Resgate do oblívio

Resgate do oblívio

José Renato Nalini*

01 de fevereiro de 2021 | 10h30

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

O Brasil do imediatismo consumista menospreza o passado. A teia de interesses cultiva o presente e o futuro próximo que se detecte. Condena ao oblívio o que mereceria culto e reverência.

Não são apenas nomes e fatos sepultados no esquecimento. São valores, são modelos que poderiam inspirar uma juventude perplexa, diante de tanta mediocridade e péssimos exemplos fornecidos pelos que merecem os holofotes midiáticos e a falaciosa fama das redes sociais.

Por isso é que reveste singular relevância a tentativa da lucidez que ainda persiste na sociedade brasileira, de resgatar vultos históricos, assim como o santista Alexandre de Gusmão (1695-1753), alvo de um primoroso estudo de Synésio Sampaio Góes Filho.

O livro conta com prefácio de Rubens Ricupero, que assinala: “Em vida, Alexandre de Gusmão não alcançou recompensa nem reconhecimento pelo que fez. Morreu no ostracismo, com dificuldades financeiras”. O que não é novidade para um país que hostiliza a cultura e cultua a mediocridade tosca.

O reexame da memória de Alexandre de Gusmão, além de comprovar a dimensão de seu papel no redesenho do território do Brasil, é um estímulo a quem já não encontra, na atualidade, paradigmas dignos de motivarem os desejosos de outros parâmetros na vida pública.

Synésio encadeou capítulos instigantes, cada qual a evidenciar um aspecto suscetível de comparação com nossos dias. Inicia com o olhar no conjunto, detém-se sobre o Brasil na época de Gusmão e, em seguida, examina o que era a metrópole lusa. Incursiona pela redescoberta do estadista, recupera os fragmentos biográficos que antecedem a sua ação diplomática junto a D. João V, seu papel como secretário d’el rei e o tirocínio de Alexandre de Gusmão, ao encarar a urgência de fixar limites para a colônia. Havia muita incerteza e oscilação no que tange às fronteiras: “Em resumo: ocupações territoriais, mapas artesanais ou científicos, ilhas Brasil mais ou menos amplas… o certo é que, na primeira metade do século XVIII, os luso-brasileiros haviam ultrapassado e muito a linha de Tordesilhas”.

Enfoque sedutor é a posição paulista, pouco explorada. Esquece-se “que a capitania de São Paulo, nesse período da nossa história, compreendia toda a região onde iriam se constituir os atuais estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná, Santa Catarina e o Rio Grande do Sul”. É a “Paulistânia” que parece ter gerado ambígua ciumeira, acentuada a partir de 1932.

Vale a pena refletir sobre o mito da “ilha Brasil”, objeto de minuciosa apreciação de Synésio. A consistente formação de Alexandre de Gusmão foi fundamental para que se chegasse ao Tratado de Madri, que garantiu ao Brasil mais de dois terços de seu território. Embora firmado em 1750, em meados do século XVIII, “a pormenorização da imensa linha de quase 16 mil quilômetros é precisa para os meios da época, revelando o ‘vertiginoso’ conhecimento que Gusmão tinha das fronteiras do Brasil”.

O Tratado de Madri é objeto de pormenorizada análise feita pelo diplomata Synésio Góes e, a despeito de suas vicissitudes posteriores, ; nosso mapa, em linhas gerais, o das Cortes. “Nossas fronteiras, basicamente, são as do Tratado de Madri. A obra de Gusmão, que parecia ter tido uma morte precoce, na verdade está tendo uma próspera vida”.

Em virtude da proximidade por vinte anos ao poder real, era homem de confiança de Dom João V, Alexandre de Gusmão sofreu o que costumam sofrer aqueles que convivem com a autoridade. Requisitados e adulados enquanto podem atender aos áulicos, a perda de influência acarreta a sequela conhecida: ingratidão, desprezo e maledicência. Conquistou inimizade do onipotente Marquês de Pombal, o que perdurou até depois de sua morte. Pombal se opunha ao Tratado de Madri e atuou para anulá-lo.

Todavia, pondera Synésio: “Para nós brasileiros e também para os portugueses, o grande feito de Alexandre de Gusmão foi ter conseguido legalizar o alargamento imenso do território do Brasil”. Nada obstante os bandeirantes, a colonização e a ação dos missionários, foi o Tratado de Madri, obra gerada pela devoção de Alexandre de Gusmão, que conferiu certeza às nossas indefinidas fronteiras. “Um acordo dessa dimensão é sem paralelo na história universal. Poucos fizeram tanto pela grandeza do Brasil”.

O exercício prazeroso e saudável para os brasileiros que enxergam o presente com ceticismo e se desencantam com a cornucópia de malfeitos, é a leitura de “Alexandre de Gusmão – (1695-1753) – o estadista que desenhou o mapa do Brasil”, editora Record. Mas Synésio fez mais: elaborou uma preciosa síntese da vida desse patriota santista : “Alexandre de Gusmão – Estadista e Literato”, o volume 3 da coleção APL, publicada pela Imprensa Oficial. Repositório de vidas singulares dos imortais da Academia Paulista de Letras.

Os dois livros são alavancas propulsoras de renovação na confiança do futuro brasileiro. Se já fomos tão melhores, por que não voltar a sê-lo?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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