seria também um bosque memorial para alertar a consciência brasileira de que não se deve brincar com pragas exterminadoras da espécie humana.

Não houve referência alguma ao cumprimento dessa promessa. Seria oportuna homenagem ao prefeito precocemente falecido e também uma resposta aos detratores da natureza, que persistem na destruição do verde, sem lembrar que isso representa a eliminação de qualquer espécie de vida no planeta Terra.

Enfim, não faltam ideias e São Paulo tem recursos e talentos hábeis a concretizá-las. É o que se espera. São Paulo merece e pode fazer mais.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – gestão – 2021 -2022

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