Samaritanos ecológicos

Samaritanos ecológicos

José Renato Nalini*

13 de maio de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

A parábola do bom samaritano é uma lição de amor ao próximo. Aqueles que tinham discurso edificante não se comoveram com a desgraça alheia. De quem era menosprezado por mero preconceito, veio o gesto caridoso. O socorro ao flagelado, sem qualquer interesse ou intuito de obter retribuição.

Assim é também com a natureza, alvo da inclemência dos humanos, que não respeitam a fonte de vida ofertada gratuitamente e dizimada por ambição e por ignorância. Inacreditável que homens cuja duração terrena é de algumas décadas, não se envergonhem de destruir árvores milenares e de conspurcar água que está no planeta há milhares de anos.

É óbvio que uma civilização que se desumaniza a cada dia, com exemplos tenebrosos da “ala de cima”, segundo os critérios materiais, não transmite o devido respeito que a natureza merece, às gerações que serão as mais prejudicadas pela carnificina.

Contudo, alguns gestos escoteiros fazem a diferença e precisam ser disseminados para inspirar seguidores.

Duas reportagens do jornalista João Prata estimulam ações individuais para mostrar que ninguém é tão impotente que não possa fazer algo para salvar a Terra gravemente enferma.

A primeira é a de Hélio da Silva, que reside na zona leste da capital, a região menos favorecida pelo verde. Ele plantou 33.136 árvores, de 160 espécies, numa área de 3,8 quilômetros de extensão na região da Penha. Iniciou em 2003 e continua até hoje. Sozinho, criou o primeiro parque linear de São Paulo, uma cidade cruel, ecologicamente incorreta.

Já tive oportunidade de escrever que moro nos Jardins. Um jardim de concreto. Acordo nos fins de semana com o ruído irritante de motosserras que acabam com as velhas e frondosas árvores que faziam com que as ruas lembrassem as ogivas das catedrais. Copiosas, cobriam a extensão da via pública. Assim foi um dia a Consolação e, principalmente, a rua Atlântica. Hoje, restam pouquíssimos exemplares. O “progresso” deixa nuas as ruas paulistanas.

Como disse o urbanista José Bueno, “vivemos em uma cidade biofóbica. Acham que a raiz da árvore estraga a calçada, que as folhas entopem as calhas, que o rio inunda e traz mau cheiro”. Essa mentalidade tacanha e burra é nutrida por muita gente que se diz escolarizada. Uma erudição voltada ao consumismo, incapaz de enxergar na “mãe natureza” a genuína provedora de todos os bens da vida que permitem a continuidade da experiência vital sobre este pequeno e sofrido planeta.

Bueno e o geógrafo Luiz de Campos são os “descobridores de rios escondidos”. Conseguem localizar os inúmeros cursos d’água que a cidade sepultou, para servir ao automóvel. Uma São Paulo automobilística. Inimiga do verde, adversária da água, assassina da fauna.

Vejo com tristeza que as milhares de sementes de ipê, de jacarandá mimoso, de bauínia, se perdem nas vias públicas privilegiadas que ainda ostentam essas espécies, sem que haja um serviço de coleta para alimentar viveiros. Viveiros com mudas deveriam existir em profusão.

Fala-se hoje em “reduzir o desmatamento”, mal encerrado o abril em que ele quebrou novo recorde. Aliás, o Brasil está se especializando em vencer nos piores rankings. Logo ultrapassaremos os Estados Unidos no número de vítimas da Covid19, somos o “pária ambiental” reconhecido pela mais adiantada parcela do mundo, os campeões da exclusão, da falta de esgotamento doméstico, de saneamento básico, de mortes de jovens assassinados a esmo. Logo também seremos o país que mais fabrica e importa armamento de fogo. Para que a chacina continue.

Tudo está convergindo para mostrar que não assimilamos o constante recado da ciência. O aquecimento global não é ficção. Ele muda o clima, causa secas e vendavais, aumenta o nível do mar, engole parcelas ocupadas pela insensatez humana. Acarreta pestes e acaba atingindo mais plenamente a miséria e a pobreza.

O exemplo de Hélio precisaria ser seguido em todo o Brasil. Ele está satisfeito com sua gigantesca obra. Cuidou de trazer árvores nativas da Mata Atlântica. Bioma que cobria toda a nossa extensão territorial, antes que o ser dendroclasta fabricasse desertos. Ele diz que “o solo as reconheceu e tudo se transformou. É lúdico o negócio”. As árvores trouxeram pássaros. O índice de criminalidade reduziu. As pessoas começaram a praticar mais atividade física. É o milagre produzido pela vontade de um ser humano sensível.

Precisamos de mais Hélios, Josés e Luízes, para que o tenebroso aceno de “soltar a boiada” mereça a reação individual, quase anônima, porém decisiva, dos samaritanos ecológicos que, a despeito de tudo, se propõem a salvar o ambiente.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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