Retrospectiva econômica 2020 e perspectivas futuras

Retrospectiva econômica 2020 e perspectivas futuras

Samir Sayed*

23 de dezembro de 2020 | 12h10

Samir Sayed. FOTO: DIVULGAÇÃO

O ano de 2020 vai ficar marcado na vida de todos: aqueles que perderam parentes, amigos ou conhecidos em virtude da COVID-19 ou que sentiram na pele os sintomas e consequências da doença; aqueles que perderam empregos, empresas ou que tiveram perdas econômicas importantes com todos os efeitos do distanciamento praticado. Vai ficar nos livros de história e todas as consequências de ordem social e econômica, sobretudo. Assistimos, além do drama de pessoas físicas e jurídicas, aos desafios impostos aos governos dos diversos países a fim de sanar ou diminuir o sofrimento e agruras acima apontados. Países tiveram que agir para que o estrago não fosse ainda maior.

Mas o que aprendemos com isso tudo? Quais são as perspectivas daqui pra frente?

Antes de tentar responder esses questionamentos é importante traçar um panorama econômico do que foi (está sendo) esse ano de 2020.

O ano já começava com o temor da transmissão do coronavírus de forma acelerada na Ásia, especificamente na China, seu primeiro epicentro. Nos três primeiros meses do ano, assistimos e pior do que isso, vivemos o impacto inicial de algo por nós desconhecido. Nos isolamos. De março até os dias atuais, vivemos o que se costumou designar de “novo normal”, novas formas de trabalhar, de se relacionar com amigos e parentes, de fazer compras, etc. Porém o baque inicial foi sentido sobretudo entre o primeiro e o segundo trimestre de 2020. Já passamos de 180.000 mortos no país.

Em relação a taxa de juros básica da economia, no começo do ano a Selic estava a 4,5% a.a. Verificou-se nas reuniões do Comitê de Política Monetária cortes sequenciais na taxa nos encontros de fevereiro, março, maio, junho e agosto, mês em que alcançou a mínima histórica de 2%a.a. Em um país que historicamente conviveu com altas taxas de juros, esse momento é único. Porém, a pandemia impactou bastante esse corte. Poderia ser esse corte por razões menos desgraçadas. Esse resultado foi possível devido à inflação contida, justamente pela força matriz da sua geração em nosso país, que é o consumo, este impactado pela queda de faturamento das pessoas e empresas. Porém assistimos nos últimos meses a uma escalada de preços em alguns itens, como os alimentícios, as commodities e mais recentemente a energia elétrica, muito em virtude da desvalorização do real que atingiu valores próximos a R$6/ dólar, com os exportadores preferindo o mercado externo, além do consumo propiciado pelo auxílio emergencial, para o primeiro ponto e problemas climáticos e de reservatórios, sobretudo para o segundo ponto.

A inflação que se mostrou controlada nos primeiros meses do ano de 2020 decorrente da diminuição drástica do consumo de famílias e empresas, inclusive com deflação mensal entre março e maio (IPCA), começa a tomar uma escalada ascendente no segundo semestre, inicialmente com preços de alimentos, causados pela questão do dólar e pela retomada do consumo propiciado também pelo auxílio emergencial do governo. Nesse sentido, o IPCA em 12 meses (outubro/19 – outubro/20) foi de 3,92% e de 2,22% no acumulado do ano de 2020. Estima-se em várias instituições financeiras que encerraremos o ano de 2020, acima do centro da meta de inflação (4,5%); fato este que com certeza gera pressão para aumentos na taxa de juros do país. Observando o comportamento da taxa Selic e da inflação, percebemos que a taxa de juros real se torna negativa no país, o que faz com que as pessoas e empresas busquem maior alocação de capital em risco.

O desemprego subiu de forma drástica, atingindo a máxima da série histórica em 14,4% desde 2012, ou seja, 13,8 milhões de brasileiros e brasileiras. Esse se torna um grande empecilho para o governo, apesar de todos seus esforços. As empresas e pessoas se viram obrigadas a se adaptar a esse “novo normal”. E esse “novo normal” teve que contar com o apoio governamental e das instituições financeiras para evitar uma catástrofe socioeconômica no país.

Houve uma série de esforços do governo, que adotou diversas medidas para as pessoas jurídicas, como a questão de férias, banco de horas, adiamento do recolhimento do FGTS e pagamento de outros impostos, a medida Provisória 944 (e suas diversas frentes de auxílios, com empréstimos, por exemplo), o PRONAMPE no apoio das micro, pequenas e médias empresas, a Medida Provisória 936, com a redução da jornada de trabalho. Bancos e credores também efetuaram seus esforços liberando mais de R$ 2 trilhões, com quase metade desse valor em renegociação de dívidas. Não se pode esquecer do papel fundamental desempenhado pelo auxílio emergencial do governo pago a milhões e milhões de brasileiros e brasileiras, injetando aproximadamente R$ 200 bilhões nos bolsos das famílias, aproximadamente 2,5% do PIB do Brasil em 2019.

