Resgate afetivo

Resgate afetivo

José Renato Nalini*

03 de junho de 2022 | 09h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

A celebração dos duzentos anos da Independência propicia o resgate de vultos históricos dos quais o Brasil do desmatamento não pode se esquecer. Um dos principais é o da Imperatriz Leopoldina  (1797-1826), mãe de Pedro II e primeira esposa de Pedro I, a quem coube separar o Brasil de Portugal.

Ela descendia dos Habsburgos e nasceu no belíssimo castelo de Schöenbrun, onde também morou Sissi, que Romy Schneider celebrizou na série de filmes que encantava os adolescentes nas décadas de sessenta/setenta.

A irmã da Arquiduquesa Leopoldina, Maria Luíza, veio a se casar com Napoleão. Antes mesmo de Pedro, filho de D. João VI, completar dezoito anos, já se falava em seu casamento. O duque da Calábria, príncipe herdeiro das Duas Sicílias, queria casar uma de suas filhas e mostrou interesse nesse matrimônio. Da mesma forma, a Rainha Regente da Etrúria gostaria de que o jovem fosse seu genro. Mas o Brasil estava mais interessado na Casa d’Áustria. Foi então encarregado o Marquês de Marialva a levar a carta com a pretensão do Reino Unido de Portugal, Algarve e Brasil.

Uma aliança com a Áustria, que encabeçava a Santa Aliança, viria contrabalançar a influência da Grã-Bretanha. Por isso, Marialva recebeu liberação para gastar o quanto fosse, para mostrar o excelente estado das finanças lusas. Marialva mandou vir de Paris e Lisboa tudo quanto podia aumentar a suntuosidade da ocasião.

Leopoldina sabia que o casamento era político. Mas animou-se porque o noivo era jovem e filho de um soberano que fora inimigo do maior inimigo de seu pai. As núpcias foram celebradas em 13 de maio de 1817, na capela do Palácio Imperial de Viena. O Príncipe D. Pedro foi representado pelo arquiduque Carlos. Leopoldina permaneceu ainda vinte dias em companhia de seus pais, após o que empreendeu a viagem da qual se afastou da Pátria, à qual nunca mais regressaria. A travessia do Atlântico levou três meses. Leopoldina chegou ao Rio no dia 5 de novembro de 1817.

A jovem adaptou-se à vida, clima e costumes tupiniquins, resignando-se com as deficiências da Corte de Bragança, em tudo inferior à de Viena. Ela continuou seus estudos científicos, aos esportes e à caça. Gostava de passear pelos campos, montanhas e florestas.

Diz a lenda que Pedro I não soube amá-la como merecia. Ela chorou muitas vezes, em virtude de sua escandalosa vida de conquistador. Isolada numa Corte de maldizentes, descuidou-se da aparência e da elegância vienense. Era devota de Nossa Senhora da Glória, motivo pelo qual assim batizou sua primeira filha. O sogro a tratava paternalmente e quando de seu retorno a Portugal, Leopoldina percebeu que chegara a hora de romper os laços do Brasil com a metrópole.

Chegam à Colônia os famosos decretos que suprimiam os mais importantes tribunais do Rio e ordenavam o retorno de Pedro a Portugal, a fim de completar a sua educação. Quando a cidade teve conhecimento desses decretos, começaram os brasileiros a agir. Incentivaram Pedro a desobedecer às Cortes. No dia 1º de janeiro de 1822, o Príncipe Regente recebeu um ofício da Junta Provisória do governo de São Paulo, datado de 24 de dezembro de 1821, pedindo para que ele ficasse no Brasil. No dia 9 de janeiro de 1822, uma representação redigida no Convento de Santo Antonio, por Frei Francisco Sampaio e assinada por oito mil pessoas. Foi lida no Paço da Cidade e José Clemente Pereira fez um discurso enérgico e patriótico, que terminou com este brado: “O navio que reconduzir o Príncipe Real, aparecerá no Tejo com o pavilhão da independência do Brasil”.

A resposta, todos sabem: “Como é para bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico”. A sequência também é conhecida: Leopoldina atuou de maneira efetiva e persuasiva. Pedro declarou a independência do Brasil. Leopoldina, louca de alegria ao ver o marido de volta à Corte, abraçou-o chorando convulsivamente. Leopoldina, pela sinceridade com que esposou a nossa causa, merece mais gratidão do povo brasileiro. Os que a conheciam a chamavam de ’mãe dos brasileiros’.

Desde o nascimento de Pedro II, Leopoldina não andava bem de saúde. Durante a ausência do marido, em viagem pelo Sul, abortou de uma criança do sexo masculino. Em 11 de novembro de 1826, às dez horas da manhã, faleceu a Imperatriz, nos braços do bispo Dom José Caetano. O “Diário Fluminense” publicou um boletim com os dizeres que seguem: “Pela maior das desgraças se fez publicar que a enfermidade de Sua Majestade, a Imperatriz resistira a todas as diligências médicas, empregadas com todo o cuidado, por todos os médicos da Imperial Câmara. Foi servido assim pelas dez horas e um quarto”. Assinou o Barão de Inhomerim.

Invencionice a versão de que ela faleceu em virtude de um chute que lhe desferira o Imperador. Ela faleceu de complicações que antecederam ao parto. Morreu com trinta anos de idade. Decretou-se luto por seis meses e os tribunais foram fechados por oito dias.

Na mesma noite em que ela foi sepultada, começou a se espalhar que havia sido envenenada pela Marquesa de Santos. Em virtude disso, a residência de D. Domitila de Castro e Canto passou a ser assaltada e apedrejada.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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