Romero Brito e a velha imagem do brasileiro no exterior

Romero Brito e a velha imagem do brasileiro no exterior

Rodrigo Lins*

26 de agosto de 2020 | 03h00

Rodrigo Lins. Foto: Divulgação

O recente episódio envolvendo o artista plástico Romero Brito em sua loja em Miami-FL trouxe à tona um viés social que vai além da polêmica: o declínio da imagem pedante e retrógrada, em geral preponderante, de brasileiros residentes no exterior, sobretudo nos Estados Unidos. Enquanto o fato ganha o noticiário americano com o depoimento acalorado da empresária venezuelana envolvida no caso, a representatividade de Brito junto à nossa comunidade parece esvaecer – o artista, durante as duas últimas décadas pelo menos, se firmou como uma espécie de ícone cultural da Terra Brasilis na popularíssima Miami.

As inúmeras opiniões que circulam nas redes e veículos brasileiros nos EUA apontam uma severa crítica à alegada postura hostil, mal-educada e arrogante do artista pernambucano, tanto no caso em questão, como em outras ocasiões rotineiras. Mas essa imagem lamentável não se reflete no cenário atual de atuação dos brasileiros em terras do Tio Sam.

A nova massa de imigrantes ‘made in Brazil’ tem trazido na sua bagagem um também novo perfil social e profissional. São, na sua maioria, cidadãos com excelente nível intelectual dispostos a consolidar uma carreira e investidores com larga experiência em negócios nos mais diversos setores. Essa é a versão positiva que nossos conterrâneos têm trazido consigo.

Um estudo recente elaborado pelos colegas pesquisadores Álvaro de Castro e Lima e Alanni Barbosa mostrou que os domicílios chefiados por imigrantes brasileiros tiveram uma renda domiciliar média anual de US$ 55.463 de dólares. Este rendimento foi superior ao dos domicílios chefiados pelos outros imigrantes (US$ 49.484) e superior ainda ao dos chefiados por americanos nativos (US$ 54.455).

A pesquisa, com base nos dados do governo americano e do governo brasileiro via Itamaraty, também revelou que a comunidade brasileira nos Estados Unidos está mais integrada do que a média dos outros imigrantes no país. E mais, é mais qualificada e, em muitos casos, ganha mais até do que os próprios americanos. De acordo com o levantamento, os brasileiros têm melhor nível educacional se comparado à média de todos os imigrantes. Sabe-se que 46% têm ensino médio completo e superior incompleto e 30% são graduados no ensino superior, contra 35% e 23% dos demais.

E é essa comunidade que está perplexa diante da polêmica que envolveu o artista plástico. Felizmente, episódios que retratam negativamente os brasileiros, a partir dessa nova comunidade, parecem ir ficando no passado. Não há mais espaço, nem suporte social e ideológico, para arroubos de superioridade pelo simples fato de residir nos EUA. Parece-nos também que nos aproximamos do fim da tal “americanização” de brasileiros que buscam incluir-se no “american way of life”. Cresce a cada dia o espírito de uma brasilidade com dignidade, respeito e reconhecimento pelos americanos do potencial brasileiro no país.

Profissionais de todos os matizes – engenheiros, professores, administradores, pesquisadores, gestores de TI, artistas, atletas, jornalistas, escritores, cabeleireiros, dj’s, e de outras especialidades formadas no Brasil, passaram a ser acolhidos legalmente no território americano sob a proteção dos vistos EB1, EB2 e H1B. Uma gente criativa e com alta escolaridade que tem sido recepcionada como extraordinária pelo governo americano.

De acordo com uma pesquisa do Bureau of Labor Statistics nos EUA, o percentual de estrangeiros que integram o mercado de trabalho americano e que possuem um diploma de bacharel ou formação superior é de 36,9%. Os que detêm diploma de ensino médio são 25,1%, percentual muito próximo ao de americanos nativos com diploma de ensino médio, de 25,6%.

Uma parcela considerável de novos imigrantes brasileiros carregam consigo a chance de renovação, em todos os estados americanos, da imagem do povo brasileiro, e do Brasil como grande e admirável país. Dados do Migration Policy Institute – MPI mostram que de 2010 a 2018 houve aumento considerável na população de imigrantes em estados não tão populares nos EUA como North Dakota, South Dakota, Minnesota, Delaware e Iowa. Em North Dakota, por exemplo, o aumento foi de 115%, em South Dakota de 58%, em Minnesota 28%, em Delaware 27% e em Iowa o número de imigrantes aumentou em 26% no período.

Ao que tudo indica, o episódio envolvendo Romero Brito parece ser o prenúncio do fim de uma imagem contraditória do brasileiro residente nos Estados Unidos. Quebrou-se a escultura, talvez um sinal para a ruptura definitiva da impressão de hostilidade, arrogância e sentimento de superioridade que não raramente se ouvia dizer de brasileiros que residem nos EUA. Um fim que esperamos ansiosamente.

*Rodrigo Lins é Mestre em Comunicação, Especialista em linguagem audiovisual, Professor universitário, Pesquisador, jornalista e escritor. 

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