‘Rejeitados’ na Era Cabral, aliados de Witzel retomaram esquema que tinham com família Garotinho e Eduardo Cunha 

‘Rejeitados’ na Era Cabral, aliados de Witzel retomaram esquema que tinham com família Garotinho e Eduardo Cunha 

Empresário que prestou depoimento ao Ministério Público detalhou a suposta ‘caixinha da propina’ de 5% que existia na década de 1990

Caio Sartori/RIO

15 de setembro de 2020 | 13h07

O governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel (PSC), os ex-governadores Anthony e Rosinha Garotinho e o ex-deputado Eduardo Cunha. Fotos: Wilton Júnior / Estadão e Rodolfo Buhrer/Reuters

Apesar de Wilson Witzel ter sido eleito governador como uma figura de fora da política, os aliados que costuraram a candidatura do ex-juiz, agora denunciados por organização criminosa, são velhos conhecidos do Palácio Guanabara. Ao prestar depoimento, o empresário Edson Torres, ele próprio denunciado, contou que a suposta ‘caixinha da propina’ de 5% sobre contratos com o governo existia durante o governo de Rosinha Garotinho (2003-2007), com a participação do ex-governador Anthony Garotinho, do ex-deputado Eduardo Cunha e do presidente nacional do PSC, Pastor Everaldo. O grupo ficou de fora durante os governos de Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, do MDB, e viu em Witzel a oportunidade de voltar a atuar.

Edson Torres tinha contratos com dois dos mais poderosos órgãos do governo fluminense: o Detran, de trânsito, e a Cedae, empresa de água e esgoto. Esses contratos lhe renderam crescimento econômico durante o governo de Garotinho, entre 1999 e 2002. Quando o então mandatário renunciou para concorrer à Presidência, o grupo de Torres, Everaldo e Cunha se engajou na campanha de Rosinha, mulher do ex-governador, e passou a instituir a suposta ‘caixinha’. No período em que Benedita da Silva (PT) assumiu o governo interinamente, entre Garotinho e Rosinha, o empresário afirma ter tido ‘problemas’ – dando a entender que não conseguiu emplacar seus esquemas.

Já com Rosinha no posto, Torres passou a ganhar diversos contratos por meio de suas empresas, a Dinâmica Segurança Patrimonial e a Dinâmica Serviços – de maneira ‘lícita e ilícita’, segundo ele próprio. Paralelamente a isso, o percentual de 5% de propina passou a ser instaurado no âmbito da Cedae, onde desde aquela época Cunha e Everaldo exerciam influência. Juntos, eles teriam estruturado toda a direção da empresa.

Torres narra que, apesar de ter apoiado Cabral na eleição de 2006, seu grupo foi escanteado pelo novo governador e se manteve sem poder quando o sucessor, Luiz Fernando Pezão, assumiu o cargo. Foi nesse contexto que o empresário fundou empresas que passaram a atuar com o Hospital Universitário Pedro Ernesto. O diretor da unidade era Edmar Santos, ex-secretário de Saúde de Witzel e agora delator do esquema.

Naquele momento, Torres e Edmar mantiveram um mecanismo próprio de desvios no hospital, com o então diretor recebendo 10% de todos os contratos firmados com a empresa Magna Vigilância Segurança Patrimonial e 15% dos assinados com a Verde Gestão de Serviços, ambas pertencentes ao empresário.

“Iniciava-se aí a relação entre os dois que rendeu a Edmar o cargo de secretário de Saúde e membro da organização criminosa de Wilson Witzel com o poder de gerir o bilionário orçamento da Saúde”, escreve o Ministério Público Federal na denúncia contra a suposta organização.

Em 2016, a política do Rio viveu uma hecatombe com os escândalos da Era Cabral. Nesse vácuo, ‘velhos atores’, segundo o MPF, viram a oportunidade de retomar o espaço que haviam perdido para outros grupos. No final de 2017, Pastor Everaldo convocou uma reunião na sede do PSC, no Centro do Rio, para apresentar o então juiz Witzel a Torres e outro empresário, Valdir Lopes. O papo girou em torno da viabilidade política do magistrado e, depois, Torres e Everaldo conversaram sobre a segurança financeira de que Witzel precisaria para abandonar a magistratura e adentrar a política.

De acordo com o empresário, o atual governador afastado recebeu, ainda enquanto juiz, cerca de R$ 1 milhão em espécie para ter a vida financeira garantida por dois anos caso perdesse a eleição. O dinheiro teria sido arrecadado por Torres e outros empresários e era entregue em parcelas tanto ao próprio Witzel quanto a Lucas Tristão, que viria a ser secretário de Desenvolvimento Econômico e seu homem-forte no governo. Ele está preso e também é denunciado.

Depois de começar a campanha de 2018 com 1% das intenções de voto, Witzel surpreendeu e foi eleito governador – na esteira do bolsonarismo. Com isso, os grupos então preteridos do Palácio Guanabara voltaram a atuar. Segundo o MPF, a ‘caixinha da propina’ no governo Witzel teria arrecadado R$ 50 milhões para ele e Pastor Everaldo.

O governador está afastado do cargo por 180 dias, responde a processo de impeachment na Assembleia Legislativa e é denunciado por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

COM A PALAVRA, O GOVERNADOR AFASTADO WILSON WITZEL
“Mais uma vez, trata-se de um vazamento de processo sigiloso para me atingir politicamente. Reafirmo minha idoneidade e desafio quem quer que seja a comprovar um centavo que não esteja declarado no meu Imposto de Renda, fruto do meu trabalho e compatível com a minha realidade financeira. Todo o meu patrimônio se resume à minha casa, no Grajaú, não tendo qualquer sinal exterior de riqueza que minimamente possa corroborar essa mentira. O único dinheiro ilícito encontrado, até agora, estava com o ex-secretário Edmar Santos.”

COM A PALAVRA, O PASTOR EVERALDO
“A defesa do Pastor Everaldo esclarece que ainda não teve acesso à íntegra da investigação e da delação que embasaram sua prisão, ocorrida há 20 dias. A defesa informa que a nova de denúncia não está juntada aos autos processo e que não comentará trechos de processo que corre em segredo de Justiça. O Pastor Everaldo, que sempre esteve à disposição das autoridades, reitera sua confiança na Justiça e na sua libertação.”

COM A PALAVRA, A FAMÍLIA GAROTINHO
A reportagem busca contato com a família Garotinho. O espaço está aberto para manifestações.

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