Roberto DaMatta e o golpe da falsa vacinação  

Roberto DaMatta e o golpe da falsa vacinação  

Antoine Abed*

21 de março de 2021 | 05h00

Antoine Abed. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nas últimas semanas ficamos espantados com as notícias que apareceram em todos os meios de comunicação: alguns enfermeiros fingindo aplicar a vacina em pacientes idosos. Ora o técnico aplicava a vacina com a seringa vazia, ora não apertava a seringa e, desta forma, não injetava o imunizante. Especula-se que o objetivo desse grave golpe seria a posterior revenda do imunizante ou a própria aplicação em parentes/conhecidos dos golpistas.

Mas, por que um indivíduo, da área média, portanto, acima de qualquer suspeita, se sujeitaria a enganar um idoso que precisa da vacina? Por que alguém acha necessário burlar as regras? Qual a necessidade de tirar proveito dessa situação?

A explicação para isso pode estar em um livro publicado há mais de 40 anos.

Fico muito contente e honrado em citar o maior antropólogo brasileiro e uma das cabeças mais privilegiadas do nosso país. Um homem que decifrou o brasileiro de uma maneira única e, o que é melhor, de fácil entendimento. Para se ter uma ideia, a obra “Carnavais, Malandros e Heróis” foi escrita em 1979 e continua assustadoramente atual.

Nela, Roberto DaMatta descreve que as transgressões que praticamos, sempre com o intuito de tirar proveito das situações, está ligada à nossa formação como sociedade, que começou com a chegada da família real portuguesa e a nobreza para o Brasil, trazendo para cá um sentimento muito forte de aristocracia. A obra explica, ainda, que o Brasil é um caso raro de aristocracia concomitante com escravidão negra.

A pergunta que o autor faz é: ‘’Quem são os comuns em uma sociedade aristocrática?’’.  Ser comum é ser inferior e, por isso, ninguém queria ser comum em uma terra de aristocratas. Todos queriam ser barões ou aristocratas, ou seja, ascender socialmente para se destacar dos outros.

Um exemplo que DaMatta oferece é o sistema das leis. Em uma sociedade aristocrática os indivíduos não são iguais perante a lei. Se você fosse um padre, seria julgado pelas leis da igreja, se fosse um nobre, seria julgado pelas leis da nobreza e, obviamente, se fosse da plebe, você seria julgado pelas leis da plebe. Existiam, portanto, vários sistemas legais que conviviam e que, de certo modo, ainda sobrevivem no Brasil.

Não se engane, a tentativa de ascender socialmente foi e ainda está enraizada em todas as camadas sociais brasileiras. Se pegarmos como exemplo os escravos, perceberemos que existiam diferentes níveis de hierarquia. Os escravos da “casa” eram mais bem tratados que os da fazenda. Nos tempos atuais, vemos que os indivíduos da classe mais baixa tentam se destacar obtendo carro, celulares ou, até mesmo, um par de tênis diferentes dos seus amigos. Já a classe média compra casas de praia ou faz viagens para se diferenciar dos amigos ou vizinhos.  E assim fazem os ricos, seguem o mesmo padrão na tentativa de se distinguir de outros ricos.

A partir dessa ajuda conseguimos entender como essas transgressões, que acontecem repetidamente em nossa sociedade, se caracterizam. São reações anti-igualitárias, pois ninguém quer ser igual ao outro.

No caso da enfermeira que tentou furtar a vacina, podemos entender como uma forma, por ela encontrada, para sobressair entre seus pares e ganhar destaque no grupo a que pertence. Existe uma evidente dificuldade em nossa sociedade em se auto identificar como sendo “aristocrática”, embora, em todos os momentos e, sistematicamente, ajamos de forma a nos diferenciarmos uns dos outros.

Dessa maneira, Roberto DaMatta nos alerta para a necessidade de criarmos mecanismos que freiem essa cultura das transgressões que, de certa forma, contribui para o atraso e evolução da sociedade como um todo.

Para ilustrar esse sentimento, reproduzo uma anedota contada pelo próprio DaMatta que, com bom humor, descreve o brasileiro. Com sua voz rouca e olhar sisudo, diz:

“Em um barco à deriva, encontravam-se cinco náufragos: um americano, um russo, um brasileiro e dois cínicos. Um cínico virou-se para o outro e, repentinamente, disse:

— Quer apostar que eu faço todos eles pularem no mar?

— Mas como? Nós estamos à deriva sem comida e sem água…

Mesmo assim, sem se importar com a situação em que se encontravam, chamou o russo e disse:

— Igor, as tradições da Marinha Russa e o Partido Comunista Russo demandam que você pule na água.

O russo imediatamente bateu continência e pulou na água. Depois disso, chamou o americano e disse:

— Brian, existe um seguro em seu nome de US$ 5 milhões se você pular na água.

O americano, sem pensar muito, rapidamente se atirou ao mar.

Agora só restava o brasileiro. Com um grito, para vencer a distância, tentou chamá-lo, porém, como estava desatento com o que se passava à sua volta, não escutou. Depois de chegar mais perto, o cínico sussurrou, dando a impressão de que lhe contaria um segredo:

— José, você sabia que é proibido pular na água?”

*Antoine Abed é presidente-fundador do Instituto Dignidade, filantrópico, empreendedor, estudante de Filosofia e autor da obra Ensaio Sobre a Crise da Felicidade

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