Revelando o coração nos negócios

Revelando o coração nos negócios

Guilherme Castro*

06 de agosto de 2021 | 04h45

Guilherme Castro. FOTO: DIVULGAÇÃO

É fato que a sociedade contemporânea vem sendo impactada profundamente por grandes mudanças em vários âmbitos. Dentre eles: tecnológicos, sanitários, sociais, políticos e econômicos, especialmente nos últimos 30 anos, com a chegada da internet, desenvolvimento da inteligência artificial, da robótica e de novos modelos de negócios que vieram a reboque mudando para sempre a lógica empresarial.

Atualmente, percebemos uma grande polarização entre dois extremos de nossa sociedade. Sendo, de um lado, os que consideram a livre economia como baluarte do desenvolvimento e, do outro, os que reiteram sua ênfase nas questões sociais como fundamentais para a busca da prosperidade. Contextualizo dizendo que ambas as convicções, caso sejam analisadas de forma a excluir totalmente uma à outra, pecarão por não levar em consideração uma perspectiva mais abrangente e que tem a capacidade de trazer maior equidade, equilíbrio, harmonia e desenvolvimento para a sociedade.

Assim sendo, a evolução da relação entre empregador e empregado também vem demonstrando necessidade de grande aprimoramento pois, se no século passado o modus operandi era comando e controle, atualmente, vemos um grande direcionamento para a busca exacerbada das sensações. Sensações estas que impactam tanto na relação empregador-empregado, nos propósitos das empresas, nas pessoas, como inclusive nos modelos organizacionais e sociais.

Herman Dooyeweerd, filósofo Holandês, desenvolveu sua tese sobre a soberania das esferas e aspectos modais ainda no século XX. Esta análise, que tem grande serventia também para o mundo dos negócios, nos direciona para uma análise mais abrangente sobre a vida e, consequentemente, sobre modelos de negócios.

Para ele, existem 15 aspectos ou componentes que direcionam a vida e cada um deles tem relação direta. Somente essa relação equilibrada pode nos trazer benefícios reais. Dentre os aspectos comentados estão os psíquicos, sociais, econômicos, jurídicos, éticos, estéticos (harmonia), sensitivos, analíticos, linguísticos, lógicos e até a fé, dentre outros.

Segundo o mesmo e, levando em conta o dualismo atual de nossas perspectivas enquanto sociedade – ou seja, econômico vs. social, não poderemos criar tal equidade, uma vez que nos faltarão outros componentes. Vou oferecer três exemplos para entendermos a importância de encerrarmos com esta visão de mundo míope e dual.

Exemplo 1- Uma empresa que é extremamente rentável enquanto negócio, mas que as pessoas são exploradas enquanto condições de trabalho, salário, etc. (visão econômica clássica);

Exemplo 2- Uma empresa onde as pessoas possuem grande qualidade de trabalho, são bem pagas, mas a empresa não é lucrativa (utopia social);

Exemplo 3- A empresa é rentável, as pessoas possuem qualidade de trabalho, são bem pagas, mas, mesmo assim, parte destes empregados têm sérios problemas psíquicos atrelados ao trabalho (ansiedade, depressão) e a empresa não atua de forma ética no pagamento de tributos e questões jurídicas.

Os três exemplos citados não nos trazem harmonia enquanto sociedade, uma vez que falta no exemplo 1 um pouco de social, falta no exemplo 2 um pouco de econômico e falta, no exemplo 3, a ética, questões psíquicas e jurídicas.

Percebo que, com a pandemia, temos que avançar enquanto análise do mundo dos negócios e da vida como um todo. A harmonia é a palavra da vez, considerando que o planeta não suporta a extração desenfreada de recursos; as pessoas sofrem com desigualdades sociais e também com distúrbios psíquicos, atrelados ao trabalho e a falta de propósito, inclusive altos executivos bem remunerados. E, por fim, a economia sofre grandemente por modelos de negócios malfeitos, que não levam as empresas e seus stakeholders a auferirem lucro e compartilhamento de propósito de forma perene.

A crise é um grande exercício de auto análise. E, arrisco dizer que a culpa não é totalmente do COVID-19 ou pela recessão que o mundo enfrenta, mas sim de uma sociedade doente que se polariza cada vez mais e que se torna refém de seus próprios “ismos”. Teorias concebidas e imutáveis, onde cada um analisa o mundo com sua própria lente, ao invés de buscar aglutinar os componentes em prol de algo maior que o indivíduo ou ponto de vista em si.

É necessário olhar a empresa e modelos de negócios mais com o coração, órgão que simbolicamente unifica alguns dos principais aspectos oferecidos por Dooyeweerd. O coração tem o componente das sensações (questão psíquica) e é nele que se encontra um grande número de neurônios dando vazão para a lógica. Ademais, é no coração que mora o amor e, portanto, a ética. Nele também está a fé e a esperança. Além disso, o coração bombeia o sangue para nosso corpo e nos mantém vivos (componente biológico).
Até por este último exemplo, segundo Jeff Van Duzer, diretor da escola de negócios da Seatlle Pacific University, se os negócios fossem o corpo humano, o lucro seria o sangue que, por meio do coração nos mantêm vivos, mas não o propósito em si.

Conseguiremos encontrar propósito em nossas vidas, somente com a interação sadia entre os componentes, de forma a criar a harmonia necessária para crescermos enquanto sociedade.

*Guilherme Castro, CEO Samba Hotéis

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