Retomada mais distante gera pressão

Retomada mais distante gera pressão

José Pena*

17 de maio de 2020 | 09h00

José Pena. FOTO: DIVULGAÇÃO

Estando à frente no ciclo global da covid-19 (foi o primeiro epicentro e o primeiro dos países mais afetados pela doença a estabilizar a curva de casos), a China também atrai a atenção do restante do planeta como possível referência para o processo de recuperação econômica. E os dados mais recentes, referentes a abril e conhecidos nesta sexta-feira (15), trouxeram algumas boas novas e outras não tão boas assim.

A boa notícia diz respeito à retomada da atividade industrial, que depois do colapso registrado em fevereiro, seguiu mostrando nos dois meses seguintes o que se poderia chamar de recuperação no formato de um “V”, ou seja, uma queda abrupta e acentuada, seguida por uma melhora também expressiva e relativamente rápida. Porém, quando se olha para o lado da demanda, traduzida por indicadores de consumo, de bens e serviços, o quadro é bem menos favorável, provavelmente refletindo vários fatores, entre eles, a queda da renda, novos hábitos entre os consumidores, evitando locais de maior aglomeração (restaurantes, centros comerciais etc.) e mesmo a adoção de uma maior propensão a poupar, sacrificando assim uma parcela da renda disponível que até então seria canalizada para o consumo.

Assumindo que a China funcione realmente como um indicador antecedente do desempenho econômico do resto do mundo, cautela talvez seja a palavra que melhor descreva o que devemos nutrir com relação ao futuro próximo.

Se a China conseguiu conter o crescimento da curva de casos da Covid-19 ao final de fevereiro e a Europa no início de abril, o Brasil, infelizmente, ainda parece distante de resultado semelhante. Os dados diários mostram valores crescentes e os sistemas de saúde em várias regiões começam a apontar para um quadro de esgotamento.

Com isso, a perspectiva de uma retomada da atividade, mesmo que gradual e parcial, parece distante, especialmente nos grandes centros urbanos do país. Nesta semana, o Ministério da Economia divulgou estudo em que estima que o custo econômico de curto prazo para cada semana com limitações de mobilidade e de distanciamento social alcança R$ 20 bilhões, o equivalente a 0,3% do PIB de 2019. Ou seja, em um mês, a perda chegaria a mais de 1%. E esse é o custo imediato, ao qual devem ser somadas perdas mais perenes e que poderão ser retomadas apenas no longo prazo.

Em meio à perspectiva de postergação da retomada, que talvez já não aconteça mais ao final deste mês de maio, novas revisões baixistas nas projeções para o PIB de 2020 se farão necessárias (atualmente estimamos uma queda de 5%). Além da queda na renda de famílias e empresas, assim como do emprego, esse cenário vai gerando uma pressão adicional sobre as contas públicas. De um lado, ocorre enorme perda da arrecadação em função da queda da atividade. De outro, crescem as demandas por mais gastos, como forma de mitigação dos impactos da crise sobre as vidas das pessoas e empresas

Embora mais que justificável no momento atual, essa rápida e significativa deterioração das contas públicas poderá gerar repercussões relevantes e duradouras se não for revertida no futuro próximo. Parte considerável da depreciação cambial das últimas semanas certamente se deve a esse quadro de piora das finanças públicas, assim como a alta das taxas de juros de mais longo prazo.

*José Pena é economista-chefe da Porto Seguro Investimentos

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