Ronan nega a Moro chantagem contra o PT

Ronan nega a Moro chantagem contra o PT

Empresário do ABC paulista, réu da Lava Jato, depõe na Justiça Federal e afirma que não ameaçou partido no episódio do prefeito Celso Daniel, de Santo André, eliminado a bala em 2002

Mateus Coutinho e Ricardo Brandt

19 de setembro de 2016 | 19h54

Em depoimento de mais de 1h40 ao juiz Sérgio Moro nesta segunda-feira, 19, o empresário de Santo André Ronan Maria Pinto negou qualquer relação com o PT e com o publicitário e operador do mensalão Marcos Valério. Ele também negou que os R$ 6 milhões que recebeu da Remar tinham relação com um empréstimo do Banco Schahin ao PT via pecuarista José Carlos Bumlai.

Na versão do empresário, que é dono de empresa de ônibus que foi utilizada na operação, o valor que ele recebeu da Remar foi graças a um empréstimo firmado com a empresa que teria sido indicada pelo jornalista Breno Altman. O jornalista nega tal indicação, o dono da Via Investe, que realizou o empréstimo via Remar, afirma nunca te-lo conhecido e o empresário Enivaldo Quadrado, que teria participado da operação declarou não saber de nenhum envolvimento de Altman com o episódio.

Questionado por Moro sobre o motivo de não ter procurado um banco para fazer a operação, o executivo disse que estava com seu nome ‘muito exposto’ por causa do escândalo do assassinato do prefeito de Santo André Celso Daniel (PT), em 2002.

“Em função de várias dificuldades (de suas empresas) eu procurei um banco que me fizesse esse empréstimo aí, mas eu estava com dificuldade nos bancos em função já de um problema de exposição política em função dos fatos ocorridos em 2002 na cidade que decorreu do assassinato lá do prefeito (Celso Daniel)”.

Ronan foi condenado no ano passado por supostamente participar de um esquema de corrupção na prefeitura no período em que Celso Daniel era prefeito.

Segundo Ronan, o valor do empréstimo foi sendo quitado com pagamentos em dinheiro em espécie por ser, na versão dele, uma prática comum das empresas de ônibus. Ainda assim, o executivo admite que só pagou algumas parcelas e que ainda deve à Remar.

Questionado se essa operação de empréstimo tinha relação com o empréstimo de R$ 12 milhões do Banco Schahin ao pecuarista José Carlos Bumlai em nome do PT, Ronan foi categórico ao dizer que não. “Não conversei com ninguém do Partido dos Trabalhadores sobre esse empréstimo (com a Remar)”, disse ele, afirmando que só tomou conhecimento do empréstimo do Banco Schahin pela imprensa.

Para a Lava Jato, porém, a operação financeira envolvendo o empresário de Santo André foi parte de uma triangulação para lavar o dinheiro que teria sido obtido pelo partido junto ao Banco Schahin.

Segundo os investigadores da força-tarefa, os R$ 6 milhões fazem parte dos R$ 12 milhões obtidos para o PT por meio do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente Lula, e foram encaminhados para Ronan, que teria utilizado parte do recurso para adquirir o jornal Diário do Grande ABC – que, na época, estava fazendo várias reportagens sobre a morte de Celso Daniel, um episódio emblemático do PT, e o envolvimento de Ronan no esquema de corrupção no município.

O próprio Bumlai, utilizando contas bancárias cedidas pelo dono do frigorífico Bertin, admitiu ter repassado R$ 6 milhões para a Remar, que posteriormente fez o empréstimo de valor semelhante para Ronan, em 2004.

“Em conclusão, há provas materiais que o valor de R$ 5.673.569,21 do total de R$ 12 milhões ‘emprestados’ pelo Banco Schahin ao Partido dos Trabalhadores chegou até Ronan Maria Pinto, sendo que, deste valor, ao menos R$ 1.470.000,0021 foram utilizados diretamente para aquisição do Diário do Grande ABC”, afirma a denúncia da Lava Jato. 

Ao juiz Sérgio Moro, o jornalista Breno Altman, que também é réu nesta ação, negou que tenha indicado Ronan para o empresário que acabou concedendo o empréstimo a Ronan. O próprio empresário e Enivaldo Quadrado, que teria participado da operação, negam terem conhecido Breno Altman antes da Lava Jato.

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