Reflexões para o pós-pandemia: o papel da Educação na valorização da ciência

Reflexões para o pós-pandemia: o papel da Educação na valorização da ciência

Renan Brandão*

24 de junho de 2020 | 06h00

Renan Brandão. FOTO: DIVULGAÇÃO

Quando nos primeiros meses de 2020 assistíamos a imagens de países europeus com pessoas interagindo de suas varandas, praticando exercícios físicos ou cantarolando para melhor lidar com momentos tão imprevistos quanto dolorosos, confesso que a mim parecia uma situação distante da nossa realidade. Não me soava provável que estivéssemos, poucas semanas depois, inseridos em um cenário ainda mais intenso e desafiador.

Provável àquela altura ou não, fato é que a pandemia chegou ao Brasil e seguramente representa a maior crise vivida por nossa geração. Enquanto escrevo, somamos 100 dias de quarentena, um milhão de casos e 50.000 vítimas. Somos o segundo país no ranking mundial de casos registrados, atrás somente dos Estados Unidos. Dados alarmantes e incapazes de expressar a dor de quem perdeu um ente querido.

A despeito de aspectos políticos, raras vezes vimos a ciência ser tão mencionada quanto nos últimos meses. Com razão, diga-se. Afinal, seja na elaboração de protocolos para conter a disseminação do vírus, na busca por medicamentos e vacinas ou no planejamento para a vida em sociedade no pós-pandemia, a ciência é essencial.

Nesse contexto, como profissional da Educação, entendo que a responsabilidade de aproximar nossos alunos da ciência aumentará proporcionalmente no pós-pandemia, dado que uma das nossas funções é formar e qualificar pesquisadores para atuação na pesquisa científica.

Resiliência diante da adversidade imprevista

Para profissionais ligados ao ensino presencial, especialmente professores, o primeiro semestre de 2020 ficará marcado como um período de resiliência e adaptação. Se alguém dissesse, em janeiro, que hoje estaríamos oferecendo aulas ao vivo em meio digital a milhões de estudantes em todo o mundo, cada qual estudando de um local diferente e sem prejuízo à continuidade dos seus estudos, considerando a grande maioria dos matriculados, pareceria ficção. Não apenas tornou-se realidade como trouxe ensinamentos diversos a todos os envolvidos.

E foi um desafio para todos que passaram por essa adaptação, sem distinção. Em março, quando os efeitos da pandemia começavam a ser sentidos no Brasil, tive a oportunidade de participar, como voluntário, de sessões práticas de ensino da Harvard Business School, em que professores da instituição se preparavam para migrar o ensino presencial para meios digitais durante o cenário de crise.

Nesse sentido, nada diferente do que vimos por aqui. Professores habituados à sala de aula tradicional lidavam com a necessidade iminente de conduzir as atividades de suas turmas utilizando aplicativos de videoconferência que até então não necessariamente faziam parte de suas vidas diárias. Na maior parte dos casos, não faziam.

Foi assim em Harvard e foi assim na Estácio. A necessidade e a vontade de fazer dar certo superaram as adversidades e fizeram com que aprendêssemos rapidamente a lidar com aplicativos de videoconferência. Em questão de dias, nossos alunos já acompanhavam suas aulas ao vivo e no horário previamente programado. Do outro lado da tela, nossos professores evoluíam continuamente no uso das novas ferramentas. Hoje somamos ótimas práticas envolvendo sua utilização.

Um caminho para valorizar a ciência

Enquanto absorvemos tais aprendizados e evoluímos como educadores, refletimos, ao longo do semestre, sobre como fomentar a produção científica ainda mais intensamente nesses tempos desafiadores. No Centro Universitário Estácio de São Paulo, concluímos que faria todo sentido promover, ainda no primeiro semestre, um evento voltado à ciência que considerasse as particularidades do momento vivido. Precisava ser agora… e precisava ser por videoconferência, simbolizando os desafios superados. Assim nasceu a ideia de promover o I Simpósio Interdisciplinar da Estácio São Paulo (SIESP).

E ele ganhou forma. Entre os dias 24 e 26 de junho, nossa comunidade acadêmica receberá profissionais de renome, oriundos de diversas áreas de conhecimento, em nome da ciência. O I SIESP, voltado a incentivar a iniciação científica e a pesquisa acadêmica, terá mais de 50 palestras, abordando temas ligados ao cenário atual e ao pós-pandemia. As inscrições são gratuitas e abertas ao público pelo aplicativo Sympla, limitadas a 250 vagas por palestra.

Apesar de estarmos animados e orgulhosos, temos a clareza de que ainda é pouco. Representa um passo único em uma jornada contínua que devemos viver intensamente para incentivar cada vez mais alunos a descobrir a ciência e apaixonar-se por ela. Por outro lado, sabemos também que cada iniciativa conta e vale muito. O Brasil precisa, o mundo precisa.

Entre dores, desafios e reflexões trazidos pela pandemia, uma convicção: há lugar especial para a ciência no caminho a seguir. E a Educação, mais do que nunca, deve assumir seu protagonismo na construção de pontes que levem nossos alunos à descoberta do universo rico e repleto de possibilidades que surge a partir dela. Que assim seja.

*Renan Brandão, reitor do Centro Universitário Estácio de São Paulo

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