Saber morrer

Saber morrer

José Renato Nalini*

10 de maio de 2021 | 13h40

José Renato Nalini. FOTO: DANIELA RAMIRO/ESTADÃO

Move-me a certeza de que a maior parte dos quase meio milhão de brasileiros que perderam a vida em virtude da Covid19 não queria morrer. A regra é ignorar a morte e rechaçá-la quando ela quer se aproximar. Morre-se, em regra, contra a vontade.

A exceção é o suicídio, que considero um mistério. A filosofia oscila entre negar o direito ao suicídio e a reconhecer-lhe legitimidade. A chamada “ideologia alemã”, de que são representantes Kant, Fichte e Hegel, dentre outros, não aceita o suicídio. São argumentos morais, alguns com alicerce religioso. O ser humano tem deveres e não é válido acatar que ele tenha o direito de se livrar de todas as obrigações. Aniquilar sua própria pessoa é eliminar o sujeito da moralidade. É uma forma de acabar com a moralidade do mundo.

Ninguém tem o direito de, a si mesmo, a encerrar – voluntariamente – o seu ciclo vital. Já Nietzsche admite a possibilidade do suicídio: “morrer altivamente quando não é mais possível viver com altivez. A morte escolhida com liberdade, a morte no momento desejado, lúcida e alegre, realizada junto a seus filhos e testemunhas, de maneira que as despedidas verdadeiras sejam possíveis, pois aquele que se despede ainda está presente e é capaz de pesar o que quis e o que conquistou, em suma, de fazer o balanço de sua vida”.

Marcel Conche, filósofo francês hoje com 99 anos, fala em três espécies de suicídio: o acidental, o por dever e o por sabedoria. Ocorre suicídio acidental, quando o suicida é levado a ele diante de contingências. Os suicídios infantis e quase todos os da juventude, podem ser considerados acidentais. O suicídio “por dever” ocorre quando a causa é um dever moral, ou religioso, ou cívico, patriótico, etc. O exemplo histórico é o suicídio de Lucrécia, que resguardou o seu pudor. Santas Pelágia e Sofrônia preferiram a morte à desonra. Seriam um exemplo de suicídio legítimo.

Já o suicídio por sabedoria, ou por sensatez ou também chamado filosófico, é aquele inspirado pela concepção geral que se tem do mundo e da existência. O estoico atormentado por mal incurável, ou dor insuportável, enxerga em tais sinais uma autorização para abandonar a vida.

Essa forma, também como as demais, é combatida filosoficamente. Pois não seria a dor a oportunidade de renovar as energias, de dominar o sofrimento e demonstrar que a razão é superior às vicissitudes? O epicurismo também reage com alegria às angústias. É o momento de se nutrir com as lembranças dos momentos felizes.

Para o crente, se depois desta existe uma outra vida, não se justifica a ideia de suicídio. A vida é um transcorrer muito rápido. O que são os melhores momentos, senão imagens difusas que vão se apagando da memória e tendem a desaparecer?

A memória social é preservada pela história. Mas esta é bastante relativa. Depende de quem a narre. Pode privilegiar alguns personagens, alguns episódios, mas deixar fugir da lembrança a maioria das vidas. Sobretudo, nada tem duração infinita. Natureza e esquecimento sempre dizem a última palavra.

Se sabemos que a morte é inevitável e adoramos a vida, estamos – na verdade – rendendo culto a uma vida mortal. A morte se integra à vida. Para Conche, a morte não deve vir na hora dela, mas na nossa. O que significa “não deve vir na hora dela”? É a necessidade de se observar os conselhos da prudência. Não se arriscar inutilmente. Doenças originadas pelas opões erradas. O homem que adota hábitos contrários à sua vida é um ignorante ou um decadente. Ou ignora os males, ou os despreza e prefere brincar com a morte.

E o que dizer sobre a morte vir “na nossa hora”? É recordar que, de ordinário, há três fases na vida: o crescimento, o apogeu e o declínio. Todos os momentos da vida nos permitem fazer um balanço. É positivo quando se está feliz em viver. É negativo, quando só encontramos razão para nos lastimar.

Aprender a morrer, já diziam os filósofos, é filosofar. A educação deveria familiarizar as pessoas em relação à morte. Se a religião efetivamente impregnasse a consciência, não haveria tanto desespero quando se perde uma pessoa querida.

Tempos macabros como os que o mundo está a vivenciar nestes dois últimos anos, põem na primeira linha das reflexões – ou, pelo menos, deveria colocar – a questão do encontro inevitável com a morte.

Ela virá. Pela pandemia ou por outras causas. E dela ninguém consegue escapar. Não é melhor aprender a conviver com essa ideia e deixar o acessório, o supérfluo, o artificial, para aqueles que não têm noção das coisas, ou seja, os irracionais?

O humano tem a obrigação de estar preparado para a morte. Até para que sua vida tenha mais sentido. Tudo pode ser melhor nesta etapa, se soubermos que amanhã já não estaremos aqui. E isso é certo: não estaremos. Conte com isso!

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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