Sandbox Regulatório e a democratização dos seguros

Sandbox Regulatório e a democratização dos seguros

Rodrigo Ventura*

11 de novembro de 2020 | 03h30

Rodrigo Ventura. FOTO: DIVULGAÇÃO

Serviços de proteção financeira sempre foram planejados para as camadas mais abastadas da população, sobretudo classes A e B. Os números confirmam isso: segundo pesquisa divulgada pelo Ibope em setembro do ano passado, que ouviu duas mil pessoas de todo o país, é possível perceber que a penetração do seguro de vida é muito maior entre as classes A/B, com 28%, seguida da classe C, alcançando 15%, e D/E com apenas 5%. Em relação à escolaridade, a pesquisa mostra que quanto maior o grau de instrução, maior é o esclarecimento das pessoas sobre a importância de se precaver.

Diferentemente do que ocorre nas culturas europeias, o brasileiro costuma delegar ao Estado, ao empregador e aos filhos a responsabilidade que deveria ser de um seguro. Entretanto, a discussão da reforma da Previdência aumentou a conscientização sobre a necessidade de produtos de proteção financeira, sobretudo porque diferentemente da cultura europeia, no Brasil as pessoas ainda delegam ao Estado, ao empregador e aos filhos a responsabilidade que deveria ser de um seguro – e isso está mudando.

O setor de seguros vive hoje um momento fundamental e histórico com a implementação do programa Sandbox Regulatório, iniciativa do governo federal voltada para testes de inovações em um ambiente controlado cujo objetivo, dentro do segmento de seguradoras, é flexibilizar os requisitos legais para novas empresas. Antes dele, era necessário adaptar os produtos tradicionais para conseguir abranger uma gama maior de clientes – processo que muitas vezes era demorado e caro. Com o Sandbox, será possível criar seguros de forma mais eficiente e totalmente focado para as necessidades do mercado.

Com apoio do programa, empresas selecionadas terão uma licença de seguradora, válida por três anos. Neste período, elas poderão testar produtos, serviços e modelos de negócios inovadores em sua essência, que trarão inúmeros benefícios e novas possibilidades para o público final – seja pela conveniência de contratar um seguro de forma inteiramente digital, seja pelas condições de pagamento.

Para o mercado de seguros, o projeto representa uma intensa reviravolta. Ele simboliza flexibilização (os projetos estão sujeitos a requisitos regulatórios customizados e mais brandos do que aqueles estabelecidos para as instituições incumbentes) e, portanto, permite inovação, uso de tecnologia de ponta e inclusão social no segmento. Com este estímulo, abre-se espaço para a competição entre players, eleva-se o nível de atendimento e fomenta-se um ambiente onde todos pensam no cliente em primeiro lugar.

Blockchain, Inteligência Artificial, Machine Learning, Internet das Coisas, Big Data e  computação em nuvem são algumas das tecnologias que deverão representar o “novo normal” no segmento, proporcionando melhoria na experiência,  atraindo consumidores de todas as classes sociais para o mercado, possibilitando manutenção da vantagem competitiva, trazendo mudanças positivas na visão do público e democratizando a proteção do seguro.

A tecnologia aprimora os serviços e isto se reflete nos preços das apólices, modelos de distribuição e nas coberturas ofertadas pelas seguradoras. O espaço é grande para crescer, afinal o mundo se tornou ainda mais digital com a pandemia. Segundo dados do Gartner, até o final de 2020, 20,8 bilhões de dispositivos estarão conectados à internet. Obviamente, esta tendência terá implicações de longo alcance para seguros de casa, saúde e automóvel e, com criatividade, será possível reinventar muitos produtos.

Por exemplo, no seguro automotivo, dispositivos de telemetria poderiam ser instalados em veículos e, os dados coletados, enviados para as seguradoras. Após a análise, seria possível oferecer desconto aos bons condutores, além de reduzir os riscos de acidentes e minimizar fraudes e sinistros. Para as seguradoras, as informações sobre os clientes e a análise desses dados permitiriam identificar riscos em determinados perfis, otimizaria o preço do produto, seriam descobertos novos riscos, fraudes seriam prevenidas, sem falar da geração de insights sobre segurança e hábitos cotidianos dos segurados.

Um outro fator importante é a redução dos preços: seria possível desenvolver ofertas nas quais o contratante contrata o seguro de acordo com o que ele precisa: por dias, por meses, por viagem ou para uma determinada atividade.  Isso, por si só, já representa um marco no setor, pois a competição entre os players de mercado será levada para outro patamar em termos de disrupção.

O mercado tem trabalhado para se adequar a esta nova realidade por meio da eliminação de papel, desburocratização dos serviços, digitalização e a simplificação dos produtos. Com o Sandbox, este caminho tende a ficar mais interessante, já que muitas cabeças se voltam para os mesmos objetivos: fazer com que mais pessoas no mundo estejam protegidas.

*Rodrigo Ventura é fundador da 88i

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