Retrospectiva esportiva 2020 – os 8 episódios de destaque

Retrospectiva esportiva 2020 – os 8 episódios de destaque

Samuel Bueno*

21 de dezembro de 2020 | 09h00

Samuel Bueno. FOTO: DIVULGAÇÃO

E quando percebemos, o já inesquecível ano de 2020 se aproxima do seu fim. Ainda em meio à pandemia que marcará o ano para sempre nos anais da história, traçamos uma breve retrospectiva dedicada a recapitular os 8 principais acontecimentos ligados ao esporte e ao entretenimento e seus principais personagens, com destaque para os episódios que impactaram esses setores, assim considerados como segmentos de indústria:

  1. Kobe Bryant

O primeiro fato marcante do ano se deve à morte trágica e prematura de Kobe Bryant – e mais 8 pessoas, incluindo sua filha Gianna de 13 anos – em um acidente de helicóptero, no dia 26 de janeiro. Kobe alcançou inúmeras marcas notáveis ao longo de toda sua carreira como jogador profissional de basquete, incluindo cinco títulos da NBA pelos Los Angeles Lakers (único time que defendeu em sua carreira) e dois ouros olímpicos pela seleção norte-americana (nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008 e Londres 2012).

  1. A pandemia

O começo, o meio e o fim de 2020 ficaram marcados pela pandemia do coronavírus. Os seus reflexos no cenário esportivo vão muito além do cancelamento e/ou adiamento de campeonatos e eventos de grande porte e tradição como os Jogos Olímpicos, Wimbledon e a Eurocopa, repetindo algo que não acontecia desde a 2ª Guerra Mundial. Visto como negócio, o ramo do entretenimento foi duramente impactado pela pandemia e a consequente imposição de medidas restritivas sanitárias, tendo de se readaptar e se reinventar com as lives e outros meios de espetáculo à distância. Especificamente no mercado esportivo, estima-se que apenas metade dos eventos programados para 2020 foram efetivamente realizados e, claro, sem a presença de público pagante. Ainda, calcula-se a perda de aproximadamente US$ 62 bilhões de lucro com a arrecadação esportiva. Tão importante quanto os prejuízos já experimentados, os efeitos da pandemia formam um prognóstico duvidoso para o ano de 2021, pois ainda que a maior parte dos grandes eventos tenha sido prorrogada, não se sabe como será e se haverá a participação do público. Definitivamente, é um mercado que continuará seu processo de reinvenção no curto prazo.

  1. Djokovic

Novak Djokovic protagonizou as manchetes dos noticiários esportivos, e dessa vez não foi apenas pelos resultados conquistados em quadra. Mesmo terminando mais um ano como número 1 do Ranking da ATP, o tenista foi o pivô de uma polêmica mundial por ter organizado e promovido o Adria Tour, uma turnê de caridade pelos Balcãs. Mesmo sob os perigos da pandemia, atletas do circuito mundial não só jogaram tênis sob pretexto beneficente, como abraçaram fãs, se abraçaram, jogaram basquete, futebol e se divertiram em festas dignas do verão europeu. Resultado: nos dias seguintes aos encontros, vários deles foram diagnosticados com a Covid-19, inclusive o sérvio que acabou ganhando, além das críticas, o famigerado apelido de “Djokovid”. Meses depois, Nole ainda foi desclassificado do US Open por ter acertado uma bolada (acidental?) na face da juíza de linha, o que ainda lhe rendeu uma multa e o não recebimento dos pontos nem do prêmio da competição, totalizando um prejuízo de R$ 1,3 milhão.

  1. NBA, a bolha e Vidas Negras Importam

Para dar sequência à temporada 2019/2020, a NBA viabilizou uma solução condizente com o tamanho da sua história. A medida adotada pela Liga foi a construção de uma estrutura esportiva-hoteleira no complexo da Disney, na Flórida. A “Bolha da NBA” funcionou de forma exemplar e permitiu a continuação e o encerramento das competições sem que nenhum atleta ou equipe sofresse qualquer desfalque por conta da Covid-19. Ao mesmo tempo, a competição correu risco de paralisação e boicote quando os jogadores das principais equipes se mobilizaram e engrossaram o coro dos protestos antirracistas contra os abusos cometidos por autoridades policiais nos Estados Unidos, em episódio cujo auge consistiu na morte (filmada e viralizada) de George Floyd. Após intensas negociações entre os atletas e Liga, os playoffs foram retomados e a bandeira do movimento Black Lives Matter foi estampada nos uniformes e no piso das quadras. Nas séries finais, os atletas também expressaram mensagens de incentivo para que a população participasse efetivamente das eleições presidenciais dos EUA.

