Renato Duque relatou que Lula sabia de tudo, diz ex-líder do governo

Delcídio Amaral relatou a juiz da Lava Jato ter ouvido de ex-diretor de Serviços da Petrobrás, que seria indicado pelo PT, ligação de ex-presidente com esquema de desvios na estatal

Julia Affonso, Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Mateus Coutinho

22 de novembro de 2016 | 04h13

O ex-diretor da Petrobrás Renato Duque

O ex-diretor da Petrobrás Renato Duque, em audiência com Sérgio Moro / Reprodução

O delator Delcídio Amaral (ex-PT-MS) afirmou em audiência com o juiz federal Sérgio Moro, nesta segunda-feira, 21, que o ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque disse que Luiz Inácio Lula da Silva sabia do esquema de arrecadação de propinas na estatal, por partidos da base aliada do governo, em especial PT, PMDB e PP. Ex-líder do governo Dilma Rousseff no Senado e ex-PT do Mato Grosso do Sul, ele foi ouvido como primeira testemunha de acusação da Operação Lava Jato contra o ex-presidente, em Curitiba, em ação penal do caso do tríplex do Guarujá (SP) – pago pela OAS.

Questionado por um advogado de defesa se Delcídio poderia citar o nome de uma pessoa que disse ele “olha, o presidente sabe de tudo, porque eu presenciei”.

“Renato Duque”, respondeu imediatamente, o delator.

“Não… Renato Duque…isso, isso, é outro colaborador…”, tentou remediar, o advogado, antes de ser corrigido. “Não, não é delator.”

“Ele respondeu o que o doutor perguntou”, intercedeu o juiz Sérgio Moro.

Ex-diretor. Duque está preso desde abril de 2015 em Curitiba, acusado de ser o principal indicado do PT no esquema de arrecadação de propinas na Petrobrás. Ele tenta pela terceira vez um acordo de colaboração premiada com procuradores da força-tarefa da Lava Jato, mas sem sucesso até aqui.

O representante da defesa tentou argumentar que Delcídio estava formando juízo próprio ao afirmar que Lula tinha conhecimento e participação no esquema de corrupção na Petrobrás.

“Era absolutamente sabido. Vários partidos procuravam o presidente Lula quando seus protegidos não correspondiam àquilo que foi combinado”, afirmou Delcídio.

Segundo ele, após o mensalão, as diretorias foram usadas para garantir a governabilidade e a base do governo Lula. “O presidente Lula no mensalão, era a tese do não sabia, ele só escapou por causa de uma cordo político que votou o relatório da CPI do Mensalão.”

Delcídio disse acreditar que na Lava Jato “vai ser muito difícil a desculpa do ‘não sei’, que ela prevaleça”.

Sabia. O ex-líder do PT no Senado confirmou que existia uma “estrutura montada” no governo Lula para “bancar as estruturas partidárias” e que o ex-presidente “tinha um conhecimento absoluto de todos os interesses que rodeavam a gestão da Petrobrás”.

“O presidente não entrava nos detalhes, mas ele tinha um conhecimento absoluto de todos os interesses que rodeavam a gestão da Petrobrás e as diretorias e os partidos que apoiavam os diretores”, afirmou Delcídio, ao falar sobre o grau de ingerência de Lula no esquema de propinas na Petrobrás.

Delcídio foi a primeira testemunha de acusação no processo contra Lula, dona Marisa Letícia e outros seis réus, no primeiro processo da Lava Jato, em Curitiba, contra o petista. Também são acusados o ex-presidente da OAS José Adelmário Pinheiro, o Léo Pinheiro, funcionários da empreiteira e o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto. Foram ouvidos ainda o empresário Augusto Mendonça, do Grupo Setal, e os ex-executivos da Camargo Corrêa Dalton Avancini e Eduardo Leite – todos delatores.

As acusações contra Lula são relativas ao recebimento de vantagens ilícitas da empreiteira OAS por meio de um triplex no Guarujá, no litoral de São Paulo, e ao armazenamento de bens do acervo presidencial, mantidos pela Granero de 2011 a 2016.

O petista é acusado corrupção passiva e lavagem de dinheiro no esquema de cartel e propinas na Petrobrás. A denúncia do Ministério Público Federal sustenta que ele recebeu R$ 3,7 milhões em benefício próprio – de um valor de R$ 87 milhões de corrupção – da empreiteira OAS, entre 2006 e 2012.

COM A PALAVRA, A DEFESA DO EX-PRESIDENTE LULA

O criminalista Cristiano Zanin Martins, que defende o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no processo nega que o petista seja o dono do apartamento do Edifício Solaris. Ele nega qualquer envolvimento do cliente com esquema de corrupção ou lavagem de dinheiro.

“As testemunhas não sabem de nenhum ato ilícito que tenha beneficiado o ex-presidente”, afirmou o advogado, ao final da audiência.

 

Tudo o que sabemos sobre:

operação Lava JatoLula

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.