‘República dos Caranguejos’, segundo Cerveró

‘República dos Caranguejos’, segundo Cerveró

Delator da Lava Jato relata disputa pelo topo da Petrobrás e afirma que ex-presidente da estatal José Sérgio Gabrielli, deu 'apoio financeiro' a Jaques Wagner para se eleger governador da Bahia em 2006 pelo PT a partir de desvios

Ricardo Brandt, Julia Affonso, Mateus Coutinho, Gustavo Aguiar e Isadora Peron

03 de junho de 2016 | 05h30

montagemgabrielliwagner

José Sergio Gabrielli (esq) e Jaques Wagner (dir). Foto: Estadão

O ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró afirmou em delação premiada que a campanha de governador da Bahia em 2006 do ex-ministro Jaques Wagner (PT) recebeu recursos da comercialização de petróleos e derivados no mercado internacional por intermédio do ex-presidente da estatal José Sérgio Gabrielli.

Em 2006 Jacques Wagner era o azarão, o terceiro colocado nas pesquisaas de intenção de voto para o governo da Bahia. Que o apoio financeiro dado por Gabrielli foi o que permitiu Jacques Wagner vencer a eleição, contra os prognósticos iniciais”, afirmou Cerveró, em seu termo de colaboração 31, fechado com a Procuradoria Geral da República e tornado público nesta quinta-feira, 2, por ordem do ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal.

Ex-diretor da área Internacional de 2005 a 2008 e executivo da BR Distribuidora de 2009 a 2014, Cerveró afirmou que Wagner “teve participação decisiva na indicação de Gabrielli para a presidência da Petrobrás”.

[veja_tambem]

“Ambos integravam a chamada ‘República dos Caranguejos’, ao lado de Marcelo Déda (governador de Sergipe, morto em 2013) e Humberto Costa (senador de Pernambuco).” – todos membros do PT.

Cerveró afirma que o termo veio da disputa pela presidência da Petrobrás, em 2005, com a saída de Eduardo Dutra. “Houve uma disputa grande para o cargo. O nome de Gabrielli foi apoiado pela ‘República dos Caranguejos”, contou o delator. Ele disputava com Rodolfo Landim, então presidente da BR, que teria sido apoiado pela presidente afastada Dilma Rousseff e por Aluisio Mercadante (PT-SP).

Cerveró não apresenta provas em sua delação desses supostos repasses feitos para a campanha de Jaques Wagner, por ação de Gabrielli – que também é da Bahia. Mas deu pistas sobre o suposto caminho do dinheiro.

“Esse apoio financeiro se deu por recursos obtidos através do trading internacional da Petrobrás, que era controlado pela área de Abastecimento”, afirmou, apontando para a diretoria então sob presidência do engenheiro Paulo Roberto Costa.“Esse trading é o que opera a comercialização de petróleo e derivados no mercado internacional. O grupo que controlava o trading internacional era ligado a Rogério Manso, então assessor de Sérgio Gabrielli.”

O assessor foi apontado como “uma espécie de eminência parda”. “Manso era da diretoria anterior, mas foi mantido como assessor de Sérgio Gabrielli pelo fato de ‘produzir propinas enormes’.O definiu o grupo de trading internacional como ‘impenetrável, um bunker’.

Cerveró explicou que os volumes comercializados pela área de venda de combustíveis e derivados no mercado internacional “são gigantescos” e qualquer “alteração de centavos no preço de comercialização de um barril” resulta em grandes diferenças de valor na aquisição final. “Aí reside uma grande margem para propinas, por se tratar de um grande volume de recursos e de difícil controle”, afirmou o ex-diretor de Internacional da estatal.

“Grande parte desses recursos foi usada na campanha de Jacques Wagner em 2006.”

Cerveró apontou, ainda, como fonte de recursos suspeitos na campanha de Wagner, em 2006, a construção do prédio da Petrobrás em Salvador para servir de sede do setor financeiro da estatal.

“(O negócio) também gerou aportes para a campanha de Jacques Wagner”, diz o delator, que atribuiu a decisão de levar o setor para a Bahia e de construir o prédio ao ex-presidente da estatal. “Não havia nenhuma necessidade de mudança da área financeira da Petrobrás para Salvador.”

