Riva delator imputa a deputado ‘liderança’ em desvios de R$ 2,9 mi da Assembleia de MT com empréstimos e esquema de ‘fantasmas’ que abasteceu criação de faculdade

Riva delator imputa a deputado ‘liderança’ em desvios de R$ 2,9 mi da Assembleia de MT com empréstimos e esquema de ‘fantasmas’ que abasteceu criação de faculdade

Pepita Ortega, Rayssa Motta e Fausto Macedo

31 de outubro de 2020 | 09h34

O ex-presidente da Assembleia de Mato Grosso, José Geraldo Riva. Foto: Reprodução

Delator do esquema de distribuição de ‘mensalinho’ a deputados de Mato Grosso, o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Estado (ALMT) José Geraldo Riva afirma em novos anexos de sua delação premiada que o deputado federal por Roraima Haroldo Cathedral (PSD) ‘liderou’ um ‘movimento’ para pagamento, com recursos públicos, de empréstimos tomados em nome de servidores.

Segundo Riva, foram contratados 166 empréstimos em nome de servidores (reais ou fictícios) junto ao banco ABN Amro Real S/A, sendo que os mesmos foram posteriormente liquidados com dinheiro público proveniente das contas ALMT. Os valores foram sacados da conta da casa legislativa a título de pagamento de contratos simulados de aquisição de bens ou tomada de serviços celebrados com empresas fictícias.

Ao todo, valor movimentado pelo grupo ultrapassou R$ 2,9 milhões, diz o delator.

As informações constam do anexo 18 da colaboração de Riva. Segundo o ex-deputado, os ilícitos narrados teriam ocorrido entre 1999 e 2002, quando Haroldo Cathedral – à época conhecido como Haroldo Campos – exerceu o cargo de Secretário Legislativo da Casa.

“O Haroldo Campos, que era o que liderava esse movimento, é quem pegava os nomes, levava ao banco, emitia o contrato, levava o contrato para ser assinado pelo servidor e posteriormente pegava o endosso dos servidores no cheque ou pegava um recurso já sacado”, detalhou Riva em vídeo.

O anexo 18 da delação aponta que ‘diante das dificuldades cada vez maiores de obtenção de crédito, em função da inadimplência junto às Factorings’, o esquema de empréstimos ‘foi uma forma que a Mesa Diretora encontrou de levantar recursos a juros acessíveis para reduzir as dívidas de juros mais elevados’

“É importante ressaltar que num primeiro momento esse era o objetivo principal, porém num dado momento são realizados empréstimos para fins eleitorais e, também, pessoais, inclusive, destacando aqui, que o Sr. Haroldo Campos foi um dos beneficiados”, registra o documento.

Ainda segundo o novo trecho da delação de Riva, a maioria dos servidores utilizados para as fraudes sequer constavam da folha de pagamento da ALMT, ‘eram colocados apenas para esse fim’. “Outros eram de fato servidores, porém, apenas, endossavam os cheques ou sacavam e entregavam ora para o Sr. Bosaipo, ora para Sr. Haroldo, ora para o Proponente, mas é preciso deixar muito claro que os servidores não obtinham vantagem alguma”, contou o ex-deputado.

Além do anexo 18, um outro termo de colaboração cita o deputado Haroldo Cathedral – no documento, Riva diz que foi beneficiado juntamente com o então deputado Humberto Bosaipo por um esquema de funcionários fantasmas implantados na folha de pagamento por Cathedral entre 1999 e 2002. O então Secretário Legislativo da Casa também era beneficiário dos desvios.

O delator apontou ainda que podia afirmar que os valores deviados eram divididos entre o trio. “O início da atividade de Haroldo Campos como empresário do setor de Educação Superior, ocorreu com esses recursos desviados”, defendeu ainda Riva.

O ex-presidente da ALMT disse que quando a Faculdade Cathedral – sediada em Boa Vista (RR) e pertencente ao deputado federal Haroldo Cathedral – foi implantada, ele foi convidado a ser sócio, mas negou a participação. O delator registra ainda que ‘ouviu rumores’ de que o então deputado Humberto Bosaipo participava com Haroldo do quando societário.

“Tem uma situação muito presente na minha cabeça, quando o sr. Haroldo Campos me convida para seu sócio em Roraima, na abertura de uma faculdade, e, naquela ocasião, já de posse de alguns recursos desviados nessa condição, cria uma faculdade lá em Roraima e se torna um grande empresário e hoje deputado federal”, explicou Riva, em depoimento registrado em vídeo.

COM A PALAVRA, O DEPUTADO HAROLDO CATHEDRAL

Após ser citado por Riva, o deputado emitiu a seguinte nota:

Essa notícia causou extrema perplexidade e indignação. Rechaço e lamento, de forma veemente, o envolvimento do meu nome com o conteúdo dessa suposta delação. Não fui oficialmente notificado e desconheço o teor das alegações.

Ao longo da minha vida, seja no âmbito público ou na iniciativa privada, jamais tive relação com esquemas escusos e não compactuo com práticas ilícitas. Minhas relações junto ao poder público sempre respeitaram os limites institucionais, fundamentados nos preceitos éticos e da moralidade.

Estranha-me o fato do ex-deputado estadual, José Geraldo Riva, imputar minha participação somente agora que me tornei Deputado Federal, 22 anos após suas práticas delitivas, e 17 anos após a deflagração da operação Arca de Noé, em que a Polícia Federal investigou profundamente todo esse esquema, nunca tendo me vinculado a absolutamente nada.

O senhor José Riva vem, de forma recorrente, disparando denúncias infundadas contra servidores, dirigentes e autoridades públicas, para tentar desviar o foco dos seus atos e diminuir suas penas, em mais de 100 processos, relacionadas aos crimes cometidos na Assembleia Legislativa do Mato Grosso.

Fui Secretário de Recursos Humanos da instituição até o início de 2000 e, durante a minha gestão, não tive conhecimento de irregularidades no setor ou atos de improbidade cometidos por agentes públicos.

É oportuno esclarecer que muito anterior a esta data, já atuava como empreendedor na área da educação. Fundamos o grupo educacional Unicen, no estado do Mato Grosso, no período que antecedeu a esta citação, noticiada pelo Jornal FolhaMax.

As empresas eram negócios estabelecidos, com vários alunos, que forneciam fluxo de caixa mais que suficiente para o seu crescimento. Nos anos seguintes, em um processo de expansão, abrimos unidades na cidade de Boa Vista, em Roraima.

A implantação da Faculdade Cathedral iniciou com a construção de apenas 3 salas de aulas, onde não precisamos dispor de muito investimento, aplicamos recursos das outras unidades e reservas financeiras.

A partir dali, a nova empresa praticamente se auto-sustentou, com a abertura rápida de cursos e turmas. Em pouco tempo, já tínhamos 17 cursos presenciais e cerca de 4.000 alunos, em um negócio com fluxo de caixa positivo.

Fica claro que o senhor Riva vislumbrou uma oportunidade para “encher os olhos” dos membros do judiciário, aproveitando-se do período aproximado em que eu estive como servidor da Assembleia de MT, incluindo-me em sua delação, baseando suas falas em suposições e opiniões pessoais, desconhecendo fatos relativos à minha vida pessoal e meus negócios.

Portanto, diante do exposto, coloco-me à inteira disposição do Ministério Público e da Justiça para todos os atos necessários a comprovar a improcedência dessa citação.

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