Renata Pallotini (1931-2021)

Renata Pallotini (1931-2021)

José Renato Nalini*

11 de julho de 2021 | 10h45

Renata Pallottini em 2015. FOTO: SILVANA GARZARO/ESTADÃO

Em janeiro ela completou 90 anos e foi alvo de significativas homenagens. Depôs sobre sua trajetória de instigante influência em vários círculos, ouviu passagens declamadas de sua obra, encantou-se com a manifestação de respeito e apreço ofertados por todas as idades. Mulher extraordinária, produziu intelectualmente em várias áreas literárias. Foi poeta, dramaturga, contista, romancista e ensaísta.

Corajosa e combativa, não fugia ao confronto. Batalhou pela disseminação do teatro crítico e exerceu com fervoroso amor a docência por sete décadas. Militante das causas em que acreditava, empenhava-se em defendê-las e sustentá-las, sem receio de arrostar incompreensões.

Era generosa, oferecendo-se para formar novas turmas de jovens e a quem a procurasse, animava com estímulo persuasivo. Conciliava o temperamento forte, inquebrantável nos princípios, com inexcedível doçura. Era terna e carinhosa.

O lema que escolheu para encabeçar o seu perfil na publicação comemorativa dos 110 anos da Academia Paulista de Letras, em 2020, descreve bem o que foi a sua singularíssima existência: “A vida vale a dor da tentativa”. Também foi de extrema modéstia ao sintetizar sua biografia neste relato: “Eu nasci há muito tempo, aqui em São Paulo. Tive vontade de escrever desde antes de saber escrever. Escrever foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. Sem ela, sem a escrita e o prazer de escrever, eu não saberia o que fazer da vida. Tenho sido feliz e infeliz através da escrita. Mas, principalmente, tenho sabido o que fazer das minhas horas de insônia ou da minha solidão. Viver, na verdade, é buscar companhia e fazer companhia. Leitores, quando temos sorte, nos acompanham e são os amigos mais fiéis. Amigos que, se tivermos talento, serão também nossos amores”.

Cultivou a fraternidade latino-americana e prestigiava iniciativas culturais que alavancassem a tendência de aproximação brasileira com os países próximos, principalmente no âmbito da dramaturgia. Esteve por várias vezes em Cuba, ensinando teatro, na última vez em companhia de Ada Pellegrini Grinover, sua confreira na Academia. A narrativa de ambas sobre essa viagem trouxe momentos leves e alegres nas sessões da instituição.

Acreditava que o Brasil se enriqueceria cultural e humanisticamente, se convivesse mais a realidade das nações da América Latina. Um texto seu é eloquente: “Com a cana te compro, passageira fúria com que me agarro a esta bandeira: América do sul, porque não sobes a ribanceira?”.

Em poesia, seu início na literatura, escreveu “Obra poética”, “Chocolate amargo”, “No céu dos cachorros” e “Poesia não vende”. No teatro, tem numerosas peças encenadas e publicadas, que lhe valeram o Prêmio “Molière” “Governador do Estado” e “Anchieta”. Muito festejados os livros “Cacilda Becker: o teatro e suas chamas”, “Dramaturgia: a construção do personagem” e “Dramaturgia da televisão”.

O romance “Nosotros” também foi editado em francês, pela “Éditions l’Harmattan”. Escreveu ainda “Chez Madame Maigret”, “Eu fui soldado de Fidel” e “O país da utopia”. Ganhou o Prêmio Jabuti de 1966 e em 2016 foi a “Intelectual do ano” e recebeu o “Juca Pato”.

Professora Emérita da Universidade de São Paulo, sua vida foi devotada à semeadura dos melhores propósitos para um convívio humano e fraterno entre pessoas dispostas a se tornarem melhores e mais unidas. Em “O País da Utopia”, reconstitui a vida de seu avô anarquista, provindo de Macerata, no centro da península italiana. Adverte logo de início: “Tudo aqui vai ser mentira e verdade, imaginação, lembrança alheia, lembrança minha, saudade e um pouco de História. É só isto. Valerá pelo que vale”.

Valeu muito, Renata! Você travou o melhor e o mais árduo dos embates. Aquele destinado a fazer com que não existam diferenças injustas entre as criaturas: “Para que precisamos de palácios? Para abrigar alguns poucos privilegiados, enquanto a maioria, fora, passa frio e fome? Um palácio é casa de governantes e seus ministros, ou seus aristocratas nomeados, com seus títulos hereditários… quantas famílias, quantas pessoas poderiam viver num palácio real ou num palácio religioso, que abriga apenas os escolhidos pelo poder?”.

Valeu Renatinha, minha xará, o seu sonho utópico de que “os homens seriam assim e assado: todos honestos, sinceros, bem intencionados. A gente ia juntar todo o mundo, conversar e se entender. Não haveria interesses nem ganhos particulares. Tudo de todos, um pouco para cada um. Não faltaria o essencial para ninguém. E não existiriam as coisas dispensáveis. Não haveria lugar para a inveja, nem avareza, nem cobiça, nem ciumeira. O amor, então, barbaridade! Seria a melhor coisa do mundo, aquela que começa quando dois se encontram e, se terminar…termina de coração aberto, braços abertos, um dar e receber”.

Amor, Renata Pallottini, foi o motor de sua linda experiência vital, que encerra sua fase terrena, para tristeza nossa, neste 8/7/2021.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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