São Paulo investe em leitores

São Paulo investe em leitores

José Renato Nalini*

07 de janeiro de 2021 | 06h30

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O ano de 2020 foi fatídico e levou quase duzentos mil brasileiros que poderiam continuar entre nós por período indeterminado. Houve isolamento, medo, pânico, incerteza e indefinições. Mas nem tudo foi negativo. Ao menos para aquela persistente lucidez bandeirante que teima em fazer desta unidade federativa um espaço de estímulo à formação de novos leitores.

Uma parceria entre a IMESP, a tradicional e prestigiosa Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e a ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, instituição que celebrou 111 anos de ininterrupta existência, forneceu uma excelente notícia. É a coleção Perfil Acadêmico, destinada a registrar vida e obra de todos aqueles que forneceram seus nomes para servir de patronato às quarenta cadeiras dos imortais paulistas, assim como a dos membros fundadores e de seus sucessores.

A coleção mostrará, principalmente à infância e juventude, quem foram essas personalidades, geralmente luminares nas letras, que honraram a tradicional Casa de Cultura por excelência do povo paulista, há muitas décadas sediada no Largo do Arouche, defronte àquilo que um dia se chamou “Jardim dos Escritores”.

A ideia é fazer com que os quarenta atuais acadêmicos escrevam a biografia de seus antecessores, em linguagem objetiva e em síntese que estimule as novas gerações, integradas por nativos digitais, a se abeberarem dessa fidedigna fonte da história literária bandeirante.

É uma coleção que tende a permanecer na história da legendária IMESP, a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo que tanto contribuiu para a cultura brasileira com suas obras escolhidas e produzidas com excelência de qualidade e que propiciará a todos os brasileiros um contato mais próximo com a Academia Paulista de Letras.

A ideia das Academias remonta a Platão, que assim chamou sua escola, no Jardim de Akademos, retomada no século XVII por Richelieu, que fundou a Academia Francesa. Ainda hoje, paradigma para todas as demais, que se espalham pelo planeta. Até o Vaticano possui a sua Academia, da qual já fizeram parte brasileiros ilustres, como Crodowaldo Pavan, cientista que também honrou a Academia Paulista de Letras.

Os cinco primeiros exemplares dos livros destinados a eternizar essa parte importante da História de Piratininga já foram produzidos: os volumes editados são: “Vicente de Carvalho: Poeta, Abolicionista, Pescador”, escrito pelo biacadêmico Ignácio de Loyola Brandão, que em 2020 foi também eleito imortal da Academia Brasileira de Letras. “Alexandre de Gusmão: Estadista e Literato”, escrito pelo embaixador Synésio Sampaio Goes Filho; “Rubens Teixeira Scavone: o homem que viu”, obra do acadêmico Márcio Scavone, filho do biografado, por sua vez filho de Maria de Lourdes Teixeira, a autora de “Rua Augusta”, a primeira mulher eleita para a Academia Paulista de Letras.

Completam a coleção “Monteiro Lobato, pintor de palavras”, de Gabriel Chalita e “Muitas vidas em uma só: José Bonifácio de Andrada e Silva”, de José Renato Nalini, também curador da coleção e atual Presidente da Academia Paulista de Letras, reeleito por seus pares para o biênio 2021-2022.

No prelo estão as biografias de Nuto Sant’Ana, entregue ao talento de José de Souza Martins e de Washington Luís Pereira de Souza, obra do biógrafo que dissecou a legendária existência desse “paulista de Macaé”, que foi Prefeito de Batatais, foi Presidente da Província e eleito Presidente da República, em fase aflitiva da vida nacional.

Em seguida virão Mário de Andrade, sob a ótica do Maestro Júlio Medaglia, Júlio de Mesquita Filho, na visão narrativa de seu descendente, Antonio Penteado Mendonça, numa sequência que pretende exaurir a história literária de São Paulo, na vertente em que ela se desenvolveu sob os auspícios da Academia Paulista de Letras.

Num momento da História do Brasil em que as letras em regra são desprestigiadas, a cultura menosprezada, os literatos desprestigiados,  louvável a iniciativa de São Paulo. Já se tentou, em várias oportunidades, fazer da terra paulista um território de leitores. Agora parece que dessa exitosa parceria se extrairá resultado promissor. Parabéns ao Presidente da IMESP à época, Nourival Pântano Júnior e ao atual, Carlos André de Maria de Arruda, ao Governador João Dória e ao Vice-Governador Rodrigo Garcia, que tiveram a sensibilidade e a percepção de detectar a potencialidade de um projeto de tamanha envergadura.

Os quarenta “imortais” da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS confiam na continuidade da iniciativa, que proverá o leitor paulista de material instigante e sedutor, capaz de aprimorar o nível intelectual dos millenials, além de contribuir para a consolidação da história da literatura nesta terra em que Anchieta ensinou os nativos a mergulhar no milagre das palavras.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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