Sacrifícios

Sacrifícios

Carlos Antonio da Silva*

02 de abril de 2021 | 07h30

Carlos Antonio da Silva. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

A pandemia trazida pelo novo coronavírus (Covid-19) faz vítimas inocentes mundo afora. Você não precisa ser pecador inveterado nem um reacionário incorrigível para ser infectado e padecer numa UTI lotada. Ele não é a praga que veio exterminar a humanidade; veio para ferir, maltratar e constranger. O vírus parece escolher as boas e inocentes almas, carregando-as mais cedo para perto do Criador. Pois bem. Você não contraiu a doença, não tosse ou tem febre. Você respira, não tem câncer nem sofreu um AVC fatal. É um privilegiado e tem sorte, dirão os otimistas. Trágico mesmo, doído de verdade, é contrair a Covid-19, maldosa porque mata asfixiado, exaurindo o oxigênio lentamente, o que é de uma crueldade sem fim.

Mas a coisa não funciona com essa simplicidade. Nós, brasileiros, temos os políticos que não querem nos salvar. Querem salvar a economia, a pátria, seus empregos, o Congresso nacional e, ao que parece, pretendem salvar também a própria prole, ou melhor, a própria pele. Há uma compra de milhões em respiradores que salvam vidas e o que acontece? Os valores vêm superfaturados. Ou compramos respiradores em Marte? Pessoas agonizam em macas nos corredores dos hospitais, médicos e enfermeiros se desesperam porque, afinal, juraram sacrifícios para salvar vidas. O Brasil, no entanto, não dá a mínima para juramentos e, menos ainda, para sacrifícios. Não é fato que todos morreremos um dia? Por que o desespero, se o destino, ou o desígnio divino, resolveu antecipar em alguns anos a viagem que nos levará a outra dimensão?

A pandemia veio nos mostrar a exata noção de realidade. Não somente a realidade das ruas, das favelas, dos guetos onde pobres e excluídos se sentem, no fragor da crise, ainda mais excluídos, mas também a verdade que alcança ricos e milionários, o que transforma o corona num vírus essencialmente democrático. Não fosse assim, por que levaria para a UTI e depois para o Éden pessoas de todas as classes sociais – das escaldantes areias saarianas às geleiras da Patagônia? Ora, o Brasil não é a democracia perfeita, e tem muito a aprender com o vírus maldito. Felizmente, não temos a primazia de ser o primeiro nem o único país a sofrer as consequências dessa doença mortal. Não mesmo.

Contudo, temos a primazia dos inconsequentes.

De quem rouba descaradamente dinheiro público que salvaria vidas. De quem ignora, de forma leviana, orientações dos organismos de saúde pública, de quem tenta desacreditar médicos e cientistas. A inconsequência dos que se acham deuses e debocham do sofrimento alheio. Dos que ostentam carrões, dançam funk em festas clandestinas e riem dos que morrem na aldeia pataxó. Temos a inconsequência dos irresponsáveis e, pior, a irrelevância de menosprezar a dor das famílias, dos amigos, das viúvas e viúvos, dos órfãos inesperados, dos pais abruptamente despojados de seus filhos. Este é o país que construímos atabalhoadamente e que, salvo melhor juízo, pretendemos chamar – num futuro tão distante quanto imensurável – de nação.

Não honramos o sacrifício de outrem, mas nossa própria conduta desnuda o sacrifício que deveria corroer nossas entranhas e, no entanto, escoa de nós inútil e ileso. Não padecemos de aflições ou dores em nosso subconsciente, temos o dom da insensibilidade humana, racional e crítica.

Assim é a nossa gente, e achamos tudo normal.

O brasileiro não conseguiu renunciar aos seus festejos mais amados. Fizemos o carnaval, em 2020, para deleite dos políticos e a enxurrada de dólares entrando no butim. Isso turbinou o avanço do vírus. Fomos alegres e felizes aos milhões, entupindo ruas e praças com nossa música popularesca – que impõe o remelexo dos quadris e a embriaguez da alma. A embriaguez do cabresto. Agora, ignoramos princípios fundamentais que atenuam a disseminação do vírus. Usar máscara, para nós, é quase um chamado para pegar uma arma e assaltar o banco da esquina. Temos vocação para o errado, o ilícito, o irresponsável, o desleal, o aviltante, o crime. Nada adianta um honesto, um virtuoso, um brasileiro digno, se políticos e gestores, em todos os níveis e antros, destroem, num pontapé de mau-caratismo cívico, tudo o que pensamos para um Brasil grande e majestoso.

Você não contraiu a doença, não tosse ou tem febre.

Os otimistas dirão, com alguma razão, que é um privilegiado.

O Brasil acabou com a saúva e, assim, não foi destruído pela formiga, como dizia o adágio popular. E uma reflexão se faz absolutamente oportuna neste momento triste da história brasileira: até quando permitiremos que a chaga da maldade e da incompetência destrua o que, a duras penas e com o sacrifício de tantas e valiosas vidas, conseguimos salvar das saúvas?

*Carlos Antonio da Silva, advogado constitucionalista e criminalista

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.