Salvemos a política

Salvemos a política

José Renato Nalini*

04 de novembro de 2020 | 09h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Quando jovem idealista, ingênuo e inexperiente, cheguei a acreditar que o Estado era um mal necessário, mas transitório. Crente na perfectibilidade humana, pensei que assistiria a uma gradual conversão da espécie racional que, num determinado momento, desnecessitaria de força e poder, mas se comportaria solidária e até fraternalmente com os semelhantes.

A experiência do convívio foi evidenciando caminho inverso. Muito discurso, muita teoria, muita promessa, mas uma prática miserável. A mínima partícula de autoridade escancara a fragilidade dos propósitos. O exercício do poder – qualquer espécie de poder – transfigura seu titular. Passa a depender dos áulicos, servilmente prontos a uma postura encomiástica. Abomina a crítica e não quer ouvir a verdade.

O pseudo-líder acredita que a corte continuará, mesmo quando desvestido da sacra aura com que fora ungido. Pior ainda, quando já não distingue entre o que é seu interesse personalíssimo e os interesses coletivos. Perde-se a noção de que o detentor de responsabilidades é um servidor do qual se exigirá sacrifício e empenho, esquecimento de sua vida pessoal e permanente devotamento à causa pública.

O resultado de uma arena político-partidária em que a multiplicidade de tendências difere pouco do núcleo programático, mas se aproxima na desenfreada busca de mais prestígio, mais fama, mais poder e mais dinheiro, é a descrença generalizada na democracia representativa.

Houve tempos em que a ideia de representação calava na consciência do representado. O representante era alguém que atenderia à vontade do eleitorado, honrando o mandato que o eleitor lhe conferia. Mas surgiu uma ideia que desnaturou essa concepção. O mandatário representaria um ser abstrato, intangível, emocional, conceituado como Nação. Ora, Nação é um universo complexo: a herança psicológico-afetiva dos antepassados, a preocupação com o porvir, pois ela também precisa pensar nos que ainda vão nascer. Já o povo eleitor é um mero flash dessa comunidade fluida, que é composta pelas três dimensões do tempo: passado, presente e futuro.

Ao se desligar da vontade do eleitor, o mandatário foi fragmentando a ideia de democracia representativa. Por isso a urgência de implementação de uma democracia participativa, promessa que o constituinte de 1988, se não assumiu explicitamente, ao menos acenou. É preciso mostrar que a política necessita do bom caráter, da probidade, do desapego ao cargo, função, pompas e circunstâncias. A juventude há de se dedicar à boa política, porque sem ela os maus continuarão a ocupar um espaço perigoso. O Estado muito faria se não atrapalhasse a cidadania, mas sua tendência é crescer ao infinito e exaurir os escassos recursos derivados da mais elevada tributação planetária.

O caminho é longo e árduo. Passa pela educação, tão desprestigiada e tão falida. Ainda fundada na falaciosa convicção de que alguém é provido da chave do conhecimento e que sua função é transmitir o acervo amealhado após décadas de estudo, a estudantes que são tábuas rasas, vazias, em branco, das quais ausente qualquer saber.

Os responsáveis pela educação não perceberam que a informação se disseminou de tal forma, que hoje existe uma “obesidade comunicacional”, no dizer de Paulo Nassar. Cumpre ao professor desbastar essa inflação de dados para fornecer ao alunado as diretrizes para converter informação em conhecimento. Os saberes que serão exigidos aos jovens brasileiros nas próximas décadas não são explorados na escola. Desconhece-se a realidade de que o Brasil dispõe de mais de 270 mobiles para uma população de 212 milhões de habitantes. Quem governa o mundo são as grandes empresas de tecnologia da comunicação e informação e elas é que “fazem a cabeça” da população.

Um bom começo é focar o professor, que não pode mais ser considerado integrante dessa “classe pobre e humilhada que, quanto mais velha, menos uso tem, caminha, se arrastando pelo mundo, como diria o filósofo Horkheimer, como uma espécie abandonada, à procura de alguns trocados ou restos das mesas dos ricos que os desprezam, apesar de dizerem o contrário. Quem gostaria de ver sua filha casada com um professor?”, na visão crua, mas verdadeira, de Luiz Felipe Pondé.

A lucidez brasileira deve se impregnar de uma consciência atilada, embora arrependida, por não encarar a educação como a única alternativa para transformar o Brasil. Sem educação não há alternativa. E ela é responsabilidade de todos. Pois educação é assunto muito sério e importante para se deixar, exclusivamente, nas mãos do governo.

Sem educação de qualidade continuaremos a engatinhar na mediocridade, em acelerado retrocesso, com a política partidária reservada aos toscos e mal intencionados, ressalvadas raríssimas, excepcionalíssimas exceções. Que se perdem no espetáculo de mau gosto, de ignorância e de simplória exibição daquilo que alguns chamam de “corte transversal da sociedade tupiniquim”.

Nossos netos e bisnetos merecem coisa melhor.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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