Outro indicador extremamente importante ao se analisar o comportamento da economia brasileira é a questão do dólar e a consequente valorização ou desvalorização cambial no período. A moeda americana começou o ano cotada próxima a R$ 4 (R$ 4,0195). Com a retirada de dólares do Brasil por parte de investidores do mundo todo, causada pelo temor da disseminação do coronavírus que começava a tomar ar de pandemia mundial, o dólar chegou em R$ 5,20 ao final do primeiro trimestre, uma valorização média de 30% no período. Ao final de junho e de setembro de 2020, após momentos de grande nervosismo, fechou a moeda americana em R$ 5,46 e R$ 5,61, respectivamente. Outubro é marcado por grande desvalorização do real, encostando em alguns dias na marca de R$ 5,80. Entre novembro e a primeira semana de dezembro, com a questão da vacina já melhor encaminhada observa-se uma valorização do real frente ao dólar, muito em virtude dos esforços do Banco Central e da entrada de dólares causadas pela expectativa da vacina contra a COVID-19. Como mencionamos anteriormente, uma parte da disparada dos preços de alimentos é decorrente dessa desvalorização cambial observada.

Em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), observamos que o coronavírus também causou danos à riqueza criada pelos países do mundo todo. Em especial, no Brasil assistimos nos dois primeiros trimestres quedas extremamente acentuadas na dinâmica econômica, com quedas de 2,5% e 9,7%, respectivamente. Com a retomada de várias atividades e relaxamento no isolamento, o PIB brasileiro cresce 7,7% no terceiro trimestre, menor que a previsão dos analistas que esperavam dados superiores a 8%. Dessa forma, espera-se que a queda anual do PIB no ano de 2020 fique em torno de 4,5%.

O desempenho da Bolsa de Valores no ano de 2020 também não escapou às vicissitudes causadas pela doença. Vínhamos de um 2019 muito promissor, com a questão das reformas propostas pela equipe econômica do governo. 2020 era para ser um ano de reafirmação do mercado de ações e títulos nacionais, com várias empresas com intenção de abrir seu capital. A Bolsa que começa o ano com aproximadamente 115 mil pontos, chega ao seu pior nível em anos já no final do primeiro trimestre, com quase 60 mil pontos, uma queda de quase 50% do índice, com vários dias em que foi acionado o circuit-breaker, com a bolsa suspendendo por tempo determinado seus negócios. Com a retomada das atividades e com a perspectiva positiva do desenvolvimento de vacina por parte dos laboratórios, a bolsa brasileira voltou no início de dezembro bem próxima à pontuação de antes do início da crise, encostando nos 110 mil pontos.

E o que nos espera? Como será o ano de 2021 em termos econômicos?

Em primeiro lugar toda a recuperação econômica dependerá do sucesso da vacina ou de outro tratamento disponível. O mercado aparentemente já precificou a questão da vacina. Faltam apenas as definições sobre qual(is) vacina(s) será(ão) disponibilizada(s), sua(s) eficácia(s) e o calendário de distribuição à população. Nesse ponto seria possível a volta ao “antigo normal” adaptado pelas circunstâncias e pelos casos de sucesso propiciados pelo “novo normal”.

Em relação à taxa Selic, os analistas esperam um crescimento da mesma, sobretudo para conter os ímpetos inflacionários causados pelos alimentos e commodities: dessa forma, discute-se entre os entendidos uma taxa que se situa entre 2,5% e 3,5% a.a. no ano de 2021. Devemos ficar atentos ao comportamento dos preços no exterior e a questão do dólar, bem como ao consumo das famílias nessa provável recuperação econômica do ano de 2021 que podem trazer pressão inflacionária ao país. O governo terá de efetuar todos os esforços para a inflação se situar abaixo do centro da meta, inclusive lançando mão de política monetária mais apertada, restritiva. A Bolsa de Valores tem expectativa de crescimento na ordem de 20% do fechamento atual, isto é, previsão de 130.000 pontos ao final de 2021. Tudo isso, como mencionamos, dependerá de como o mundo sairá da crise pandêmica do coronavírus.

*Samir Sayed é coordenador do curso de pós-graduação em Mercado Financeiro e de Capitais da Fipecafi

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.