Rocha Loures é pessoa da estrita confiança de Vossa Excelência?, indaga PF a Temer

Rocha Loures é pessoa da estrita confiança de Vossa Excelência?, indaga PF a Temer

Delegado da Operação Patmos, desdobramento da Lava Jato, interroga presidente sobre seu relacionamento com o homem da mala estufada de propinas da JBS

Fausto Macedo, Fabio Serapião, Julia Affonso e Breno Pires

05 Junho 2017 | 19h08

Michel Temer e Ricardo Rocha Loures. Foto: JBatista / Agencia Camara

Ao acuar o presidente Michel Temer (PMDB) com 84 perguntas, a Polícia Federal colocou sobre a mesa questionamentos relativos às relações do peemedebista com seu ex-assessor especial Rodrigo Rocha Loures, ex-deputado pelo PMDB do Paraná.

“Rodrigo Rocha Loures é pessoa da estrita confiança de Vossa Excelência?”, pergunta a PF.

Loures foi flagrado correndo por uma rua de São Paulo, em abril, carregando uma mala estufada de propinas da JBS – R$ 500 mil – divididos em 10 mil notas de R$ 50. Apontado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, como ‘verdadeiro longa manus’ de Temer, o ex-assessor está preso desde sábado, 3, em Brasília, por ordem do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF).

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Os delegados federais Thiago Machado Delabary e Marlon Cajado Oliveira dos Santos insistiram no relacionamento do presidente com o prisioneiro.

O policial quer saber desde quando Temer conhece o homem da mala. Outra indagação se refere a uma doação que o presidente teria feito a Rocha Loures.

OUÇA TEMER E JOESLEY

O delegado pergunta a Temer se ele confirma uma doação de R$ 200 mil à campanha de seu aliado à Câmara. “Quais os motivos dessa doação?”

As indagações fazem parte do inquérito da Operação Patmos, que mira Temer e Loures por corrupção passiva e obstrução de Justiça. Os investigadores suspeitam que o presidente escalou seu ex-assessor como interlocutor com a JBS para tratar dos interesses do grupo em seu governo.

Falastrão. A Polícia Federal também questionou o presidente sobre as razões que o levaram a receber no Palácio do Jaburu, na noite de 7 de março, o empresário Joesley Batista, da JBS – a quem o próprio Temer, em declaração pública, classificou de ‘conhecido falastrão’.

Dias depois do estouro da Operação Patmos, em que veio a público o áudio da conversa que teve com Joesley, o presidente declarou publicamente que seu visitante no Jaburu ‘é um conhecido falastrão’. O presidente afirmou que o áudio foi ‘manipulado, adulterado’.

No questionamento ao presidente, a PF indaga ‘qual o motivo, então, para tê-lo (Joesley) recebido em sua residência, em horário não usual, em compromisso extraoficial e sem que o empresário tivesse sido devidamente cadastrado quando ingressou às instalações do Palácio’.

Judiciário. Entre as 84 perguntas feitas a Michel Temer, a Polícia Federal questiona o presidente sobre um capítulo importante da crise na qual o peemedebista mergulhou – os assuntos tratados na reunião com o empresário Joesley Batista, da JBS, na noite de 7 de março, no Palácio do Jaburu.

Naquele encontro, o executivo narrou a Temer uma sucessão de crimes como o pagamento de mesada de R$ 50 mil para o procurador da República Ângelo Goulart e contribuição financeira a Eduardo Cunha (PMDB-RJ), em troca do silêncio do ex-presidente da Câmara, preso desde outubro de 2016 na Lava Jato.

Joesley também disse ao presidente que estava ‘segurando dois juízes’. A conversa foi gravada pelo empresário, sem que Temer soubesse.

“Por qual razão não levou ao conhecimento de autoridades a ilícita ingerência na prestação jurisdicional e na atuação do Ministério Público que lhe fora narrada por Joesley Batista?”, indagou a PF.

O delegado federal Thiago Machado Delabary quer saber do presidente se ele percebeu ‘alguma ilicitude’ de Joesley.

Os investigadores consideram que o presidente deveria ter tomado providências imediatas ao ser comunicado de crimes por Joesley. Este é o ponto central do pedido de impeachment de Temer levado à Câmara pela Ordem dos Advogados do Brasil.

Área econômica. Na parte final do interrogatório, a Polícia Federal investiu na área econômica do Governo. Os delegados federais fizeram questionamentos ao presidente sobre o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e sobre o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), cuja presidente Maria Silvia Bastos Marques pediu exoneração em meio à crise política.

Os policiais se referem a um trecho do diálogo do empresário Joesley Batista, da JBS, com o presidente no Palácio do Jaburu na noite de 7 de março. A conversa foi gravada pelo executivo. Nela, Joesley defendeu a necessidade de um ‘alinhamento’ com o ministro da Fazenda. “Qual o sentido da expressão alinhamento?”, indagou a PF.

Os delegados perguntaram ainda se Temer autorizou o empresário a apresentar ‘pontos de interesse’ a Henrique Meirelles e quais seriam esses pontos.

Em outro trecho da conversa, o executivo da JBS fez menção a uma operação do BNDES e supostamente faz referência à ex-presidente do Banco. Os delegados consideram que Temer demonstrou ter conhecimento da operação e o questionam se fez alguma solicitação a ‘ela’.

Eduardo Cunha. O ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) – condenado a 15 anos e 4 meses de prisão na Operação Lava Jato – foi alvo de uma parte do extenso questionário com 84 perguntas da Polícia Federal ao presidente Michel Temer. Os delegados federais questionam Temer sobre o sentido da frase ‘tem que manter isso’.

A enigmática frase foi dita por Temer em conversa com o empresário Joesley Batista, da JBS. No meio do diálogo, gravado pelo executivo, na noite de 7 de março, no Palácio do Jaburu, o presidente aconselhou Joesley: “Tem que manter isso, viu?”

Temer acabara de ouvir de seu interlocutor um relato sobre Eduardo Cunha, preso desde outubro de 2016 na Operação Lava Jato.

Para a Procuradoria-Geral da República, Temer e Joesley trataram de uma suposta ajuda financeira a Eduardo Cunha em troca do silêncio do ex-presidente da Câmara.

Os policiais foram taxativos. Pediram a Temer que explique o contexto dos termos ‘Tem que manter isso’.

A PF quer saber ainda sobre outro trecho da conversa de Temer com Joesley que trata de Eduardo Cunha. Naquela noite, no Jaburu, o presidente disse ao empresário que Eduardo Cunha havia resolvido fustigá-lo.

Joesley afirmou em seguida que havia ‘zerado as pendências’. Os delegados questionaram o presidente sobre quais ‘pendências’ se referiu Joesley.

Os policiais perguntaram ainda a Temer se ele ‘tem conhecimento de alguma ilegalidade cometida por Eduardo Cunha’.

Delação. A Polícia Federal quer saber do presidente Michel Temer (PMDB) se o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e o doleiro Lucio Funaro podem revelar ‘algum fato objetivo’ sobre ele em eventual acordo de delação premiada.

Os delegados perguntam a Temer se ele confirma ter recebido de Joesley a informação de que o empresário estaria mantendo financeiramente as famílias de Funaro e Cunha.

A PF cita um aliado importante de Temer, o ex-ministro Geddel Vieira Lima. Os delegados questionam o presidente se ele sabe de ‘algum fato objetivo’ sobre Geddel que possa ser revelado em delação de Cunha ou de Funaro.