Salvar vidas e preservar empregos

Salvar vidas e preservar empregos

Sylvio Lazzarini*

05 de maio de 2020 | 15h20

Sylvio Lazzarini. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Uma investigação retrospectiva descobriu que o primeiro caso de covid-19 no Brasil ocorreu no dia 23 de janeiro, na “semana epidemiológica 4”, como relatou o ex-secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Wanderson de Oliveira. A primeira morte registrada parece ter sido no dia 17 de março, em São Paulo, um homem de 62 anos, que tinha diabete e hipertensão e sem histórico de viagem ao exterior. Apesar do alerta, em janeiro, o Carnaval rolou solto Brasil afora, com direito a bloquinhos, com alta concentração, mesmo após a Quarta-feira de Cinzas. A paralisação do comércio, em São Paulo, já havia começado antes mesmo do decreto do governador João Doria, em 24 de março.

Esses fatos coincidem com o ocorrido nos Estados Unidos, onde o primeiro caso foi identificado em 20 de janeiro (um homem que retornara de Wuhan, na China, para o condado de Snohomish, Washington). O primeiro relato de morte, como no Brasil,  também foi em 26 de fevereiro, em Seattle.

A evolução da doença nos EUA foi brutal. Até 2 de maio, registraram-se 1,1 milhão de casos e mais de 67 mil mortes. O indicador de óbitos por milhão de habitantes é bastante heterogêneo naquele país. Nota-se que os maiores registros estão em três Estados com elevada densidade demográfica: Nova York, New Jersey e Massachusetts. Enquanto o índice nacional foi de 202,6  mortes por milhão de habitantes até aquela data, em New Jersey foi de 871,6 e em Nova York, 972,2. A proximidade entre os dois Estados explica, em parte, porque países fronteiriços (como Bélgica, Espanha, Itália e  França), estão no topo do ranking mundial de mortes  por milhão de habitantes.

O Brasil ainda apresenta índices baixos em comparação aos países mais afetados, como mostra a tabela do Statista, um portal on-line alemão para estatísticas, que disponibiliza dados coletados de institutos de pesquisa de todo o mundo. Os últimos dados demonstram que a curva caminha para a estabilização, exceção feita aos Estados de Pernambuco, Ceará e Amazonas. Este último tem índice de 127 mortes por milhão de habitantes, mais que o dobro registrado no Estado de São Paulo.

Está claro que é preciso especial atenção à cidade de Manaus, onde a saúde pública está à beira do colapso. Não se compreende por que a arena que leva seu nome, construída para a Copa do Mundo de 2014, está vazia, amargando prejuízos há meses. O local deveria estar sendo usado para atendimento hospitalar de emergência.

Não se pode discutir a importância do isolamento social para o combate da pandemia. Isso foi muito bem focado no artigo do Professor de economia Sérgio Werlang, publicado recentemente, mostrando que “evidência e a teoria econômica ensinam que isolamento social forçado é a melhor política, tanto em termos de salvar vidas quanto em termos de PIB. Não há dicotomia”.

Está comprovado, igualmente, que países com alta densidade demográfica sofreram com a rápida expansão do coronavírus. Isso também se aplicou a Estados, cidades e regiões.

Disso tudo é forçoso concluir que promover o isolamento em comunidades e periferias pobres e populosas – como os bairros paulistanos do Jardim Ângela, Parelheiros e Cidade Tiradentes, assim como nas comunidades urbanas de Heliópolis e Paraisópolis – é muito complicado e penoso. Nesses locais, tem de haver uma atenção muito efetiva e permanente, com acompanhamento social pleno, visando à assistência médico-hospitalar às pessoas, incluindo ajuda financeira.

Conjuntamente às ações para o combate ao coronavírus, é preciso atentar ao plano econômico. A saída gradual do isolamento é essencial e não pode mais ser adiada.  Nesse sentido, não podemos concordar com a recente explanação do secretário especial do Ministério da Economia, Salim Mattar, que previu um aumento na taxa de desemprego de 50% a 100%, afirmando, ainda, que “nós só vamos saber disso nos meses de julho, agosto, para verificar qual o tamanho do estrago do coronavírus no Brasil”. Não dá para esperar. A situação é absolutamente inaceitável, porque os estragos serão enormes e de difícil reparação no futuro.

As medidas de saída do isolamento deverão estar fundamentadas nos princípios do controle da doença e liberação das atividades que possam oferecer segurança para os consumidores. Em outras palavras, os empresários, em cada setor, têm de assumir responsabilidades e devem aceitar protocolos sanitários para promover a reabertura de seus negócios, com termo de responsabilidade firmado com os órgãos públicos e vigilância sanitária.

Vivenciamos três grandes crises: na saúde, na economia e na política. Urge que lideranças políticas deixem de lado vaidades pessoais. Não é hora de interesses eleitorais prevalecerem. É hora de assumirmos compromissos para o combate à pandemia e com a recuperação da atividade econômica. É hora de salvar vidas e preservar empregos.

*Sylvio Lazzarini é empresário no setor de serviços

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