Reinvenção de quase tudo

Reinvenção de quase tudo

José Renato Nalini*

17 de novembro de 2020 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O mundo parece dar piruetas. Os prognósticos sempre falham, mas ninguém conseguiu antecipar as reviravoltas de 2020. Esta nação, instigante laboratório para pesquisas antropológicas, sociológicas, psicológicas e políticas, desnudou-se em sua frágil complexidade. Já estávamos desencantados com a política, imersos numa grave crise ética e moral, que fez a economia sucumbir. Mas não prevíamos a peste e suas funestas consequências.

O dado mais doloroso está nas quase duzentas mil mortes contabilizadas. Além de outras que deixaram de sê-lo, pois nesta terra a fidelidade dos dados é ao menos discutível, tantos os Brasis contidos nesta imensa dimensão territorial. Milhões de seres enlutados, viram a interrupção dos sonhos, o golpe sem misericórdia de uma praga que poderia ter sido equacionada racionalmente, houvera clareza e objetividade no granito empedernido de responsáveis.

O negacionismo, a mediocridade a traduzir não apenas ignorância, mas deboche desdenhoso e ausência de mínimo respeito em relação ao semelhante, semeou ceticismo entre os mais vulneráveis.

Espanta a inércia dos apaniguados, que em nome de alguns valores, fecham os olhos para o debacle geral. Nunca se pensou chegássemos a tal estágio de preponderância do tosco, do ignóbil, do nefasto.

O conjunto de circunstâncias desfavoráveis mostrou ao mundo as verdadeiras entranhas de um País que já foi considerado pioneiro na tutela ambiental e que, após à redemocratização, vira a tranquila sucessão de um notável sociólogo por um metalúrgico pau de arara.

Agora, a liberação da floresta para o extermínio do verde, em nome de falaciosa e reducionista concepção de desenvolvimento, exibiu ao planeta uma terra em chamas. Não apenas se destrói a maior floresta tropical do mundo, como convive com o fogo no pantanal mato-grossense. O impossível acontece: a região sujeita a periódicas e benéficas inundações, que fertilizam seu rico solo, agora é uma fogueira.

Simultaneamente, escancara-se a face cruel da mais abjeta miséria. Os invisíveis, os informais, os despossuídos, os hipossuficientes, os carentes de tudo, são milhões. Somam-se aos desempregados, aos sem teto, aos sem saneamento básico, sem educação, sem saúde e sem esperança.

Passivamente se assiste ao degringolar melancólico dos valores. Prepondera o mau gosto, a palavra chula, o sarcasmo pueril, manifestações evidentes de nítida anomalia mental. Aplausos dos que se beneficiam do aperfeiçoamento da iniquidade: os poucos que têm muito, não querem sequer assegurar o pouco aos muitos que não têm nada.

Todavia, a Quarta Revolução Industrial é fenômeno ainda desprovido de freios. Os nativos digitais mostraram sua desenvoltura para dominar as tecnologias, criar aplicativos, descobrir funcionalidades e propiciar um hibridismo instigante. O mundo é outro e o protagonismo da lucidez tem condições de neutralizar o poder tradicional dos detentores de autoridade formal.

Cumpre lembrar que a conformidade com a licitude é condição necessária, mas não suficiente, para a preservação da hierarquia. O poder estatal não pode prescindir da legitimidade. E legitimidade é consentimento. Não é possível que uma nação que tem História, que teve paradigmas de compostura, de honradez, de probidade e de amor à Pátria se conforme com o desvario.

É o momento de se reinventar o convívio. A fórmula viável é a reinvenção da educação e do trabalho. A pandemia trouxe o quadro promissor da utilização das novas tecnologias para manter os educandos em dia com a sua formação e também atestou a possibilidade de um trabalho à distância, até mais produtivo do que o tradicional encontro físico nos ambientes descontaminados.

Cumpre investir em tal senda auspiciosa. O mundo que Domenico de Masi vaticinara como o do “ócio prazeroso”, ainda exige trabalho diuturno daqueles privilegiados que têm o que fazer. Mas de que trabalho se fala? Os prognósticos não são os mais auspiciosos. Daniel Susskind, pesquisador da Universidade de Oxford, na Inglaterra, escreveu o livro “Um mundo sem trabalho”, constatação já tangível. A automação acaba com os empregos. Cumpre formatar novas ocupações. De preferência, aquelas insuscetíveis de substituição por algoritmos.

O Brasil precisa de seres humanos dotados de amor à natureza. Que possam reagir ao ecocídio incentivado por figuras maléficas, às quais a História haverá de reservar o devido lugar na memória popular. Humanos que produzam mudas, que façam viveiros, que reponham o verde eliminado em todos os espaços, que restaurem as matas ciliares. Semeadores de novas florestas, para num futuro longínquo, devolver o verde ao pavilhão nacional.

A peste evidenciou a falta de cuidadores, de enfermeiros, de terapeutas, de nutricionistas, de psicólogos, de gente especializada em cuidar de gente. E as TICs reclamam criatividade, engenhosidade e empreendedorismo daqueles capazes de formular soluções para velhos problemas.

Esse o papel dos educadores a partir desta fase triste, mas pedagógica. A educação terá de ser outra. Adequada às urgências do momento. O Brasil regrediu de forma acelerada nos últimos anos. Cumpre a quem ainda não perdeu a noção do ridículo, enfrentar a turbulência e manter o rumo correto, para que um dia, se possa entregar às novas gerações aquele Brasil do nosso discurso e dos nossos sonhos.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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