  1. A Máfia do Apito

Em outubro a Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça julgou os Recursos Especiais da Federação Paulista de Futebol e da Confederação Brasileira de Futebol envolvendo o escândalo da Máfia do Apito, havido no ano de 2005 e que tratava da manipulação de resultados por parte de dois árbitros de futebol e um apostador. Por maioria de votos (3×2), o STJ deu parcial provimento aos recursos da FPF e CBF de forma a afastar a condenação ao pagamento de danos morais coletivos que havia sido imposta pelo TJSP em cifras que, atualizadas e somadas, representavam cerca de R$ 60 milhões em desfavor das entidades. Em meio às divergências, os ministros discutiram a existência do dano moral coletivo sofrido pelos torcedores/consumidores, bem como a existência de nexo causal e responsabilidade solidária entre as entidades organizadoras do Campeonato Paulista e do Campeonato Brasileiro de Futebol daquele ano, com os árbitros Edilson Pereira de Carvalho e Paulo José Danelon e o apostador Nagib Fayad.

  1. Tokenização de ativos esportivos

No início de novembro a exchange Mercando Bitcoin (MB) firmou contrato com o Vasco da Gama para viabilizar o lançamento de tokens sobre direitos (e ativos) derivados do chamado mecanismo de solidariedade. Previsto por regulamentação internacional (FIFA) e nacional (Lei Pelé), o mecanismo de solidariedade garante aos clubes formadores de atletas de futebol a participação fracionária e proporcional sobre futuras vendas dos jogadores. Com a tokenização, os investidores poderão comprar um percentual do que o Vasco irá receber futura e eventualmente com a venda de 12 jogadores formados pelo clube (Philippe Coutinho é um deles)Ao todo, serão 500 mil tokens que poderão alcançar um valor superior a R$ 50 milhões, sendo o Vasco o primeiro clube do mundo a realizar esse tipo de operação.

  1. O adeus de Maradona: herança, paternidade e responsabilidade civil e penal

Poucas semanas após ter completado 60 anos, Diego Armando Maradona se despediu da vida no dia 25 de novembro. O ex-jogador, que já havia sido submetido a uma cirurgia na cabeça dias antes, sofreu uma parada cardiorrespiratória em sua casa. Quando morre um ídolo, todos nós também morremos um pouco. Paradoxalmente, Maradona se torna imortal e consolida o mito em torno do seu nome, deixando um legado de obras-primas tal qual um artista (que de fato era). Não bastassem as polêmicas que circundaram sua trajetória, a morte do gênio argentino já suscita novas e importantes controvérsias. A primeira delas diz respeito à herança do patrimônio estimado em R$ 500 milhões – o que deve dar início a um longo e conturbado processo judicial dada a família numerosa que conta com sete irmãos e cinco filhos reconhecidos. Ainda, há processos em andamento que buscam o reconhecimento da paternidade do craque em relação a outros três filhos, tidos com diferentes companheiras. Por fim, as autoridades policiais iniciaram uma investigação para apurar possível homicídio culposo por parte do médico responsável pelos cuidados com Diego.

  1. Mike Tyson: como fazer um evento sem público e rentável

Já no apagar das luzes de 2020 o boxe voltou a ver brilhar sua estrela mais incandescente desde Muhammad Ali. Aos 54 anos e demonstrando surpreendente vigor físico – foram cerca de 45kg perdidos no processo de preparação –, Mike Tyson voltou aos ringues em uma luta de exibição contra o também veterano Roy Jones Jr. A luta com regras próprias foi muito bem sucedida como evento de entretenimento, esportivo e de mercado, movimentando cerca de US$ 80 milhões só nas vendas de pay-per-view ao redor do mundo, dando mostras de que esse formato de evento no atual contexto pandêmico pode e deve ser um caminho viável para o esporte e o entretenimento. Não à toa, após o embate, Tyson disse estar disposto a novos confrontos nesse formato, gerando expectativa para a agenda de 2021, incluindo o que seria um emblemático reencontro com Evander Holyfield.

*Samuel Bueno, advogado da área de Esportes e Entretenimento do ASBZ Advogados

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