Resgate à ética em tempos de covid-19

Resgate à ética em tempos de covid-19

Thaís Moura Carreira*

22 de maio de 2020 | 06h00

Thaís Moura Carreira. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Hoje é o dia 60 da quarentena, dia em que o Brasil registra pela primeira vez mais de 1.000 mortes por coronavírus, dia em que o país se torna o terceiro em termos de contágio da doença no mundo e, incrivelmente, dia em que as de notícias sobre fraude nas compras de suprimentos médicos no Estado do Rio de Janeiro é exposta nos principais jornais do país.

Durante esses duros tempos de pandemia, a polarização está presente em quase todos os debates, construindo um cenário autodestrutivo, onde a economia diverge da saúde e política e ciência são antagônicas. Por entender que essa eterna dicotomia não contribui para o fim do caos, tendo como resultado somente a criação de um ambiente ainda mais pesado e sem compaixão, o presente artigo tem como objetivo buscar uma reflexão sobre valores éticos e morais.

O isolamento social vem sendo capaz de provocar diversas alterações nos nossos hábitos, trazendo à tona lembranças da infância, criando maior empatia, fortalecendo os laços familiares e de amizade e demonstrando a imprescindibilidade da arte. E o que tudo isso tem em comum?

É certo que estamos enxergando com maior facilidade o que é essencial, retornando às nossas origens e valorizando o que sempre importou e que muitas vezes ficou em segundo plano em detrimento de outros compromissos, que distraiam nossas mentes daquilo que nunca deveria ter deixado de ser o foco. Nesse momento, em que olhamos as fotografias em busca de memórias dos nossos melhores momentos, é que devemos revisitar nossos valores.

A miopia da sociedade e a necessidade de uma ascensão social a todo custo fazem a visão sobre a ética e a moral ficarem distorcidas. Hoje, a ambição tanto por poder, quanto por bens materiais se sobrepõe aos valores mais básicos, dentre eles, a integridade. Esta, repassada às crianças desde seus primeiros anos de vida, é um dos ensinamentos mais valiosos para a criação de uma sociedade justa e menos desigual e que com o passar do tempo é valorizada e respeitada em diferentes intensidades.

Viver em sociedade é combater e viver dilemas éticos reiteradas vezes. Não olvidar as origens e os princípios que trazemos de nossa base constituem, ao mesmo tempo, um desafio e um dever cívico. Não permitir que as liberdades coletivas sejam atingidas por liberalidades individuais é um ato de coragem atualmente, mas que deveriam, desde sempre se tratar de uma obrigação e um dever moral.

Em situações de crise, como as que passamos hoje, não deve haver balanceamento de valores, uma vez que a manutenção da ética é necessária para a própria perpetuação do sistema, que não sobrevive saudável se fraudes acontecerem. As classes menos abastadas, normalmente, são as que mais sofrem e dessa vez, não será diferente. Todavia, com a crise econômica que bate à porta e é uma realidade para grande parte dos brasileiros, as consequências de atos de improbidade atingirá de maneira mais direta o dia-dia da população, que sofrerá drástica e dolorosamente as consequências da ganância, da ambição, do individualismo e da falta de moral de alguns.

E o questionamento que surge nesse momento gira em torno de quais atitudes podem ser tomadas para atenuar as consequências de atos fraudulentos e quais medidas preventivas são cabíveis. Permanecer na inércia não é mais uma opção e fazer desse momento um marco de mudança de comportamento é uma necessidade.

Nesse sentido, para a população em geral, resta cobrar e acompanhar diariamente as atitudes, tanto dos agente públicos, quanto das pessoas de sua convivência, além de divulgar e apoiar as mais diversificadas, bem intencionadas e criativas iniciativas que tem sido criadas para amparar a população. Já às empresas, cabe reforçar não só a valorização da ética, mas também de forma ainda mais forte, frisar a inadmissibilidade de atitudes imorais e ilegais. É o momento de adotar medidas preventivas e de monitoramento para garantir a ausência de conflitos de interesse capazes de influenciar nas decisões, ficando atentos às doações e aos regramentos concorrenciais.

A luz em meio a toda essa escuridão ainda parece distante, mas se afastar das discussões, apesar de confortável, somente perpetua o individualismo que por muitos anos esteve no topo das prioridades, sendo um dos responsáveis pelo precário estado da saúde, da política e da economia. Escrever sobre o assunto nesse momento é externar a incredulidade com o que estamos vivenciando e buscar, de acordo com o que está ao alcance, provocar reflexões relevantes. Acreditar nos valores e na humanidade que habita cada um de nós é a única alternativa que possuímos.

*Thaís Moura Carreira, profissional da área de Compliance, advogada graduada pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Direito Privado Patrimonial na PUC/RJ

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