Ressuscitemos a esperança

Ressuscitemos a esperança

José Renato Nalini*

04 de maio de 2022 | 10h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Tenho a tendência de achar que o retrocesso vence em todas as áreas, neste sofrido Brasil. Mas é preciso abrir uma fresta para a esperança. Crianças e jovens têm direito a um país melhor. Aquele com o qual sonhamos e que não chegamos a alcançar. Tomara eles consigam!

Procuremos, então, nutrir confiança no amanhã que eles terão. O nosso é muito próximo e não permite profundos enlevos.

Algo que é de evidência solar assusta o mundo civilizado: o aquecimento global. Esse o maior perigo que ronda a humanidade, não a Covid e outras pestes que ainda virão.

Pois é o momento de retomar o lema ambientalista dos anos setenta. Pensar globalmente e agir localmente. É o que faz Natália Coelho, uma servidora do maltratado Ibama, cuja estrutura está sendo desmanchada, fundadora do Programa Arboretum. É um programa que restaura e conserva florestas brasileiras e que no ano que vem completará dez anos.

Antes disso, ela já criara o Projeto Jacarandá, no sul da Bahia. Nele, a comunidade produzia mudas, coletava sementes com assistência técnica e logística do Ibama. Empresas com passivo ambiental patrocinaram um viveiro. Com a experiência amealhada, Natália criou esse programa que capacita comunidades indígenas, rurais e assentamentos. Oferta suporte técnico e de logística para a produção de sementes e de mudas. Auxilia no plantio. Conta com mais de cinquenta coletores de sementes ativos e mais de trinta viveiristas envolvidos nas comunidades. Cuidam de quatro viveiros.

Entre 2014 e 2020 foram produzidas 1,6 milhão de mudas e mais de nove toneladas de sementes de mais de 550 espécies. Houve a restauração de mil hectares de floresta. Isso representou quase dois milhões a mais na renda dos partícipes do projeto.

As mudas são nativas e, de preferência, aquelas com potencial econômico, como a sapucaia e a pimenta de macaco. Mas também pau-brasil e jacarandá-da-Bahia.

Essa iniciativa pode ser replicada. A capital paulista possui milhares de ipês, a árvore nacional mais representativa do Brasil. Em junho, há ruas inteiras amarelas. A floração é instantânea. Serve para um flash. Logo caem as flores e as sementes se perdem. Caem nos passeios, quando há chuva elas correm para as bocas de lobo.

Por que não cuidar do recolhimento das sementes e de convertê-las em mudas? Há tanta gente sem emprego, que poderia se dedicar a uma atividade necessária à regeneração do ambiente e muito gratificante, pois cuidar da preservação tem uma simbologia com a permanência do elã vital sem o qual a humanidade pereceria.

Outra oportunidade aberta aos milhões de desempregados brasileiros é o Plano Nacional de Resíduos Sólidos – Planares. O intuito é acabar com os lixões, testemunho de subdesenvolvimento, próprio a países do quarto ou quinto mundo. Existem mais de três mil no Brasil!

Muito devagar a meta de reciclar ou recuperar 48,1% dos resíduos sólidos urbanos, até 2040. Hoje menos de 2% são reaproveitados.

A reciclagem só funciona, embora pifiamente, no Brasil, porque há muitos informais que já desistiram de procurar emprego, pois sabem que o não obterão. A cada dia, o Brasil produz 217 mil toneladas de resíduo sólido urbano, eufemismo para “lixo”, o que significa cerca de 80 milhões de toneladas por ano. Quase metade disso é de lixo orgânico, que é praticamente desperdiçado: apenas 0,2% reaproveitado. Isso deteriora o ambiente e ainda emite metano, o mais perigoso dos gases venenosos causadores do efeito estufa.

Tudo também decorre de falta de educação de qualidade. Povo educado sabe cuidar daquilo que se utiliza e exige a economia circular, com a logística reversa vigente há décadas nos países civilizados.

Os ricos não desperdiçam. Quem desperdiça é pobre ignorante. Por isso é que a juventude antenada, escolarizada, tem condições de comandar o processo de conscientização da comunidade e de colaborar com o Programa Recicla +, que criou o Certificado de Crédito de Reciclagem. É uma questão de sobrevivência da humanidade, que precisa levar a sério a coleta seletiva, a reciclagem, a reutilização, a produção energética de matéria orgânica e a compostagem. Tudo converte para salvar o ambiente e, nele, a espécie humana. Teimosa e pouco esperta quando joga fora resíduos valiosos, que melhorariam sua renda e sua qualidade de vida.

Jovens: acordai e assumi o controle! Vós podeis ressuscitar a esperança em dias melhores neste Brasil que é vosso!

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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