Respostas antigas para uma nova pergunta: o que será da Educação após a pandemia?

Respostas antigas para uma nova pergunta: o que será da Educação após a pandemia?

Maira Mariano*

07 de outubro de 2020 | 14h25

Maira Mariano. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Desde o início do isolamento decorrente da pandemia do novo coronavírus, em março deste ano, o debate sobre as possíveis transformações na Educação destaca-se não só no noticiário, mas nas conversas diárias entre especialistas, não especialistas, pais e alunos. Com a recente retomada das aulas presenciais em algumas cidades do estado de São Paulo e a provável reabertura da totalidade das escolas e universidades já no próximo mês, ainda pairam questionamentos que buscam responder à seguinte questão: o que será da Educação daqui pra frente?

É inegável que o cenário atual nos faz refletir sobre o paradigma da educação brasileira. Diversos estudos e pesquisas que há algum tempo já apontavam para a superação das aulas integralmente expositivas, a necessidade de incorporação de recursos tecnológicos digitais, a renovação de abordagens pedagógicas e uso de diferentes metodologias de ensino, estiveram presentes em formações online para docentes e gestores, seminários, cursos de extensão ou aulas abertas neste momento. Essa oferta revelou a urgência de adotarmos na prática o que já se discute há décadas na teoria.

Algumas experiências, tanto no ensino público quanto no privado, de mudanças pedagógicas e metodológicas apresentaram bons resultados no processo ensino-aprendizagem. Assim, compreender quais foram essas mudanças talvez nos traga a resposta que esperamos sobre o futuro da educação no Brasil. Não há fórmula mágica, há pesquisa, estudo e investimento.

A suspensão das aulas presenciais fez com que as instituições aderissem ao ensino remoto. Na prática, o que se viu foram professores sem preparo para lidar com as ferramentas digitais, alunos e docentes sem equipamentos como notebook ou celular, acesso à internet banda larga ou mesmo a pacote de dados, insuficientes para o acompanhamento das aulas, quadro decorrente da desigualdade social. Naquelas em que foi possível contar com estes recursos, os educadores buscaram alternativas para poder cumprir o planejamento letivo.

Sem dúvida, o ano foi de muitas perdas, na saúde, na economia, no meio ambiente, na cultura e na educação. Em meio a esse cenário negativo, porém, as demandas exigiram alternativas e, muitas destas, talvez permaneçam no campo educacional. Uma que possivelmente será adotada por instituições de ensino superior é o ensino híbrido. Já presente em algumas universidades, o ensino híbrido se caracteriza por aulas em que uma parte do conteúdo é apresentada de forma virtual- por meio de plataformas de aprendizagem- e a outra é discutida presencialmente com mediação do professor. A sala de aula invertida também é uma metodologia que exige essa alternância entre o presencial e digital.

Idealizador do método, Jonathan Bergmann propõe um modelo em que o espaço físico da sala de aula sirva para que o professor estimule os alunos a discutir e aplicar o conhecimento estudado em casa no dia anterior, por meio de vídeos ou leituras, por exemplo.

As diferentes metodologias- sala de aula invertida, aprendizagem baseada em problemas ou projetos, gamificação, design thinking- têm em comum uma abordagem pedagógica que propicia ao aluno um papel ativo no processo ensino-aprendizagem, que o estimula a ser protagonista da sua trajetória escolar e acadêmica, além de autônomo na busca pelo conhecimento. Independentemente da metodologia adotada, o docente se mantém como fundamental nesse processo, como mediador do conhecimento.

Isso significa eleger a prática dialógica como norteadora do processo ensino-aprendizagem e responsável pela sustentação da relação professor-aluno.

Assim sendo, a resposta que buscamos para a pergunta “O que será da Educação após a pandemia?” já está respondida, basta nos aproximarmos do que já propuseram educadores e pesquisadores como Paulo Freire, David Bohm, Martin Buber, e nos regermos pelo princípio dialógico. Se antes nós, professores, acreditávamos que bastava o conhecimento da matéria para se dar uma boa aula, hoje, com a internet, e todo conteúdo à disposição dos alunos, isso definitivamente deve ser repensado. Nossa função é problematizar, dialogar, promover a reflexão, visando a uma ação transformadora de todos: professores, alunos, pais, enfim, de toda a sociedade.

*Maira Mariano, pesquisadora e docente das áreas de Comunicação e Letras da Universidade São Judas

Notícias relacionadas

Tudo o que sabemos sobre:

Artigoeducação

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: