São Paulo ESG

São Paulo ESG

José Renato Nalini*

07 de julho de 2021 | 12h00

A cultura ESG se propõe a mudar o mundo. Tem condições de fazê-lo, tal a lógica inspiradora que a anima. São Paulo, a maior cidade do hemisfério, terá muito a ganhar se encarar com seriedade esse conceito que não é modismo, porém alavanca transformadora de hábitos de cidadania.

Iniciemos pelo ambiente. O crescimento desordenado fez desta área uma conurbação insensata. A maior parte da cidade não conta com verde suficiente para assegurar uma qualidade de vida digna a seus moradores. Estes têm direito ao ambiente ecologicamente equilibrado, essencial à sadia qualidade de vida – artigo 225 da Constituição.

Embora a capital figure como a 278ª cidade no ranking do desmatamento promovido contra a Mata Atlântica, só existem 26.540 hectares de mata preservados na megalópole. Isso equivale a cerca de 17% da formação original do bioma paulistano. É muito pouco e precisa ser aumentado.

Algumas unidades de conservação ainda sobrevivem, como a APA – Área de Proteção Ambiental Bororé-Colônia, o Parque estadual da Serra do Mar e a APA – Área de Proteção Ambiental sistema Cantareira. Não é suficiente. Muito mais pode ser feito, se houver vontade política.

Não se verifica uma campanha institucional de incentivo à formação de RPPNs – Reservas Particulares de Proteção Natural. O município deveria ser o maior incentivador dessa iniciativa que faz com que a cidadania se preocupe e aja em favor da natureza.

Também não existe um projeto de educação ambiental visível e efetivo. Deixa-se de cumprir com rigor o mandamento constitucional que prevê educação ambiental em todos os níveis e isso compromete a formação de uma consciência ecológica responsável.

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

As escolas municipais teriam de insistir nessa tese, não com a mera inclusão do tema ambiental no currículo, mas com ações práticas que levassem infância e juventude a uma profícua militância ecológica.

Não se verifica a divulgação de campanhas de incentivo para que todos os particulares sejam semeadores, plantadores e cuidadores da flora. As árvores ornamentais que ainda existem, produzem gratuitamente uma infinidade de sementes que não são recolhidas e se perdem nos passeios, são levadas pelas águas pluviais em direção às bocas de lobo. Fossem recolhidas, alimentariam vários viveiros de mudas, para que o replantio fosse uma prática rotineira e intensificada.

Não há prêmios para iniciativas como as recentemente divulgadas, de pessoas que, de forma espontânea e anônima, recompõem as margens dos córregos que resistiram à volúpia do asfalto e são semeadores do porvir. Outros acolhem espaços ociosos e fazem hortas comunitárias, pomares e pequenos bosques. Existem muitos exemplos similares, sempre individuais e heroicos, sem qualquer reconhecimento por parte do poder público. Por que não reconhecer e recomendar sejam multiplicados?

Algumas situações deveriam envergonhar seguidas administrações municipais que não conseguem solucionar o problema das represas que abastecem a população da grande São Paulo.

A Guarapiranga e a Billings poderiam ser entregues às grandes empresas da construção civil, para recuperação ecológica, em conjugação com o projeto de concessão de moradia digna a seus ocupantes. Isso não é impossível e fez parte da história recente da Nova Zelândia, para mostrar sua viabilidade, quando há administradores capazes e lúcidos.

O economista peruano Hernando de Soto, um dos pensadores mais influentes do século XX, já conseguiu provar que a monetização do valor imobiliário de favelas e ocupações clandestinas seria o bastante para abrigar a comunidade em moradias dignas, sem qualquer custo acrescido.

É imprescindível, porém, ousadia, audácia e coragem para o enfrentamento de questões que só aparentemente são insolúveis, porque ocupam o limbo da falta de atuação e iniciativa do poder público. O empresariado, se suficientemente alavancado com estímulos concretos, poderá se desincumbir de uma integral reformulação da cidade, com ocupação racional do solo urbano.

Exatamente o que prega a cultura ESG: cuidar conjuntamente da natureza, em direção à redução das injustas desigualdades sociais, numa governança corporativa que já é bastante desenvolvida entre os empreendedores do setor privado e que precisa ser traduzida sob a fórmula de uma gestão inteligente para as prefeituras.

As cidades brasileiras terão de ser diferentes depois da pandemia. São Paulo tem uma história de bravura e de conquista, a inspirar sua prefeitura a perfilhar as mutações benfazejas que já ocorrem em urbes análogas, como Paris e Barcelona. O futuro não se esquecerá de quem vier a mudar, para melhor, a qualidade de vida dos paulistanos.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – gestão – 2021- 2022

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