Retrofit: é preciso ousar

Retrofit: é preciso ousar

José Renato Nalini*

19 de agosto de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

São Paulo – a megalópole – é um cemitério de edifícios ociosos e vazios no centro que um dia já foi glamouroso. Consta existirem cerca de trezentos mil prédios que poderiam ser convertidos em moradias, reduzindo o imenso déficit residencial da maior cidade do Brasil.

Uma normatividade recente pretende incentivar a conversão desses imóveis em prédios residenciais. Mas ainda é muito tímida. A parte tributária é pouco interessante para atrair investidores. Estes encontram imensa dificuldade na burocracia da Prefeitura. Um prefeito que realmente queira devolver vida inteligente ao centro paulistano enfrentaria os óbices do conservadorismo e da resistência ao novo.

O custo para adaptação de prédios antigos é enorme. Fazer com que atendam a todos os parâmetros posteriores à edificação e condená-los ao tombamento. Não o instituto do Direito Administrativo cujo nome infeliz guarda uma boa ideia: a preservação. Mas o tombamento no sentido vulgar: a derrubada, a ruína, a queda, o desaparecimento.

A Prefeitura deveria fazer uma espécie de leilão, emulando as grandes construtoras e também os pequenos empreendedores que podem converter o centro no espaço agradável de convívio entre pessoas que gostam de São Paulo e pretendem continuar aqui.

Os investimentos que o Estado fez na região central não podem ser simplesmente ignorados e condenados ao oblívio. É melancólico percorrer as ruas do miolo urbano assim que escurece. Uma cidade fantasma, sem residentes, sem vida. Relegada aos infelizes que dormem nas reentrâncias dos prédios e se acomodam até nos passeios e nas sarjetas.

O município deveria premiar aquele que oferece um projeto viável e corra o risco e o custo de adaptações que não podem ser obstaculizadas por exigências formais desnecessárias.

Precisaria existir um plano casado entre as novas incorporações e a aceitação de um retrofit. Uma espécie de compensação que a poderosa indústria da construção civil ofereceria à cidade, por havê-la tornado esse verdadeiro paliteiro de arranha-céus às vezes sem o mínimo de verde essencial à sadia qualidade de vida.

Uma cidade que tem os irmãos Ohtake, Ruy e Ricardo, que teve Paulo Mendes da Rocha, Villanova Artigas, Ariosto Mila, que conta com várias faculdades de Arquitetura, dentre as quais a notável FAU da USP, não pode conviver com o abandono do centro nervoso da conurbação. Os jovens arquitetos e os estudantes de arquitetura e urbanismo precisariam ser incentivados a elaborar projetos factíveis. A criatividade brasileira nessa área é reconhecida no mundo inteiro. Ela precisa ser capaz de injetar vida ao tecido deteriorado, que depõe contra o Poder Público local e é um retrato da involução a que o Brasil foi condenado de há uns tempos para cá.

Por que não aprender com Paris e cultivar os pontos históricos, apondo pequenas placas a recordar que neste prédio, de tal ano a tanto, viveu Paulo Bomfim, aqui trabalhou Mário de Andrade, aqui viveu Tarsila, Menotti, Guilherme de Almeida, tantos outros que ofereceram seu talento a Piratininga e hoje estão esquecidos.

Uma região densamente habitada é motivo de regeneração dos costumes, de redução drástica da insegurança, fator de desenvolvimento da economia, tão combalida por uma série de fatores, que a pandemia veio agravar ainda mais.

É preciso aproveitar este momento, quando muitas inteligências estão se compenetrando de que é preciso fazer algo pelo convívio, devolver à cidade aquilo que ela ofereceu em termos de educação e qualidade de vida e oferecer perspectivas alvissareiras para as futuras gerações.

A peste mostrou que existe altruísmo no Brasil. Milhares de empresas doaram recursos financeiros e materiais para debelar os nocivos efeitos da Covid19. Essa chama não pode se apagar. E mantê-la acesa é um fator de ganho para todos: para a população, para reforçar o sentido de pertencimento à metrópole, assim como o conceito de cidadania. É uma resposta aos seguidos golpes desferidos contra a Democracia, principalmente com a prática falência da representação.

Se ninguém se sente representado em âmbito da União, existem os governos subnacionais e eles têm a obrigação de refletir os anseios de uma população com demandas reprimidas. É a hora do município entrar com força e intensidade na cultura ESG, cuidar do ambiente – tão sacrificado em todos os biomas – tratar dos desvalidos, reduzindo a iníqua desigualdade social e adotar uma governança corporativa que, para o Poder Público, outra coisa não é que uma gestão inteligente.

Ninguém nasce na União, nem no Estado, dizia Franco Montoro. As pessoas nascem na cidade. Esta precisa ser o ninho acolhedor, urbanisticamente agradável, para permitir que nela se desenvolvam as potencialidades humanas, até que todas as criaturas atinjam sua plenitude.

Vamos fazer algo mais concreto do que legislar para que o retrofit seja uma política efetiva e mereça pronta adesão da comunidade?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoJosé Renato Nalini

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.