Saldo da Primeira República

Saldo da Primeira República

José Renato Nalini*

06 de junho de 2022 | 13h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Tenho fustigado a República, por ter iniciado tão mal aqui no Brasil. Mesquinha ingratidão feriu de morte um brasileiro estadista, admirado em todo o mundo, um coração magnânimo e patriota, algumas das características do Imperador Pedro I.

Todavia, já elogiei Rodrigues Alves, que considerei um dos grandes brasileiros. E sou levado a encontrar qualidades também no Conselheiro Afonso Pena. Os historiadores dizem que Deodoro traçou os lineamentos da organização do país sob o regime republicano e Floriano reprimiu a revolta, consequência do golpe. Mas exemplares foram as três presidências paulistas: Prudente pacificou a nação, Campos Sales restaurou as finanças e Rodrigues Alves saneou e embelezou o Rio, fomentou o comércio e a indústria, solucionando problemas graves da política externa, com a ajuda de Rio Branco.

Afonso Pena era colega de turma de Rodrigues Alves na São Francisco. Não era o favorito à sucessão, pois São Paulo preferia Bernardino de Campos. Mas acabou ocorrendo a eleição de Afonso Pena, que tomou posse em 15.11.1906.

Era experimentado na gestão da coisa pública. Colara grau em 1870, na turma de Ruy Barbosa e Rodrigues Alves, da qual saíra Joaquim Nabuco para a Faculdade do Recife e Castro Alves para a imortalidade. Era admirado pelo Imperador Pedro II. Já no exílio, dizia o injustiçado: “o Pena vai longe, porque alia extraordinária disposição para o trabalho à mais completa probidade”. Ao assumir, declara: “o regime federativo e presidencial é maquinismo delicado, que exige grande tato, experiência e habilidade para ser manejado convenientemente; e essas qualidades não se improvisam nos homens de governo”. O Brasil de 2022 que o diga!

Visionário, enxergava a ferrovia como o meio de transporte adequado para uma nação continental: “a grande artéria da nossa viação, a Estrada de Ferro Central do Brasil, está prestes a tocar as margens do majestoso rio São Francisco”. Pretendia ligar com urgência os estados do centro e do sul ao norte do Brasil. Também queria adotar a navegação de cabotagem e intensificar as obras contra as secas: “fenômeno natural, esse flagelo não pode ser eliminado pela mão do homem; mas seus funestos resultados podem ser combatidos e atenuados por bem combinadas medidas de previsão”. Medidas de previsão que não foram tomadas quando das inundações e deslizamentos causadores de tantas mortes neste 2022.

Afonso Pena ainda desconhecia, no início do século 20, que a seca e a desertificação resultavam de destruição da barreira natural da Mata Atlântica, inclementemente atacada desde o século XVI. Mas pretendia promover “a penetração de caminhos de ferro para os centros assolados, a construção de açudes e a abertura de poços”.

Já vislumbrava que a educação seria a chave para o real desenvolvimento brasileiro. Condenava “o emaranhado complexo de nossas leis e regulamentos”, dos quais era mister extrair “os princípios e normas mais adequadas ao progresso da instrução”. Pois “no meio de avisos, instruções e decisões desencontradas, difícil é saber o que está em vigor; e isto abre margem a abusos e concessões prejudiciais ao ensino e ao prestígio dos institutos que o distribuem para a mocidade estudiosa”.

Era homem simples e modesto e pugnava: “Não presumindo possuir o dom da inerrância, antes convencido da própria fragilidade, reconheço a necessidade de reunir todos os elementos possíveis para a boa gerência dos negócios públicos”. Dava o exemplo no Catete. Conferia autonomia a todos os seus auxiliares “e, se porventura se lhes dirigia, solicitando qualquer informação, recomendando qualquer providência ou manifestando qualquer desejo de ordem pessoal, fazia-o em expressões de cativante bondade, parecendo antes pedir do que ordenar”.

Como os bons modos já foram praxe no governo! Exerceu a presidência da República por dois anos, seis meses e vinte e nove dias. Nesse período, estabeleceu o serviço militar obrigatório, com o alistamento e sorteio determinados pela Lei 1860, de 4.1.1908. Criou-se escola de aprendiz de marinheiro e reorganizou-se a Escola Naval. Foram aprimorados todos os portos do país. Investiu na construção de ferrovias, criou o Ministério da Agricultura – Lei 1606, de 29.12.2906.

Era homem polido, cordial, sereno. Onde foram parar essas virtudes? Em maio de 1909, por ocasião do aniversário do marechal Hermes da Fonseca, fazem-lhe festa os áulicos e é lançado à presidência. Em 15 de maio, Hermes renuncia ao ministério e se dispõe a se candidatar. Afonso Pena é peremptório: “jamais negara aos militares o direito de exercer cargos políticos; negava-lhes, sim, o direito de apoiar-se na força para atingir esses cargos ou impor candidatos”.

A 28 de maio de 1909, caiu de cama e não mais se levantou. Perdera o filho Álvaro, falecido moço. Isso o abateu demais. A 14.06.1909, às duas e meia da tarde, faleceu serenamente. Proferiu suas palavras derradeiras: “Deus, Pátria, Liberdade, Família”. Para Rui Barbosa, foi essa “quádrupla síntese de sua vida austera e pura”. Encerrava-se “o testamento de uma nobre alma e a lição de um honrado exemplo”. Um saldo e tanto da Primeira República.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-202

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