Sabemos demais sabendo de menos

Sabemos demais sabendo de menos

Edmar Araujo*

30 de outubro de 2020 | 05h00

Edmar Araujo. FOTO: DIVULGAÇÃO

Qual é a primeira coisa que você faz quando acorda?

Sim, você confere o celular: mensagens, redes sociais, notícias, vídeos, stories entre outras coisas. Impactado pelas informações e um tanto quanto atrasado pelo tempo desperdiçado ainda na cama com a primeira conferida no smartphone, talvez você vá tomar banho preocupado em responder ao seu chefe sobre a pauta da reunião de logo mais. O café da manhã fica dividido entre comer e atualizar-se do feed perdido durante o sono.

A ida ao trabalho ou a qualquer compromisso nas primeiras horas do dia é quase sempre uma trilha quixotesca nas avenidas das metrópoles brasileiras, mas os serviços de monitoramento do trânsito dão a saber quando se chega onde se quer chegar, então neste meio tempo o melhor é se entreter com a internet.

Você chega ao trabalho e já há inúmeras mensagens não respondidas sobre a tarefa de ontem e a de hoje, sobre o chefe querer aquela reunião, sobre o colega atrasado e sobre o outro que vai sair mais cedo. Se não viu, preste atenção no grupo.

Hora de malhar?

Não esqueça de fazer check-in, de fotografar momentos do seu treino e de postar usando as hashes do momento. No pain, no gain!

As refeições também têm momentos de estrelato: foto do prato, foto do copo, foto da companhia, foto da garrafa, foto de qualquer coisa que informe que está tudo bem, comendo em um lugar (nem sempre) super bacana que os filtros da câmera podem potencializar a impressão de quem tenta imaginar a sua experiência.

Adoeceu? Informe urgentemente nas suas redes sociais o que houve, os sintomas e que medicamentos está tomando.

Teve que ir ao Hospital? Não esqueça de postar imagem da fachada do hospital, o acesso venoso periférico e o saco de soro que hidrata o corpo durante sua navegação.

Vale lembrar as memórias baladeiras: fotografe hoje, poste amanhã e informe nas legendas que se trata de ontem.

Eu acredito que pelo menos uma das situações descritas acima já tenha sido vivenciada por quem lê este texto agora. A internet nos tornou consumidores ávidos e produtores em larga escala de dados.

Compartilhamos praticamente tudo e muitas vezes sequer temos consciência de que fazemos isso. O Google, por exemplo, tem um relatório com todos os lugares que visitamos. Somos nós quem produzimos estes dados e os entregamos, talvez incautamente, a empresas que deles extrairão informações importantes para outros públicos. Duvida? Acesse https://www.google.com/maps/timeline

Isso tem feito muitos desenvolverem verdadeiros transtornos obsessivos por informação, ao que o psicólogo britânico David Lewis chamou de Infoxication. Outros muitos ficam fóbicos só de pensar na possibilidade de ficar sem o celular, o tablet ou qualquer outro dispositivo. Essa doença já tem nome: Nomofobia.

A quantidade incontável de informações ao dispor não tem nos ajudado a escolher a melhor notícia, mas sim optar por aquela que mais rápido chega.

Todos nós temos respostas mais na ponta dos dedos do que na ponta da língua, e o fast thinking apontado por Pierre Bourdieau pode ter nos deixado preguiçosos demais para caminhar em busca de aprender a calcular o simples da vida. O saber ganhou um significado mais industrial, economizando tempo e otimizando a produtividade. Ao mesmo tempo, obtemos conclusões sem entender como construí-las.

Sabemos demais sabendo de menos. Até onde isso é bom?

*Edmar Araujo, presidente executivo da Associação das Autoridades de Registro do Brasil (AARB). MBA em Transformação Digital e Futuro dos Negócios, jornalista, especialista em Leitura e Produção de Textos. Membro titular do Comitê Gestor da ICP-Brasil

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