Sair do atraso

Sair do atraso

José Renato Nalini*

05 de março de 2022 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

A educação brasileira patina. A pública, onde está a maior parte da população, sofre evidente impacto da política. O governante, em qualquer nível, quer que ela seja índice favorável à sua eleição ou servir para alimento da matriz da pestilência chamada reeleição.

Por isso insiste na transmissão de informações e no adestramento do educando para que as mantenha na memória. As avaliações são testes mnemônicos. Cumpre conferir a resposta com aquilo que foi ensinado, sob pena de se reprovar o aluno. Este não é incentivado a pensar, muito menos a criticar. Se alguém sai do círculo da “normalidade” é convidado a deixar a carteira escolar para outrem mais afeiçoado às regras vigentes.

As avaliações servem para a elaboração do ranking que será explorado na divulgação da “educação de qualidade”. Um horizonte limitado, premido pela perspectiva eleitoral.

A iniciativa privada oferece cardápio mais variado. Há nichos de excelência. Oferece-se ensino bilingue. Estágios no exterior. A um custo, para o Brasil, exorbitante. O que aprofunda o fosso, quase inexpugnável, entre os incluídos e os excluídos.

Como a educação é direito de todos e dever da família e do Estado, com a colaboração da sociedade, seria necessária a coordenação de grupos familiares e do Terceiro Setor para exigir uma revolução no ensino/aprendizado. Algo mais do que urgente. O Brasil não tem merecido a confiança externa para receber investimentos. Sua política errática e a destruição do meio ambiente afugentam o capital internacional.

O mundo web veio para ficar e não está sendo suficientemente utilizado para mudar a situação deteriorada. O universo de dados disponível é um capital que potencializaria o conhecimento, fosse bem utilizado. Para isso, é preciso uma elite de professores que abandone as apostilas e aprenda a ser um indutor da curiosidade, um solucionador de questões, um orientador para as pesquisas que o próprio educando poderá fazer, se a tanto incentivado.

Com a biodiversidade gratuita da natureza tupiniquim, o estudo da biologia, da biotecnologia, da química e da física são primordiais, assim como o domínio da inteligência artificial, dos algoritmos, para que os millenials possam criar startups e resolver infinitos problemas com os quais as sociedades periféricas ainda se defrontam.

O governo, fora inteligente – o que tem provado que não é – estimularia a educação corporativa em todos os níveis. O empresariado já verificou que a indigente educação convencional está longe de fornecer os quadros humanos essenciais à continuidade de sua produção e aptos à criatividade e empreendedorismo obrigatórios neste século 21.

A educação corporativa nada custa para o Estado brasileiro, perdulário e desperdiçador de finitos recursos. Mas, além de não ser incentivada pelo poder público, ainda padece de falta de regulamentação. Há inúmeros cursos de profissionalização, requalificação profissional, aprimoramento em diversas áreas, especialização, extensão, pós-graduação, mas o Estado brasileiro sequer fornece autorização para que essas iniciativas sejam implementadas.

Isso inibe a formação de capital humano robusto. Não é de hoje que os cérebros brasileiros são recrutados pelas Universidades e empresas estrangeiras. Agora mesmo, com o boom americano, incentivado pelo grande projeto de infraestrutura impulsionado por Joe Biden, há milhares de brasileiros em busca de oportunidades de trabalho na terra de Tio Sam.

A América Latina como um todo e o Brasil em posição mais infeliz do que outros países, está atrasada em educação e capital humano. Educação, ciência e tecnologia têm sido boicotadas sistematicamente. Todos os setores que poderiam potencialmente alavancar a combalida economia nacional precisam de novos quadros, de ousadia, criatividade e empreendedorismo. Mas a inércia, a apatia, a desestruturação dos organismos e a falta de projetos condena o Brasil a permanecer na posição subalterna de exportador de comodities. Assim como era no século XVI e continua a ser no século XXI, após evidente retrocesso nestes últimos anos.

Se o governo não tem visão para isso, há um espaço propício à atuação da Universidade, do empresariado, do Terceiro Setor, das instituições e até de pessoas físicas vitoriosas e inconformadas com a situação sofrível do sistema educacional de nossa Pátria.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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