Cerveró diz ter certeza de que Gabrielli repassou recursos para a campanha de Wagner. “Foi uma decisão de Sérgio Gabrielli para beneficiar a candidatura de Jacques Wagner e sua própria futura e eventual candidatura. Tem certeza de que a transferência da área financeira da Petrobrás para Salvador foi para atender pretensões eleitorais de Jacques Wagner e Sérgio Gabrielli, mediante levantamento de recursos para suas campanhas.”

O delator disse não ter “informações mais detalhadas sobre como se deu esse levantamento de recursos”.

O ex-ministro Jaques Wagner não foi localizado para comentar o caso.

COM A PALAVRA, JOSÉ SÉRGIO GABRIELLI:

“O delator Nestor Cerveró faz um conjunto de aleivosias e insinuações, sem nenhum fato concreto que indique qualquer comportamento ilegal e inadequado de minha parte. Vejamos as confusões mentais da delação do reu confesso:

1. Conheço o ex-Governador e ex-Ministro Jaques Wagner há muito tempo. É verdade. e isto não significa nenhum crime.
2.A minha escolha para a sucessão de Jose Eduardo Dutra foi uma escolha dele e do Presidente Lula.
3. Desconheço a expressão “Republica dos Carangueijos”.
4. O ex- Governador Jaques Wagner venceu a eleição no primeiro turno de 2006.
5. O Rogério Manso era diretor de Abastecimento na Diretoria do tempo de FHC e nunca teve, ao meu conhecimento, comportamento partidário, sendo claramente simpatizante do ideário do PSDB, com severas criticas ao PT.
6. Na atividade de Assessor não tinha ação direta sobre as chamadas operações de trading, mencionadas, sendo portanto uma ilação descabida.
7. A transferencia de parte das atividades financeiras para Salvador decorreu de um estudo da então Diretoria Financeira, que indicava a redução de custos para a companhia.
8. Diferente do que insinua a confusa delação, esta transferencia ocorreu alguns anos depois da eleição de 2006, sendo concluida a construção do prédio, pela Petros, e não pela Petrobras em 2011, cinco anos depos das eleições referidas.
9. O disse-que-me-disse, o ouvir dizer, não tem fuindamento que o proprio delator reconhece não saber em detalhes o que está insinuando, como comportamento inadequado. Não consegue identificar quem fez a operação fraudulenta, nem como ocorreu, porque simplesmente ela não existiu.
10. Em suma, trata-se de um conjunto de ilações sem fundamento, que serão desmontadas inteiramente por qualquer investigação ”

COM A PALAVRA, ROGÉRIO MANSO

“Em relação aos trechos da delação de Nestor Cerveró com referências a mim citados no seu blog hoje, gostaria de esclarecer que, ao contrário do que afirma o delator, jamais ocupei função ligada a Sérgio Gabrielli. Ao deixar a Diretoria de Abastecimento em maio de 2004 assumi por um curto período de 6 meses a função de Assessor da Presidência, reportando diretamente a José Eduardo Dutra.

Assumi em novembro de 2004 a Gerência Executiva de Gás e Energia subordinada ao diretor Ildo Sauer, aí permanecendo até me afastar por iniciativa própria da Petrobras, em fevereiro de 2007.

Desde que deixei o Abastecimento, em maio de 2004, não tive contato ou atuação, direta ou indireta, com o trading de combustíveis e petróleo da Petrobras. Orientei minha carreira para novas atividades, desde o gás e energia, à implantação de projetos de renováveis, área em que atuo desde 2007.

Durante minha carreira, incluindo o período em que fui reponsável pela área de Abastecimento, jamais realizei ou permiti que alguém realizasse qualquer ato ilícito que pudesse prejudicar a Companhia a que servi, com orgulho, durante 28 anos. Nunca precisei de apoio político para progredir; como empregado concursado e com experiência nas áreas em que atuei, sempre exerci minhas atribuições de forma leal e honesta.

Prevalecendo a justiça, espero que essas acusações mentirosas e difamatórias de Nestor Cerveró gerem consequências comensuráveis em sua delação premiada.”

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: