Rumo à mobilidade limpa

Rumo à mobilidade limpa

Masahiro Inoue*

17 de agosto de 2021 | 03h30

Masahiro Inoue. FOTO: DIVULGAÇÃO

O setor automotivo faz parte de uma revolução tecnológica que deve responder às diversas necessidades de mobilidade das pessoas de forma prática e sustentável. De modo geral, temos observado uma pauta global que retoma as preocupações climáticas, com compromissos rumo à redução e, até mesmo, neutralidade das emissões de carbono em diversos segmentos produtivos nas próximas décadas – a própria pandemia tem sido um processo de aprendizado e reforço da influência de questões climáticas e ambientais nas sociedades e economias.

É nosso dever apoiar e intensificar a transição energética no que diz respeito às soluções de mobilidade mais sustentáveis, e a eletrificação é um dos nossos caminhos rumo à neutralidade do carbono. Mas, para construirmos uma sociedade em harmonia com a natureza, devemos considerar toda cadeia produtiva e ciclo de vida dos produtos, desde suprimentos, fabricação, transporte, uso e descarte/reciclagem adequados. Além disso, é uma questão que envolve não apenas veículos novos, mas toda a frota já existente em circulação.

Atualmente, temos visto um diálogo predominado pelo tema do veículo elétrico como principal ou até única possibilidade para eletrificação e neutralidade do carbono. Além de questões de custo de baterias e até mesmo cadeia de suprimentos, a própria intenção de chegarmos ao carbono neutro pode ser comprometida se considerarmos um mercado, por exemplo, sem fontes limpas e renováveis para a produção desses veículos e até o recarregamento das baterias. Esse é o caso do Japão, onde mais de 75% da eletricidade é proveniente de usinas térmicas; apenas o restante advém de outras fontes, como a nuclear.

Por isso, acredito que os setores industriais e os governos de cada país precisam planejar a transição para a eletrificação de forma gradual, beneficiando e incentivando todas as tecnologias, sejam elas híbridas (combinação de motor elétrico e combustão), híbridas plug-in, elétricas ou a célula de hidrogênio. Todas elas, incluindo a combinação entre as diferentes tecnologias, são necessárias para chegarmos à neutralidade do carbono, respeitando a particularidade de cada país e a voz dos clientes.

Apesar de muitas empresas, de diferentes setores, estarem comprometidas com a redução e mesmo emissão zero de carbono, observamos que ainda é necessário um esforço mais coletivo para essa agenda avançar. O último encontro do G7, na Cornualha, por exemplo, foi importante para avançarmos nas discussões, mas ainda precisamos de metas mais claras para a redução da emissão de poluentes na maioria dos mercados.

Na região da América Latina e Caribe, para que a presença dos veículos eletrificados seja ampliada, é necessária maior previsibilidade fiscal e tributária, além de novos investimentos tanto privados quanto públicos em políticas industriais e energéticas específicas para cada país. O Brasil, por exemplo, em termos de veículos em circulação, é o oitavo maior mercado do mundo. Falar apenas de automóvel elétrico num país de dimensões continentais e com importantes desafios econômicos e sociais é não levar em conta um investimento em infraestrutura que seria inviável neste momento.

No mercado brasileiro, além do privilégio de termos uma matriz predominantemente limpa e renovável, temos de considerar a potência do etanol como combustível sustentável e que incentiva toda uma cadeia agrícola e produtiva local. Por isso, acredito na tecnologia híbrida flex, a única capaz de combinar a alta eficiência e os baixíssimos níveis de emissões do motor elétrico com a capacidade de reabsorção dos impactos de gás carbono ao utilizar combustível oriundo de fonte 100% renovável, que é o etanol.

Acredito que o compromisso com a descarbonização das soluções de mobilidade passa por múltiplas tecnologias, que devem ser adequadas e ofertadas a cada mercado de forma prática e sustentável. E, mais do que isso, é preciso estar comprometido a manter um diálogo aberto com todos os públicos, buscando parcerias e incentivando políticas industriais e energéticas em prol de uma sociedade carbono neutro, melhor para todas as pessoas e em harmonia com o meio ambiente.

*Masahiro Inoue, CEO da Toyota para América Latina e Caribe

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