Resistir ao Planalto

Resistir ao Planalto

Angel Machado*

24 de novembro de 2020 | 05h15

Angel Machado. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Certas palavras envelhecem com o tempo – indignação, por exemplo. Chegou a hora de confrontarmos as nossas referências para percebermos que tipo de nação somos. O momento exige que não tenhamos uma vida alheia ao que acontece fora da nossa bolha. A manifestação por escrito não ultrapassa mais de cinquenta linhas, mas, há um veredicto para o que fica escrito – memória.

Por mais repetitiva que eu seja, escrever sobre política e opinar, mesmo que relativamente, sobre a democracia mistificada é uma forma de descompressão. Os caminhos e as escolhas nem sempre são compatíveis, embora, eu não tenha mais argumentos cabíveis para dirigir-me como oposição a um governo desestimulante e atroz.

As notícias trazem o empobrecimento de repertório do chefe de Estado, e não há solidariedade com quem se indigna com tais manifestações. O esforço para ser cordial é trágico e com isso vamo-nos acostumando a ouvir impropérios e rejeitando o nosso senso de justiça e dignidade. O cidadão brasileiro merece exemplos de competência e honestidade, embora, sejam virtudes do bom político, estão desgastadas pelo tempo e mau uso.

Para qualquer pessoa minimamente esclarecida é fácil de perceber que o Brasil está no seu pior momento como Estado Democrático de Direito.

Há um ano, eu escrevia que a democracia era capaz de regenerar um país fadado às demandas de corrupção numa agenda política desfavorável à população trabalhadora, talvez não. A democracia é, apenas, um estado permanente que consolida a nossa expressão de liberdade, concomitante com o desejo de sermos governados por homens bons.

A questão fundamental a seguir é que todos podem ter opiniões diferentes num sistema democrático, mas, atualmente, os aptos a votarem deveriam quebrar o movimento do poder pelo poder, mas, não estamos suficientemente politizados. A estrutura política de um estado permissivo e excludente, entretanto, corrupto, vulgar e aparentemente inalterado há anos, exige um coro favorável para que um dia voltemos a pensar em Ordem e Progresso.

Falhámos, e isso gerou um resultado desastroso para o Brasil. O Bolsonaro foi eleito – fato -, e, também, sabemos que uma boa parte dos votos foi uma espécie de repúdio, e, como tal, os dias têm sido árduos. Desde então, o pingado, o jornal impresso, o noticiário e tudo o que é possível de alcançar o cidadão comum não basta. É uma barreira natural do homem se decompor e fazer de conta que está tudo bem, mas, sabemos que não está.

É preciso fazer o elementar, mas, para isso, o exercício de mudar o status quo de um país com raízes profundas na corrupção é mesmo desafiador e urgente. O Brasil precisa de uma personalidade forte e honrada no Palácio do Planalto, não conheço nenhuma, mas, há de nascer.

*Angel Machado é jornalista e escritora

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.