Ruy Ohtake (1938-2021)

Ruy Ohtake (1938-2021)

José Renato Nalini*

28 de novembro de 2021 | 12h00

Ruy Ohtake. FOTO: EPITÁCIO PESSOA/ESTADÃO

O mundo inteiro, que já reverenciava suas obras, lamentará a morte de Ruy Ohtake. Um artista visionário, que se destacou como produtor de obras singulares, com presença marcante na arrojada criatividade.

Sobre os inúmeros ângulos propiciadores de análise de sua arquitetura dissertarão os experts. Minha tristeza provém de um contato fraterno muito recente. Quando faleceu Benedito Lima Toledo, historiador e também arquiteto, a Academia Paulista de Letras pensou em alguém à altura para sucedê-lo. Imediatamente a simpatia dos acadêmicos recaiu sobre a figura excelsa de Ruy Ohtake.

Consultado, mostrou-se entusiasta da ideia e submeteu-se ao ritual da auto-apresentação a todos os trinta e nove eleitores. Assim que eleito, participou de todas as sessões da Academia, agora virtuais, em razão da pandemia.

Era um dos primeiros a ingressar na reunião digital, interessado pelas mensagens semanais e pronto a colaborar com as iniciativas dessa Casa de Cultura por excelência de São Paulo, que desde 1909 funciona de forma ininterrupta.

Propôs-me realizar um substancioso estudo sobre o Rio Tietê, a cujas vicissitudes se devotava desde os bancos escolares. Afinal, foi o idealizador do Parque Ecológico, sinal de que nem tudo estava perdido para o grande curso d’água que convenceu os jesuítas a escolherem o planalto para a edificação de seu colégio.

Sabia detalhes sobre a origem do Tietê, em Salesópolis, conhecia cada ponto nevrálgico, tinha todas as propostas já bem sedimentadas. Eu ficaria com a parte jurídica e ele com o mais importante: como resgatar a vida, para que o Tietê voltasse a exercer o papel correspondente ao Sena, em Paris, o Tâmisa em Londres, o Tibre em Roma, o Danúbio em Copenhague

Todas as semanas comentava o andamento de seu trabalho e o projeto era terminá-lo ainda em 2021. Ambientalista devotado, não se conformava com o tratamento que a natureza brasileira está a receber das altas esferas. Sereno e ponderado, ao mencionar a tragédia do Tietê e de outros leitos fluviais desta insensatez chamada São Paulo, chegava a exaltar-se e evidenciava sua indignação.

Incrível como um homem com a estatura de Ruy Ohtake, de prestígio internacional, participava das discussões às quintas-feiras com humilde simpatia. Interessava-se por outros temas, aplaudia ideias que talvez não estivessem contempladas em seus amplos horizontes, foi um acadêmico fervoroso. O que não é a regra. Muitos são os que pleiteiam o beneplácito dos responsáveis por prover a Casa do Arouche de integrantes que completassem o cenário de quarenta Cadeiras e depois se desinteressam.

Ruy Ohtake envolveu-se nos destinos da Academia Paulista de Letras. Contribuiu com ideias geniais, como todas aquelas que provieram de sua esplendorosa inteligência. Levou a sério a condição de cultor da última flor do Lácio, participou de todas as eleições subsequentes à sua. Queria conhecer currículo, indagava a respeito de outras peculiaridades, fez por merecer a brevíssima permanência no Silogeu bandeirante.

Era saborosa a sua fala sobre uma arquitetura para as pessoas, da qual é emblemática a solução encontrada para Heliópolis. Repetia que não há arquitetura para rico ou para pobre. O que existe e deve continuar a existir, é arquitetura boa.

A Academia Paulista de Letras que estava em vias de se completar, com a eleição de mais um membro para suceder a Célio Debes, quando se vê novamente desfalcada, agora com a dolorosa partida de Ruy Ohtake. Cumpriu, rigorosamente, os seus deveres acadêmicos. Votou para uma eleição em curso, cujo resultado se proclamará no dia 9 de dezembro. Uma semana depois da sessão das saudades dedicada à memória de Ruy Ohtake.

Memória que permanecerá ad infinitum, pois essa a vocação das Academias. A imortalidade consiste em reverenciar os antecessores. Esse o dever de quem adentra à Casa de Letras do Largo do Arouche. Ninguém se esquecerá de Ruy Ohtake, um dos nossos mais gentis, polidos, cavalheirescos e amáveis dos que já passaram por aqui. Quanto à dimensão de seus incontáveis méritos, a História fará justiça a esse notável primogênito de Tomie.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Tudo o que sabemos sobre:

José Renato NaliniArtigoRuy Ohtake

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.