Resoluções de ano-novo

Resoluções de ano-novo

Carlos Fernando dos Santos Lima*

20 de janeiro de 2021 | 05h00

Carlos Fernando dos Santos Lima. FOTO: INAC/DIVULGAÇÃO

Presente sempre nos últimos anos, costumo nesta época fazer algumas resoluções para o ano que inicia, tudo na falsa esperança de corrigir meus maus hábitos. Normalmente esses planos são para corrigir tantos defeitos que na verdade já são parte de mim, que esses desejos naufragam antes mesmo de terminar janeiro. Mas estão ali, muitas vezes como plano de fundo do meu computador, a me lembrar de tantas boas intenções e que o tempo está passando sem que eu as atinja.

Faço diferença também entre desejos, metas e resoluções. Esta última refere-se a ações que devo tomar para atingir as metas, que são concretamente definidas, com prazos e quantificáveis. Já os desejos, como todos os desejos, estão ali como o pote de ouro no fim do arco-íris, definindo um caminho, mesmo que seja para um destino inalcançável – pelo menos não para mim.

E me peguei neste começo de ano pensando no que desejo para este país. O que primeiro me surgiu foi o anseio de vê-lo livre dessa discussão ideológica sem sentido, antiquada e sem utilidade, entre esquerda e direita. Antes de mais nada, em economia pouco importa se o gato é preto, branco ou pardo, desde que cace ratos. É claro que há divergência entre quais os ratos devem ser caçados antes – o velho dilema entre o crescimento do bolo e sua distribuição, mas com certeza a eliminação das desigualdades extremas é compartilhada por todas as teorias econômicas.

Entretanto, se algumas correntes de pensamento econômico e social têm maior clareza quando ao diagnóstico dos problemas brasileiros, outras tem os instrumentos necessários para alcançar efetivamente esses valores. Assim, alguns percebem que a desigualdade extrema e a falta de mobilidade social impactam nossa democracia, mas insistem em uma intervenção dirigente do Estado, em todos os casos autoritária e quase sempre ineficiente; e outros, em compensação, sabem que o caos do livre mercado, com cada agente econômico procurando otimizar seus resultados, resultará em maior crescimento e, portanto, em maior riqueza geral. Entretanto, estes últimos não percebem que o capitalismo sem freio leva ao abuso do poder econômico em detrimento da concorrência e do próprio livre mercado, sendo necessário que haja um árbitro para manter a economia dinâmica.

Muitos irão dizer que esse liberalismo não funciona. Isso é parcialmente verdade, pelo menos no Brasil, pois, apesar da nossa Constituição falar em livre mercado, não temos historicamente qualquer período de real capitalismo no país. O que temos é o chamado “capitalismo de compadrio”, o modelo existente em toda história republicana e uma contradição em seus próprios termos. Livre mercado não existe em um sistema que privilegia compadres e correligionários – ou pior – que privilegia aqueles que pagam propina para receberem favores públicos. Livre mercado é um caminho que não aceita a escolha pelo Estado de “campeões nacionais” ou que restringe a competitividade mediante barreiras injustificáveis contra produtos e serviços internos e externos.

O que temos é um modelo falido em que interesses privados, ora de um empresariado sem virilidade, ora de um sindicalismo chapa-branca, se apropriam de governos para fazerem valer seus interesses mesquinhos, especialmente o de se manterem às custas do erário público em detrimento do restante da população. Fala-se contra a globalização e o liberalismo no Brasil, mas nunca realmente experimentamos realmente esses fenômenos no Brasil. Assim, todos esses atores, empresários, sindicalistas e políticos, crescendo em um ambiente de negócios em que as relações com o poder não são institucionais, unem-se contra o Estado e a população, impingindo-lhes um imposto disfarçado no preço de bens e serviços chamado corrupção.

Aqui então surge meu segundo desejo de ano novo para o Brasil. Minha esperança é que possamos em 2021 começar a retomar este país das mãos dos esquemas de corrupção que assolaram o país e que continuam nos ministérios, nas bancadas parlamentares e nos altos escalões dos partidos políticos. Tivemos desde 2018 com o pacto Tóffoli-Maia, ao qual aderiu Jair Bolsonaro logo que se descobriu o esquema familiar da rachadinha, a destruição paulatina da independência da Polícia Federal e da Procuradoria Geral da República, com a escolha de pessoas não qualificadas para o cargo e subordinadas ao poder político, mas também com a aprovação de medidas que solaparam o edifício legislativo razoavelmente sólido de combate ao crime organizado e à corrupção existente até 2018, o qual tinha permitido pela primeira vez de modo sistemático investigar, processar e condenar políticos corruptos.

Para isso precisamos retomar a indignação cívica de 2013, pois só resta a nós, população, alguma vontade de mudar. Não podemos esperar que algo de realmente bom venha desse desgoverno do inepto presidente Jair Bolsonaro. Seu único plano de governo é boicotar qualquer vacina contra a pandemia e facilitar a venda de armas para a população. Não podemos contar com um grupo expressivo de parlamentares que realmente queiram mudanças, pois os poucos gatos-pingados que realmente possuem espírito cívico são colocados de lado por uma cúpula dirigente comprometida com a manutenção desse sistema corrupto. Não podemos sequer esperar muito do Ministério Público e da Polícia, amordaçados por ameaças de procedimentos administrativos e sem qualquer proteção de suas cúpulas. Nem mesmo com boa parte da imprensa pode-se contar, pois nunca houve um momento como este em que, enquanto algumas de suas redações sobejam de maniqueísmo ideológico, cada vez mais sua audiência vem enfraquecendo em favor de manipuláveis redes sociais.

Enfim, mesmo com todas as dificuldades, o que desejo para este ano é que recomecemos a luta pelo Brasil. Para isso precisamos superar muita coisa errada, muito mais que caberia em uma lista de resoluções de ano-novo. Tanta coisa que chega a desanimar. Mas para que serve o começo do ano se não para sonhar com desejos impossíveis? Como disse, essas mudanças são o pote de ouro no fim do arco-íris, e não as espero ver se realizarem na minha geração, nem na dos meus filhos. Mas sempre a cada ano renovam-se as esperanças que possamos iniciar a única revolução que este Brasil precisa: a revolução ética em busca um país mais justo.

*Carlos Fernando dos Santos Lima é advogado na área empresarial, compliance, crimes do colarinho-branco e investigações internas. Foi procurador da República premiado por sua atuação na Operação Lava Jato

Este artigo faz parte de uma parceria entre o blog e o Instituto Não Aceito Corrupção (Inac), com publicação periódica. Acesse aqui todos os artigos.

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