Ruína moral

Ruína moral

Angel Machado*

11 de janeiro de 2021 | 03h00

Angel Machado. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Era uma vez na América a invasão ao Capitólio pelos apoiadores de Trump. O surrealismo das imagens esteve em direto para o mundo e a casa da democracia pareceu frágil no confronto com a barbárie. Este episódio triste nos EUA mostrou a verdadeira face da extrema-direita enquanto poder.

A incapacidade de gerir a realidade tem feito dos presidentes dos EUA (Donald) e do Brasil (Jair) um perigo eminente para democracia. Por vezes a História é banalizada, e o que se passou em Washington para a sociedade imediatista e alienada, pode não ter consequências, mas, é a fuga dos princípios morais e de todas as lutas que nos precederam pelos direitos e cidadania.

FOTO: LEAH MILLIS/REUTERS

Vive-se o paradoxo do auge da insatisfação e, simultaneamente, na aura do conformismo – sem indícios de mudança, e cientes das bravatas de uma pessoa sem motivação para governar o nosso país -, mas isso não nos redime da injusta posição de perplexidade e vazio moral.

Não é possível entender o comportamento de um chefe de Estado que ignora a pandemia, se alheia das causas sociais, ambientais, sanitárias e desrespeita a Constituição. Seus apoiadores fazem campanha antivacina, desmerecem a ciência, os códigos da sociabilidade e da razão. Eles sabem que estão a propagar a irresponsabilidade, mas, para a falta de consciência coletiva, infelizmente, não há vacina.

Alguém precisa de avisar o presidente que os brasileiros não são masoquistas, não querem morrer; e que os lamentos tardios sem arroubo moral são o pior dos exercícios. O que se sabe é que o fanatismo dos que acreditam no “mito” vivem numa realidade paralela que se desacredita a si mesma. Em larga escala o país está fadado à distração, às notas de repúdio e à propagação descontrolada do vírus. Lima Barreto dizia que “o Brasil não tem povo, tem público” – essa verdade não provocará dor enquanto o povo estiver na plateia a aplaudir atores perversos.

O presidente Jair Bolsonaro deu-nos razão, na realidade o Brasil está sem planejamento, gestão e sem competência para garantir o que a nação reivindica. Jair Bolsonaro além de ser um mau presidente é, também, uma voz sem alma que induz os seus apoiadores a reproduzirem o seu discurso negacionista – todos eles com pouca perspectiva de futuro. Assim, 2021 será, provavelmente, mais um ano de empobrecimento das nossas vidas.

Sem túnel e luz, apenas, com a descrença em pano de fundo, a paralisação conjunta dos movimentos que na sua maioria reivindicavam a mudança política e social parece distante. Essa inércia pode significar que os brasileiros que no passado lutaram contra a corrupção, parecem, agora, conformados ou cansados. Deve-se reivindicar o melhor da nossa História: Ordem e Progresso. Em 2022 espera-se que o Palácio do Planalto não se transforme no Capitólio de Brasília.

*Angel Machado é jornalista e escritora

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